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O aluno que morreu ao mudar um armário de lugar

Filipe Leme, de 21 anos, estava cumprindo um dia normal de trabalho até que uma ordem incomum custou-lhe a vida

Por Da Redação Atualizado em 17 fev 2020, 16h12 - Publicado em 3 jul 2019, 15h01

Filipe Varea Leme, estudante de geografia da Universidade de São Paulo (USP), de 21 anos, morreu enquanto transportava um armário. O acidente aconteceu no dia 30 de abril. O corpo do jovem foi encontrado dentro de um elevador, encurralado pelo armário que, ao se movimentar, lhe quebrou o pescoço.

Filipe estava completando mais um dia de trabalho como monitor de informática na Poli (Escola Politécnica da USP) quando ele e um colega foram orientados a mudar um armário de sala. Ambos dedicavam dez horas por semana ao Help Desk (serviço de apoio a usuários com problemas técnicos) do laboratório em troca de uma bolsa de R$ 530. Naquele dia, a supervisora da dupla havia dado a ordem para que eles transportassem o armário, embora a Poli conte com serviço interno de manutenção.

O acidente

Um dos professores da faculdade estava mudando seus objetos de sala e precisava de ajuda para transportar o armário de madeira. Foi quando os alunos receberam a ordem de parar com suas tarefas para ajudá-lo.

De acordo com testemunhas, a ideia de carregar o móvel em um carrinho para transporte de carga partiu do professor. Os rapazes, então, esvaziaram parte do armário para transportar seu conteúdo em caixas. Para evitar a escadaria, preferiram utilizar o elevador de deficientes.

Depois de algumas viagens para transportar o conteúdo do armário, os dois empurram o carrinho até o pequeno elevador para levar o móvel, mas não havia espaço para os dois entrarem. Sendo assim, apenas Filipe entrou no elevador de costas. Ele precisou apoiar a parte de cima do armário, que estava inclinado, com o próprio pescoço.

Filipe Leme
Filipe Leme Band/Reprodução

De acordo com o laudo, o carrinho entrou completamente no elevador, que não tinha porta própria e, por isso, era fechado apenas por uma porta de vidro que fica no andar. No entanto, dois parafusos na parte inferior do armário ficaram do lado de fora. Sendo assim, quando o elevador começou a descer, os parafusos enroscaram no piso e o armário subiu, quebrando o pescoço de Filipe e matando-o.

Com o acidente, o elevador parou entre os andares. Estranhando a demora e o fato de o elevador não descer, o colega enviou mensagens de WhatsApp para Filipe, que não respondeu. O rapaz, então, decidiu pedir ajuda. Segundo os depoimentos dados à polícia, uma mulher da diretoria da Poli apareceu gritando que “aquele elevador não era para transporte de carga”. De fato, havia uma placa informando que o equipamento era de uso apenas para alunos com necessidades especiais.

O SAMU (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência) chegou aproximadamente 50 minutos depois. Encontraram o corpo do estudante ainda em pé, pressionado pelo armário de madeira, já sem vida. Caberá ao IML (Instituto Médico Legal) informar se Filipe morreu na hora do acidente.

O laudo do Instituto Criminalística (IC) atribui a morte à quebra do pescoço do rapaz, análise que vai ao encontro do que informa a certidão de óbito, que menciona “contrição cervical” e “asfixia”.

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Investigação

De acordo com um engenheiro contratado pela família, o elevador operava fora dos padrões. Ele deveria contar, além da porta de vidro instalada no andar, com uma porta própria, que poderia ter evitado o acidente.

A Poli informou ao UOL que as condições da “plataforma acessível” e suas licenças de funcionamento estavam em dia e foram encaminhadas à perícia no dia do acidente. “O Instituto de Criminalística possui todas as cópias desses documentos, bem como realizou todos os testes, atestando seu funcionamento adequado conforme a norma vigente para plataforma acessível.”

O inquérito está quase chegando ao fim, mas o delegado responsável pelo caso ainda deve ouvir o pai de Filipe antes de concluir a investigação e encaminhar o relatório final ao Ministério Público, que vai analisar as provas e decidir se alguém será denunciado à Justiça.

Vista aérea da Poli-USP
Vista aérea da Escola Politécnica da USP Reprodução/Reprodução

Negligência

A defesa da família de Filipe afirma que o caso deve ser enquadrado como homicídio não intencional. “Diante das provas até aqui levantadas, tudo leva a crer que a morte de Filipe não foi uma mera fatalidade. Houve, ao que parece, negligência e imprudência por parte daqueles que deram a ordem aos meninos. A expectativa é a de que todos os possíveis envolvidos sejam responsabilizados pelo crime de homicídio culposo, sem intenção de matar”, afirmou o advogado Euro Maciel Filho também ao UOL.

Além disso, o advogado considera que houve “desvio de função, já que Filipe não estava ali para realizar serviço braçal”. “Além disso, tudo foi feito sem qualquer orientação ou fiscalização, o que também contribuiu para a tragédia”, completou.

A pena para o crime é de um a três anos e pode ser cumprida em regime aberto, com imposição de sanções restritivas de direitos, como limitação de fim de semana, prestação pecuniária à família da vítima ou prestação de serviços comunitários.

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