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Projeto “Lélia Gonzalez Vive” é um mergulho no legado da ativista negra

Pioneira, a produção intelectual de Lélia se mantém atual e necessária para entender as lutas antirracista e feminista no Brasil

Por Ana Carolina Pinheiro Atualizado em 23 fev 2021, 11h26 - Publicado em 22 fev 2021, 20h59

Folhas de papel e lápis de cor no chão. Essa é a principal lembrança que Melina Lima tem da sua avó. “Ela instigava que nós fossemos criativos e sempre foi muito alegre e carinhosa”, lembra Melina. Para o lado de fora da casa da matriarca, em Santa Teresa, no Rio de Janeiro, Vó Lélia era a renomada intelectual Lélia Gonzalez, que ganha nesta segunda-feira (22) mais um reconhecimento da sua trajetória enquanto antropóloga e ativista do feminismo negro no Brasil, o projeto Lélia Gonzalez Vive.

O desejo da família de aproximar ainda mais a obra de Lélia da sociedade foi o que culminou na parceria com a ONG Nossa Causa e, consequentemente, na iniciativa. Entusiastas da antropóloga terão a um clique de distância conteúdos em formatos de entrevistas, palestras, aulas, além de depoimentos de familiares e pesquisadores, no site e nas seguintes redes sociais: @leliagonzalezoficial@nossacausa  (Instagram e Twitter) e nossacausa (Facebook).

“Sempre tivemos a vontade de tomar a frente para exaltar o seu trabalho. Por mais que os escritos dela sejam atuais e acessíveis, queríamos dar mais contemporaneidade a eles”, explica Melina, que atua na organização ao lado do pai, da tia e do seu irmão, filho, sobrinha e neto de Lélia.

As palavras de Lélia, na visão da neta, servem como colo para uma população que teve parte da sua história silenciada. “Ler ela é muito bom, porque você se sente acolhido”, aponta Melina, que foi ter conhecimento da grandiosidade da avó apenas no final da juventude. 

Lélia Gonzalez
Lélia e sua neta Melina Acervo pessoal/Reprodução

Para entender e dialogar com a sociedade, principalmente com os afro-brasileiros, Lélia transitou em temas que iam da psicanálise ao candomblé em seus estudos.

Assim, ela desenhou o conceito de interseccionalidade na tentativa de se encontrar tanto dentro do movimento negro como no feminista. Debruçando-se sobre esse recorte, Lélia foi a primeira intelectual a sair do Brasil para debater a condição da mulher negra brasileira e teve o livro Por um Feminismo afro-latino-americano publicado com suas críticas sobre as condições que atravessam esse grupo.

Em 2019, a filósofa e ativista Angela Davis foi aclamada pelo público durante sua vinda ao Brasil. Na ocasião, ela alertou para a importância e necessidade de Lélia Gonzalez ser reverenciada em seu próprio país. “Falo tanto da Lélia porque o trabalho dela aborda o feminismo anticapitalista e antirracista. E ela enfatiza a conexão com as pessoas indígenas. Isso confronta a gente nos Estados Unidos”, disse a estadunidense.

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Quem foi Lélia Gonzalez

Ao se deparar com a história do ativismo negro no Brasil, Lélia é uma figura onipresente. Ela passou das escadarias do Theatro Municipal de São Paulo, onde participou do surgimento do coletivo político Movimento Negro Unificado (MNU), à Organização das Nações Unidas (ONU), em que ocupou como vice-presidência do 1º e do 2º Seminário sobre a “Mulher e o apartheid”.

Lélia e Angela Davis
Lélia Gonzalez ao lado da também ativista Angela Davis. Foto: Acervo Lélia Gonzalez/Reprodução

A educação, apoiada e proporcionada pela família, foi a grande responsável pela sua mobilidade social. Nascida em Minas Gerais e penúltima da prole dos 18 filhos de Acácio Joaquim de Almeida e Urcinda Seraphim de Almeida, ela teve a oportunidade de não parar os estudos para trabalhar.

“O irmão dela, o Jayme de Almeida, era jogador de futebol e foi chamado para o Flamengo. Por isso, toda família se mudou para o Rio de Janeiro”, explica Melina. A ascensão do irmão, um dos primeiros ídolos negros do futebol brasileiro na década de 1940, fez com que Lélia avançasse nos estudos.

Lélia - Melina
Inspirada na avó, Melina entrou na faculdade de história e é ativista do movimento negro Acervo pessoal/Reprodução

Ela se graduou em história, geografia e filosofia; fez mestrado em comunicação social e doutorado em antropologia política, focando sua pesquisa no recorte gênero e etnia. Lélia também ocupou as salas de aulas como professora na rede pública e no ensino superior.

Além do MNU, a intelectual também fundou o Instituto de Pesquisas das Culturas Negras (IPCN), o Coletivo de Mulheres Negras N’Zinga e o Olodum.

Esse pioneirismo transformou e inspirou a família. Um exemplo disso é que Melina entrou na faculdade de história por conta da avó. “Quando contei para o meu pai, ele chorou. Passei boa parte do curso sem falar do parentesco para evitar comparações. Mas é gratificante ver como ela é ovacionada por essas grandes pensadoras brasileiras”, finaliza a neta, que espera o projeto espalhe ainda mais esses ensinamentos de Lélia.

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