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Conceição Evaristo e sua defesa pelo registro das vivências populares

Vencedora do Prêmio CLAUDIA em 2017, a escritora foi à Flip discutir o papel da leitura e da escrita na garantia de direitos

Por Letícia Paiva Atualizado em 12 jul 2019, 19h09 - Publicado em 12 jul 2019, 17h38

Autora de romances e contos publicados desde 1990, a escritora Conceição Evaristo, figura ativa na valorização da cultura negra, credita aos atos de ler e escrever um poder de afirmação das vivências de pessoas de classes populares, cujas vozes são raramente ouvidas. A autora usou desse poder para colocar no papel o que chama de suas “escrevivências” – esses relatos pessoais e de seu entorno registrados no papel, exercício que poderia ser praticado por qualquer pessoa.

Nesta edição da Feira Literária Internacional de Paraty (Flip), que homenageia o escritor Euclides da Cunha, Conceição Evaristo participou da mesa “Escrevivências e andanças: prazer em ler, direito de escrever”, realizada pela Fundação Itaú Social na quinta-feira, 11. Em 2017, ela foi a vencedora, na categoria Cultura, do 22º Prêmio CLAUDIA, que agracia mulheres com iniciativas inspiradoras e de impacto social em todo o Brasil.

Leia também: Conheça as candidatas na categoria Cultura na edição do Prêmio CLAUDIA deste ano e vote na sua favorita!

Em conversa com CLAUDIA nesta semana de Flip, a escritora falou sobre o espaço nos direitos humanos fundamentais ocupado pela leitura e pela escrita.

CLAUDIA: De que modo a escrita age no empoderamento de pessoas das classes populares?

Conceição Evaristo: Sabemos muito bem a dominação que sofre as pessoas que não têm acesso à escrita e à leitura em uma sociedade que se vale desses recursos, como a nossa. Na medida em que se tem acesso a eles, é possível acessar meios que até então pertenciam às classes privilegiadas. E, se vivemos em uma sociedade que se diz democrática, as classes populares têm o total direito de acessar esses meios.

CLAUDIA: No seu caso pessoal, como isso se deu?

C.E: Não foi de uma maneira fácil, mas, na medida em que fui me apropriando desses meios, é que comecei a ter mais possibilidades de abrir caminhos, inclusive para o meu trabalho. Tenho absoluta certeza, por exemplo, de que se não fosse o acesso que eu tive à leitura e à escrita, se não fosse também o fato de eu ser escritora, eu não estaria conversando com você.

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CLAUDIA: Qual o papel da valorização e o resgate da obra de autoras de origem popular, como você e Carolina Maria de Jesus, nesse processo?

C. E: A leitura chama a escrita e vice-versa. A escritora Carolina Maria de Jesus foi uma pessoa que não teve grandes acessos à educação, mas era extremamente curiosa. Carolina lia muito, e leitura provoca o desejo pela escrita. E é interessante que são dois bens culturais que, de modo geral, as classes populares têm dificuldade para acessar plenamente, mas que estão intimamente ligados à sua cidadania. Todos temos direito de acessar a língua portuguesa, mas isso convive com o desrespeito às variantes do idioma e com o preconceito linguístico, em que falar de determinado modo pode ser considerado errado ou ser alvo de deboche. O Brasil é um país imenso e nós temos a culpa de ter uma língua considerada única.

CLAUDIA: No atual momento da nossa sociedade, qual a principal dificuldade para efetivar esse direito?

C.E: A escola cumpre um papel fundamental, aqui incluindo os professores, os programas de alfabetização e a própria filosofia de educação. E quando se fala em educação, não é possível pensar em construir algo se nem o professor teve possibilidade de comprar livros, de exercitar a leitura, de ir a ambientes culturais. Se você planeja uma sociedade em que todos precisa ter acesso à leitura, então é preciso pensar não só na escola. A escola, no entanto, é o caminho. Até porque, de modo geral, os alunos de classes populares terão a escola como primeiro lugar de convívio e contato com o livro e, assim, com a leitura e a escrita. E quem põe a mão na massa para que isso aconteça são, evidentemente, os professores, que estão no dia a dia do cotidiano escolar.

CLAUDIA: Com essa emergência, há uma mudança de narrativas? Como textos que pretendem expor mazelas sociais podem coexistir com obras que visam apresentar modelos inspiradores?

C.E: Muitas vezes, se tratando de literatura, o que incomoda é o tratamento estereotipado dado aos personagens. Quem já tem grau de leitura um pouco mais avançado, com algum nível de conhecimento, não quer mais essa literatura, que fixa o sujeito em determinados lugares sem sair dos estereótipos. É preciso tentar várias situações sociais. Nem toda personagem negra necessariamente terá experimentado a pobreza, assim como nem toda pode ser de classe média. Discute-se também sobre qual perspectiva será usada. Ao falar de escravização de negros africanos no Brasil, por exemplo, discutimos se iremos escrever sob o ponto de vista do colonizador ou das pessoas escravizadas. Um exemplo que elucida essa situação é que nos agrada muito mais assistir ao filme Amistad [longa de Steven Spielberg que retrata uma rebelião de escravos americanos em um navio negreiro] a ler constantemente o poema O navio negreiro [escrito por Castro Alves no século 19 expondo a situação dos africanos capturados]. Isso porque o poema era especial para a época em que foi criado, quando tinha o objetivo de sensibilizar os senhores de escravos e a sociedade em favor da abolição. Naquele momento, o poema fazia muito sentido. Já Amistad nao eh mais o navio da impotência, ele é o navio da resistência. O navio negreiro do poema é o navio da impotência. Então é preciso saber dosar até que ponto é interessante expor e sob qual perspectiva. Não há como escrever um romance de época no Brasil sem falar da escravização, mas você pode escolher como retratar esses indivíduos.

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