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Mulheres fazem um balanço dos fatos que marcaram 2016

A convite de CLAUDIA, professoras, escritoras, advogadas e outras analistas fazem um balanço dos fatos que mais movimentaram o ano no Brasil e no mundo

Por Liliane Prata Atualizado em 3 jan 2017, 15h51 - Publicado em 30 dez 2016, 08h00

O ano vai embora deixando a impressão de ter abarcado muito mais acontecimentos do que seria razoável para seus 366 dias – sim, além de intenso, 2016 foi bissexto. Pode reparar: ao seu redor, não deve faltar quem considere a resolução mais importante para 2017 se recuperar do que passou.

Exagero? Talvez, mas é fato que dificilmente você deixou de se envolver (e talvez compartilhar e discutir) com o impeachment da presidenta Dilma, a Olimpíada do Rio de Janeiro, as eleições municipais brasileiras e até a vitória de Donald Trump nos Estados Unidos.

Também não passaram em branco a consolidação de novas vertentes feministas na internet e nas ruas; o Prêmio Nobel de Literatura a Bob Dylan; e a morte de ídolos internacionais, como David Bowie e Prince, e nacionais, como o ator Domingos Montagner.

Nos intervalos, demos risada – de nervoso, talvez? – com memes como o da atriz Gloria Pires comentando o Oscar pela primeira vez, usado em situações diversas que invadiram as redes.

Para fazer um balanço de tudo, convidamos professoras, escritoras, advogadas e outras analistas para comentar os temas mais relevantes de 2016 pela ótica de mulheres que valem a pena ser lidas.

O Brexit e a paz na Colômbia

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CLAUDIA

Maristela Basso, advogada e professora de Direito Internacional da Universidade de São Paulo

“Os rumos do Brexit ainda são incertos – já que a Suprema Corte britânica declarou que só o Parlamento inglês pode decidir sobre a saída do Reino Unido da União Europeia. Na Colômbia, outro plebiscito, este sobre o acordo de paz entre o governo e as Farc, colocou o povo diante de um dilema ético talvez sem precedentes em sua história recente: pôr fim a uma guerra que dura mais de 50 anos e deixou cerca de 250 mil mortos ou aprovar um pacto que atentava contra a Constituição do país e os tratados internacionais de direitos humanos. Diferentemente dos ingleses, que optaram pela ruptura, os colombianos decidiram por não retroceder e continuar negociando um acordo mais democrático, referendado nacional e internacionalmente.”

A luta contra a corrupção

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CLAUDIA

Maria Gabriela Prado Manssur, promotora de justiça

“Protagonizada por autoridades respeitadas, a Lava Jato, maior investigação de corrupção e lavagem de dinheiro da história deste país, aproximou a sociedade da Justiça e, neste ano, mostrou que há punição e prisão para atos de ilegalidade e corrupção, independentemente de quem os pratique. Mas quase ninguém fala da relação entre corrupção e violência contra as mulheres. Nesses dois tipos de crime, a punição isolada não basta. É preciso ir além, pois os comportamentos se repetem e surge a sensação de que são aceitos pela sociedade. Há necessidade de uma educação social e desconstrução de comportamentos enraizados culturalmente, tanto da corrupção quanto do machismo: ambos causam a morte de mulheres.”

O fim de Dilma e Hillary, o início de Marcela e Melania

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CLAUDIA

Débora Diniz, antropóloga e professora na Faculdade de Direito da Universidade de Brasília

Hillary Clinton perdeu as eleições; Dilma Rousseff foi afastada da presidência. As mulheres da vez nos Estados Unidos e no Brasil serão duas beldades de iniciais MT. Marcela Temer e Melania Trump chegam ao poder acompanhando maridos que, por caminhos diferentes, destronaram pretensões de duas outras mulheres. Ambas escolheram o caminho da timidez recatada durante as campanhas. Marcela se fez de princesa ao anunciar o Programa Criança Feliz. Vestiu-se de azul rendado; o cabelo mais parecia de camponesa ingênua. Melania também já falou de criancinhas como compromisso das boas ações. Se há diferença entre as duas, é no vocabulário político para falar da infância: a brasileira se move pelo instinto da maternidade; a eslovena-americana pela segurança das crianças. São diferenças de texto que espelham a política de nossos países em relação às mulheres e à vida – por aqui, a maternidade como destino; por lá, o conflito como sobrevivência.”

A Olimpíada delas

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CLAUDIA

Janeth Arcain, ex-jogadora de basquete e prefeita da Vila Olímpica dos Jogos do Rio 2016

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“Foram os primeiros Jogos Olímpicos no Brasil. Havia tensão política e social no país, além de insegurança econômica. Não tinha como não ficar ansiosa. Mas as expectativas, tanto dos atletas como do público, foram superadas. Essa olimpíada ainda foi a que teve maior participação das mulheres da história. Que coisa bonita! A representatividade feminina é fundamental para a representatividade do povo brasileiro, e isso independentemente das medalhas conquistadas. Destaco, ainda, a realização dos Jogos Paralímpicos, que bateram recorde de ingressos vendidos.”

Nenhuma mulher ganhou o Nobel

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CLAUDIA

Stella Maris Rezende, escritora vencedora de quatro Prêmios Jabuti, entre outros

“Um Nobel de literatura para uma grande autora de letras de música? A academia não articularia tamanha transgressão. E, caso o fizesse, a polêmica teria outro foco. Diriam: ‘Ganhou por ser mulher!’ Para mim, quem deveria urgentemente ganhar esse prêmio é Lygia Fagundes Telles! Escritora de grandes livros, seus textos são literatura de alto nível: música, cinema, teatro, pintura, arquitetura e outras artes se interpenetram. E ainda seria uma polêmica em mais instigante e rica em significados o fato de ser uma mulher a levar o primeiro Nobel de Literatura do nosso país.”

Multiplicação dos movimentos feministas

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CLAUDIA

Mary Del Priore, historiadora

“Este foi um ano de divisões: multiplicaram-se as definições do feminismo. A franco-senegalesa Rokhaya Diallo acusa as europeias de usar salto alto, minissaia e batom, que estigmatizariam mais que o véu. Na Alemanha, após as agressões sexuais em Colônia, as feministas se dividiram entre condenar o Islã e denunciar o racismo de que os imigrantes são vítimas. As divisões estão em toda a parte, e a intolerância, em vez de decrescer, vem aumentando, haja vista o espetáculo dado por uma militante na última reunião da anpuh, que recusou o microfone oferecido por um palestrante do movimento estudantil, pois não aceitaria “nada da mão de hominho”. O essencialismo – sou mulher, portanto sou feminista – está mais fechando do que abrindo os debates. Um retrocesso.”

Evolução da tecnologia

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CLAUDIA

Camila Achutti, especialista em tecnologia

“No ano da maioridade do Google (sim, 18 anos!), vimos muita coisa. O iPhone perdeu a entrada do fone. Youtubers estamparam a capa da VEJA. Um impeachment saiu do Facebook. Operadoras tentaram derrubar o WhatsApp. A corte derrubou um serviço nacional porque ele se negou a abrir dados privados de seus usuários. Foi o primeiro ano em que o acesso à internet por celulares e tablets superou o por computador. Com tudo isso, o que vem por aí? Robôs inteligentes, computadores ultrarrápidos, apps incríveis, mas também ataque hacker, cyberbullying e revenge porn. Estaremos preparados? Já é quase 2017 e não vejo programação na grade curricular de todas as escolas. Não vejo a tecnologia em casa usada para aprendizado, só para entretenimento. Vimos muito no último ano e vamos ver muito mais, especialmente se estivermos preparados!”

Intolerância em alta

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CLAUDIA

Dulce Critelli, filósofa e psicóloga

“O ano foi de excepcional alastramento e legitimação da intolerância: ideológica, política, religiosa, racial, sexual… Esse não é um sentimento nem uma ideia de indivíduos isolados. Sua violência é cometida coletivamente contra aqueles que não se curvam a supostas verdades tidas pelos intolerantes como únicas e absolutas e que, como tal, os autorizariam a julgar e eliminar infiéis – matando-os ou banindo-os do Facebook. O credo prepotente da intolerância teve (e tem) seu auge nos movimentos e governos totalitários, que introduziram o ‘extermínio’ como alternativa para lidar com a diferença. Será a intolerância a alma deste século? Um alerta de que ela já embasa o consentimento popular é o fato de o novo presidente do país mais influente do mundo ter sido eleito com base num discurso de intolerância contra negros, imigrantes, mulheres…”

Atentados contínuos

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Arquivo Pessoal/CLAUDIA

Adriana Carranca, jornalista e autora do livro-reportagem O Afeganistão depois  do Talibã

“Em 2016, testemunhamos atentados em aeroportos em Bruxelas e Istambul; em uma casa noturna nos Estados Unidos; em um centro de compras em Munique; e (o mais letal) em Nice, na França, com 84 mortos. Penso neles e nos tantos mortos não lembrados. Foram 1 602 ataques terroristas e assassinatos em massa desde janeiro. Dois terços se concentraram na África e no Oriente Médio. Quando só os grupos armados dominam a narrativa, o que dizemos aos milhões que sofrem diariamente com a ação deles e com o silêncio do mundo é que só serão ouvidos se tiverem uma arma apontada para o Ocidente. Pense nisso ao compartilhar informações nas redes sociais. Dê espaço às vítimas e àqueles que lutam pacificamente onde criminosos dominam a narrativa. Vamos escrever a história de um mundo mais pacífico.”

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