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“Eva”, de Nara Vidal, brinca com a noção de sanidade e loucura

Com uma protagonista amargurada por um passado desconcertante, o livro da autora brasileira traça com elegância a relação problemática entre mãe e filha

Por Paula Jacob 4 jun 2022, 15h48

“Há alguém louco neste relato e eu me sinto muito bem e lúcida.” Nara Vidal convida o leitor, com o seu brilhante Eva (Todavia, R$ 54,90), a transitar em corda bamba diante da cabeça transtornada da personagem-título. Filha de uma família católica, ela teve o nome de batismo dado pelo pai em homenagem àquela lá que todo mundo sabe a história. Essa mesma, da maçã. Morder o proibido e lançar ao mundo uma maldição. É assim que a mãe de Eva a enxerga: depravada, endiabrada, terrível, incontrolável. 

Crescer ouvindo tantas desgraças relacionadas ao nome, ou ter os comportamentos infantis e adolescentes dos mais comuns justificados com esse ~misticismo~ disfarçado de impaciência-rivalidade, fez Eva desenvolver uma relação complicada com a maternidade – há de se imaginar o porquê. Porém, com a morte da mãe, um vazio se instaura em sua vida e as memórias de antes passam a interferir nas lembranças do agora. “Antes de existir o tempo, houve a mãe”, e sem ela, impossível estruturar a linguagem interna de modo a fazer-se sentido no mundo. E mesmo na sua ausência, ela sempre estará presente, no ideal imaginado para si por aquela que a criou, nas cobranças do ser-não ser de tal jeito, nos julgamentos de sua vida sexual e amorosa.

Eva, Nara Vidal
Paula Jacob/Arquivo pessoal

Eva, então, se perde, de si, do filho, do marido, da floricultura que avista da janela recoberta por linho marrom no balançar das cortinas. Escuta um ruído de telefone que a busca incessantemente para aulas de português, mas a percepção é de imaginar o barulho, mesmo com o testemunhar dos vizinhos. Ela volta ao passado para justificar o presente, “não é só a falta de descaso que seca a gente. É a tristeza que, por vezes, nem eles sentem, mas a mãe sim, inventa a dor, rejeição, amargura, sofrimento, culpa”. E se perde nesse rememorar de dores jamais elaboradas que ainda machucam o corpo e “o que ficou não dá para ver”. Não mesmo, mas ainda sente, ressoa, cava buracos mais profundos e nos faz desencantar com a vida. 

Em direção ao fim, Eva se mostra pronta para abraçar o destino que lhe foi dado desde o batismo, cumprindo a imagem que sua mãe lhe deu sem pedir licença. E a escrita bonita de sua autora faz confundir o leitor da mesma forma que sua personagem está confusa, tudo se mistura, tudo corrói, vemos as ruínas e as estranhas dessa mulher amargurada. 

Uma tristeza elegante de ler, não por romantizar – pelo contrário. Elegante porque respeita o desenrolar misterioso dessa figura que o tempo todo foge do seu feminino ancestral e atual; pela linguagem usada e metafórica de silêncios. “O capricho de uma língua é sua utilidade. Sem uso, gasto e abraço na lida de todo dia, transformam os livros e os estudiosos em tolos e pretensiosos.” Do alto desse penhasco emocional, do qual somos cúmplices calados, Nara brinca com a nossa noção de sanidade diante da vulnerabilidade de Eva. Desse relato transpassado por culpa e violência, quem estaria, então, louco, nós ou Eva? “A loucura é a liberdade mais próxima àquela da morte.” Impecável.

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