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Filosofia com avós: professora resgata histórias com projeto emocionante

O projeto "Filosofias de minha avó", da professora Maria Isabel, na Bahia, une filosofia e ancestralidade e é vencedor do Prêmio Educador Nota 10

Por Esmeralda Santos (colaboradora) - Atualizado em 22 out 2020, 13h20 - Publicado em 9 out 2020, 12h00

Maria Isabel dos Santos Gonçalves, 33 anos, nasceu e cresceu na comunidade rural conhecida como “Duas Passagens”, na Bahia. Por lá ainda não havia acesso a energia elétrica e as casas eram isoladas umas das outras, algumas separadas pelo rio que cruzava a comunidade. Quando a energia elétrica enfim chegou à região, veio também a televisão, ainda em preto e branco, a menor que havia na época.

A partir desse marco tecnológico, Maria Isabel se encantou pela arte e música. “Todas as famílias se reuniam na casa de quem tinha televisão, e depois cada um foi comprando a sua”, lembra ela. Na escola rural da região, as escolas eram multisseriadas, ou seja, alunos de idade entre 9 e 14 anos estavam na mesma sala.

Mas o que chamou a atenção de Maria Isabel, de fato, era o que a professora ensinava, e a partir dessa observação, cogitou ser educadora. Mas seu envolvimento com a poesia e escrita a fez pensar em uma educação um pouco mais interativa. “Queria trabalhar com o lado criativo, e eu não via esse processo na escola. Aqui, ser professora era a melhor opção, porque opção de trabalho não existia. Me senti desestimulada porque não via um caminho certo”, explica ela.

Maria Isabel na comunidade de Duas Passagens, na Bahia, onde cresceu Foto: Maria Isabel/Arquivo pessoal

As salas superlotadas e as aulas em um sistema tradicional de educação deixavam Isabel cada vez mais desanimada. Encontrou respaldo para não desistir em sua família. Desistiu do curso de Letras e, mesmo sem formação, ela chegou a dar aulas de química por cerca de um mês.

Os desafios não a impediram de sonhar e de conquistar uma formação pedagógica mais criativa que a permitisse ensinar por meio da arte. Hoje, dá aulas de filosofia no Colégio Estadual Rui Barbosa.  Alguns de seus alunos vivem em comunidades rurais, e Isabel os convidou para escrever poemas sobre o lugar que eles viviam.

“Fui me encantando pelas descobertas dos alunos na sala de aula, o quanto eles se encantam em aprender.  Voltei muito pelo afeto de ver o aluno aprendendo e gostando daquilo. Eles me fizeram professora, comecei a amar isso apesar das dificuldades, salas superlotadas, escolas públicas sem recursos pra desenvolver os projetos que temos em mente”, argumenta a educadora.

Pensar filosofia a partir das vivências dos avós

Isabel pensou que, para que o ensino fosse de fato marcante para o aluno, ela precisaria pensar em algo grandioso e que fizesse sentido em sua vida. Então, a partir das recordações que tinha de sua avó, ela criou o projeto “Filosofias de minha avó”, vencedor do Prêmio Educador Nota 10. A premiação, criada há 22 anos, valoriza os profissionais que atuam na rede pública de ensino.

O primeiro passo depois de ensiná-los a registrar todas as etapas por meio de um diário, foi pedir aos alunos que começassem a escutar as histórias que seus avós tinham pra contar e encontrar nas falas os aspectos filosóficos estudados em sala de aula. “Os avós falam muito da saudade do rio, e eles pensam em estratégias de revitalizar aquela nascente e isso foi muito emocionante pra mim. Alguns ouviam os pais, mas sempre pensando no avô como um referencial”, explica Maria Isabel.

O principal desafio da professora era fazer com que os alunos filosofassem sobre suas vidas e o território em que vivem, a partir das histórias contadas pelos familiares mais velhos, já que os alunos ainda não tinham a consciência de que a comunidade em que viviam poderia ser fonte de aprendizado.

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“Era mais um sentimento de negação de tudo, pela falta de recursos e acesso. Mas aquele lugar é o que faz a identidade deles”, argumenta a professora. A partir daí, ela começou a mostrar aos seus alunos que as comunidades de Boninal são museus vivos, e que a ancestralidade e história daquele lugar precisavam ser resgatadas. Para isso, Maria Isabel trabalhou o conceito Ubuntu, que fala da importância da aliança e relacionamento das pessoas.

Os meninos do povoado do Machado, após as entrevistas, saíram numa trilha em busca dos cenários descritos pelos pais e avós Foto: Professora Maria Isabel/Arquivo pessoal

O conceito de sabedoria também foi trabalhado com os alunos e avós. Quando eles perguntavam aos mais velhos o que isso representava, eles entendia que ser sábio, era saber ler e escrever, e nem todos eram alfabetizados. “O relato de vida é o retrato de sabedoria. Foram histórias emocionantes”, lembra. “Muitos falaram sobre a fome, alguns relatos se encontram nessa fala, de um tempo em que a fome assolou as comunidades de Boninal e o que salvou foi a farinha de mandioca”, explica.

O aluno Renan Gabriel cresceu em São Paulo e voltou à comunidade colhendo o legado de seus tios e avós Foto: Renan Gabriel/Arquivo pessoal

Nesse processo de contato com suas histórias e ancestralidade, muitos alunos se emocionaram, e o objetivo da professora de cravar em seus corações a herança produzida por Boninal foi atingido. O lugar que parece ter se perdido na seca, na verdade, guarda a memória de muitas histórias que não serão esquecidas.

“Muitas coisas foram negadas às nossas comunidades. É como se não pudéssemos deixar nossas memórias registradas. E quando nossos avós partem desse mundo, esse legado vai desaparecendo, e por isso é necessário um resgate de memórias a partir da lembrança das pessoas. Além do registro, queríamos trazer uma marca filosófica pra nossa região”, conta Maria Isabel, emocionada com o que o projeto se tornou nas mãos dos alunos.

A filosofia que partia dos idosos chegava com muita força até os alunos. Relatos como do seu Getúlio, que duranta uma das entrevistas questionou “qual seria o tempo de preferência? Seria aquele tempo, ou o tempo atual?”, levaram os alunos também a refletir. “Começamos a filosofar sobre o tempo, eles pensavam se trocariam a vida de hoje com tecnologias para a vida do avô, que tinha rio, e hoje não existe mais, árvores e natureza”, relembra a professora. “Mas também não havia energia, o tempo não passava, as pessoas se olhavam, havia uma troca maior entre as pessoas nesse tempo”.

Fotos da comunidade do Capão feitas pelo aluno Julcimar Macedo de Souza Rodrigues, do 3º ano Foto: Jucilmar Macedo de Souza Rodrigues/Arquivo pessoal

Maria Isabel ainda não tinha conhecimento do Prêmio, e quando se inscreveu por indicação de outra profissional, não tinha pretensão de ser premiada. Mas, com esse reconhecimento de seu trabalho, pode perceber como o projeto dá voz para as histórias que antes viviam escondidas nas comunidades.

“É um grito pela identidade,  por um lugar, e pelas pessoas que deram vida às histórias. As maiores educadoras são as avós e as mães, e que o aluno reconheça isso. Os alunos já têm esse referencial, falta as instituições de educação reconhecerem isso como educação, o ensino, quando feito por um referencial distante ou fora do afeto, é mais difícil de tocar”, diz.

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