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Depoimento: “Misturei trabalho e família e deu certo”

Foi com persistência, boa dose de resiliência e sintonia fina com o marido que Patricia Cruz, 43 anos, realizou sonhos que pareciam impossíveis: ser mãe e ter o próprio negócio.

Por Redação M de Mulher
Atualizado em 31 out 2016, 11h32 - Publicado em 7 nov 2013, 22h00

Patrícia com o marido e a filha
Foto: Camila Fontana

“No mês passado, ganhei uma linda orquídea do Fernando, meu marido. É exatamente igual à que ele me deu há dez anos, quando nos conhecemos. Naquela época, eu morava em São Paulo, mas sempre voltava a Piracicaba, cidade do interior paulista onde nasci, para visitar meus pais. Em um fim de semana desses, conheci o Fernando em uma oficina mecânica. Ele era advogado em Santos, no litoral paulista, e estava por lá para acompanhar a reforma do apartamento do irmão. Conversamos enquanto esperávamos nossos carros ficarem prontos e, como ele estava sozinho, perguntei se queria sair comigo e com meus amigos naquela noite. A conexão foi imediata e, em um ano, estávamos casados.

Fomos morar em Piracicaba, onde ele montou um escritório de advocacia. Em paralelo, decidimos abrir um negócio juntos. Administradora, sempre trabalhei em grandes empresas, mas sonhava com outro tipo de carreira. Pegamos nossas economias e aceitamos a ajuda do pai dele para inaugurar a Casa de Banho, loja de cosméticos nacionais e importados instalada em um lindo casarão. Mas o que parecia ser o início de uma vida próspera virou pesadelo. Sofremos três roubos que nos custaram nosso patrimônio. No primeiro, quando o negócio tinha só seis meses, limparam tudo e tivemos de vender um dos nossos dois apartamentos para cobrir o rombo. No segundo, o que não levaram deixaram quebrado. Então, vendemos o apartamento em que morávamos e um carro para tentar nos recuperar antes do Natal, época boa para vendas. Em novembro, fomos vítimas mais uma vez. Estávamos tão obstinados que passamos a dormir na loja. Mesmo assim, sofremos mais três tentativas de arrombamento.

Enquanto isso, tentávamos realizar outro projeto: ter um filho. A dificuldade de engravidar nos levou a procurar especialistas e descobrimos que meu marido não poderia ser pai. Aí, três meses depois, soube que, para completar, eu estava em menopausa precoce. Ficamos em choque e desesperados ao ver que, de repente, nosso sonho não viraria realidade. Por sorte, somos muito unidos e nos apoiamos sempre. Assim que saímos do consultório médico, conversamos e decidimos adotar um bebê.

Começamos o processo em 2007 e a espera durou três anos. Nunca desanimamos. Durante esse tempo, nos preparamos para assumir os novos papéis de pai e mãe. Fechamos a loja, pois seria difícil conciliar os horários do comércio com os de uma criança. Transformamos nossa empresa em uma marca de cosméticos. A produção seria terceirizada e a venda no varejo se daria em lojas franqueadas. Assim, não precisaríamos cuidar de uma estrutura grande e complexa, o que nos permitiria estar em casa às 18 horas. Vendemos nosso segundo carro e montamos o escritório. Íamos trabalhar de bicicleta no verão mais escaldante de que me lembro. O Fernando, que tinha parado de advogar, precisou retornar para garantir uma renda. Apesar de tudo, nos divertíamos. Meu marido fazia poesias e gravávamos vídeos para ver com a criança depois.

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Em novembro de 2010, nasceu a Maria Clara, uma menininha linda, e nos ligaram. A mãe dela havia fugido do hospital após o parto. Por questões legais, aguardamos 30 dias para poder adotá-la. Mas, aí, chegou o Natal e o fórum entrou em recesso. Finalmente, no meio de janeiro, recebemos o telefonema mais esperado dos últimos anos: podíamos buscá-la. Saímos correndo do Rio de Janeiro, onde passávamos férias, e voltamos para Piracicaba chorando de emoção. Quando chegamos em casa com a nossa filha no colo, familiares e amigos nos esperavam ansiosos. Foi uma das cenas mais lindas da minha vida!

O tempo não para. Doze dias depois da chegada da Maria Clara, me avisaram que eu havia sido aceita no programa 10.000 Mulheres, um curso de especialização da Fundação Getulio Vargas, em São Paulo. Apesar da vontade de ficar grudada em minha pequena, não faltei a nenhuma aula. Viajava às quintas e voltava para casa aos sábados. Meu marido parou de trabalhar às sextas para cuidar da nossa filha. No sábado, minha mãe dava uma força. Durante a semana, eu estudava e preparava o plano de negócios da empresa. Fazia tudo com a Maria Clara no colo. Não queria ficar nem um segundo longe dela. Com o que aprendi no curso, nossa empresa decolou!

O Fernando ainda advoga, mas nossa marca está crescendo e pode crescer muito mais. No ano passado, contratamos seis estagiárias do ensino médio para reforçar a equipe. São jovens carentes de 16 a 18 anos com histórias pesadas: algumas foram estupradas, outras se envolveram com drogas. Todo dia, nos reunimos para lanchar, conversar e trocar conselhos. Tem funcionado: elas agora se valorizam e se empenham nos estudos. Quero ensinar minha filha a batalhar por seus sonhos. Ela sabe que foi adotada e que foi muito desejada. Hoje, levo a vida que queria. E o principal: sei que, juntos, eu e o Fernando conseguimos fazer com que um dia seja sempre melhor do que o outro.”

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