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Gil Viana é empresária e luta pela representatividade no mercado da música

Em entrevista a CLAUDIA, a baiana conta sua história e fala sobre a importância de dar oportunidade para jovens negros e periféricos

Por Maria Clara Serpa (colaboradora) - Atualizado em 30 jun 2020, 18h39 - Publicado em 30 jun 2020, 18h00

“Mãe, cheguei! Estou em um lugar que eu acho que se chama rodoviária Tietê”. Foi assim que a pequena Gilvana Viana, de apenas 11 anos na época, avisou à mãe que havia vindo para São Paulo com a irmã mais nova. As meninas viajaram em um ônibus por mais de 32 horas da Bahia até a maior cidade do país, sem dinheiro para comer e sem a companhia de um adulto para poder encontrar a mãe, que vivia longe há alguns anos. Apesar de ser cheia de sonhos, aquela menina jamais imaginaria que chegaria onde chegou. Hoje, aos 53 anos, Gil é dona de duas empresas – uma delas com uma filial internacional – e luta pela maior presença de lideranças negras no mercado de trabalho, além de, com sua posição, fazer questão de dar oportunidade para vários jovens periféricos.

Nascida em Jequié, a 365km de Salvador, Gilvana viveu com o pai, a mãe e as três irmãs até os 4 anos, quando seus pais se separaram. Com a falta de oportunidade, a mãe teve que se mudar para São Paulo para trabalhar como empregada doméstica e as filhas ficaram na cidade natal, morando com o pai. Algum tempo depois, ele se casou novamente com uma mulher extremamente ciumenta que não tinha uma boa relação com as meninas.

Cansada dessa situação depois de alguns anos, Gil resolveu fugir. “A ideia de fugir para morar com minha mãe surgiu quando eu tinha 9 anos. Tentei fugir várias vezes no carro da minha vizinha, mas sempre era pega. Um dia também acabei falando dormindo sobre meu plano e minha madrasta ouviu. Apanhei muito. Dois anos depois, decidi que realmente não dava mais. Conversei com minha vizinha, que se dispôs a me ajudar, e levei comigo minha irmã mais nova, que era a que mais sofria com minha madrasta, por ser muito parecida com minha mãe”, conta Gil em entrevista a CLAUDIA.

Arquivo pessoal/Reprodução

A última vez que esteve em sua casa em Jequié foi em uma manhã de sábado, antes de sair para o trabalho – Gil trabalhava como manicure desde os 9 anos. Naquela noite, já não voltou. Junto com a irmã mais nova, foi para a casa da vizinha, que as levou até a rodoviária de Feira de Santana e pagou as passagens para elas irem para São Paulo. “Eu tinha roubado o RG da minha irmã mais velha para levar na viagem. Ela tinha 13 anos, eu achava que se me pegassem e eu dissesse ter 13 daria menos problema do que dizer que tinha 11”, afirma Gil.

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Depois do susto de descobrir que suas filhas estavam sozinhas em São Paulo, com ajuda de sua patroa, que era advogada, a mãe de Gil conseguiu ir ao fórum e arrumar toda a documentação das meninas que, assim, começaram uma vida nova. Para ajudar a pagar as contas da kitnet onde viviam, Gil logo foi atrás de um emprego como manicure e fez um curso de cabeleireira, mas sempre soube que não era aquele o futuro que queria para si. Aos 16, conseguiu um emprego como secretária em um estúdio de fotografia e foi a partir daí que tudo começou a mudar.

Mercado de trabalho

Ao perceber o potencial da menina, o chefe de Gil passou a dar mais oportunidades de crescimento para ela dentro da empresa e pagou sua faculdade de economia. “O que falta para as pessoas negras é oportunidade, então quando tive a sorte de encontrar pessoas que acreditaram em mim, agarrei as oportunidades e me esforcei ao máximo para fazer valer a pena”, diz. Alguns anos depois, ao buscar um emprego na área de audiovisual, entrou em uma produtora e percebeu que não gostava tanto da área de vendas como pensava. Sua parte preferida do trabalho era conhecer gente e se comunicar. Por isso, quando foi convidada para trabalhar na área de atendimento de uma grande produtora internacional, se realizou. Era aquilo.

“Eu basicamente tinha que bater na porta das agências para oferecer o trabalho da minha chefe. Eu fui para essa empresa achando que seria assistente, mas quando cheguei, só havia vaga de atendimento. Estava muito insegura, não achava que era capaz, mas os supervisores acreditaram em mim, disseram que eu era articulada e comunicativa. Deu certo”, conta a baiana.

Arquivo Pessoal/Reprodução

Ao longo dessa caminhada, Gil se casou com Valdimir Martins, com quem está há 27 anos, e teve três filhos, Arthur, de 24 anos, Kevin, de 18, e João Pedro, de 16. Foi depois de ser mãe, sua perspectiva com o trabalho mudou. Apesar de nunca ter parado de estudar e amar o que fazia, ela queria ter mais tempo para ficar com a família. “Eu gosto de ter meus pintinhos todos embaixo da asa, sabe? Queria ter mais tempo para ficar com eles e também estava tendo vontade de trabalhar diretamente com música”, conta Gil que, nessa época, já era diretora comercial de uma produtora.

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Empreendedorismo

Foi em 2012, depois de alguns anos trabalhando com produtoras de som, que Gil se sentiu completamente preparada para empreender e abrir seu próprio negócio na área. Ao conversar com dois amigos, surgiu a ideia de criar a Mugshot, produtora e estúdio criativo de música que eleva a autenticidades das trilhas sonoras para artistas e marcas. “Era um passo ousado que estava dando. Pensei mil vezes, me questionava se estava fazendo o certo. Me perguntei até se deveria estar fazendo aquilo com os meus dois sócios, já que são dois homens brancos e ricos, completamente diferentes de mim”, explica. Mas, a verdade, é que desde o início a produtora foi um sucesso e hoje trabalha com grandes marcas e artistas. O trio também criou a Punks S/A, uma provedora e licenciadora de conteúdo musical reconhecida como a maior vitrine de música independente do mundo, completamente online.

Gil, que já era conhecida no meio publicitário, ficou responsável pela parte de gestão, e seus sócios, pela parte criativa. Hoje, ela faz parte da porcentagem baixíssima de mulheres negras em cargos de liderança – elas representam apenas 0,4% desses cargos e recebem, me média, 42% menos dos que as mulheres brancas.

A empreendedora usa seu lugar privilegiado para lutar contra o racismo e dar oportunidade para jovens negros periféricos. Na Mugshot e na Punks S/A ela preza pela diversidade e faz questão de ter na equipe pessoas negras, mulheres, LGBTs e PCDs. “Quando se fala de representatividade, acho essencial entender como pessoas com perfis e histórias de vida diferentes são capazes de produzir outras leituras de mundo. A maioria dos diretores e colegas de profissão são homens brancos, então o meu trabalho passa por esse ponto de enxergar além do que eles enxergam”, afirma. 

Além dos funcionários, as empresas também buscam sempre dar oportunidade a artistas negros que estão começando e indicá-los para a maior quantidade de projetos possíveis. Gil aposta em uma nova geração de mulheres negras que vieram para marcar a música brasileira, como Xenia Franco, Iza, Negra Li, Yazlú, Mahmundi, Karol Conka, Indy Naise, Rosa Neon e Agnes Nunes. “Na Mugshot somos capazes de sugerir a Iza para um projeto e a Yzalú para outro, por exemplo, porque entendemos que para além do fato de serem mulheres negras, são artistas com nuances que podem conversar melhor com determinadas propostas. Me sinto realizada em contribuir com essa visão”.

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Racismo

“Muita gente me conhece, vê que sou bem-sucedida, estou sem de bom humor, alto astral, e acha que eu nunca sofri racismo. Isso, obviamente, não é verdade”, diz Gil. Ela relembra que a primeira vez que se sentiu discriminada foi logo depois de sua chegada em São Paulo. Até então, na Bahia, não havia sofrido racismo. O episódio aconteceu quando ela tinha mais ou menos 12 anos e, depois de receber seu salário de manicure, resolveu ir a um supermercado comprar um pacote de bolacha. “Era um mercado de elite que eu sempre olhava e acha muito chique. Quando tive a oportunidade, entrei”, conta. Na fila do caixa, foi questionada por um homem o porquê de estar ali, já que aquele lugar não era feito para “pessoas como ela”.

Apesar de fragilizada, Gil não abaixou a cabeça e não deixou com que isso a fizesse deixar de sonhar. E é exatamente isso que ela tenta passar para seus três filhos, que sempre lidaram bem com as situações de preconceito que enfrentam. “Eu empodero meus filhos. Quero que eles amem a pele deles e parece que está dando certo. Só vi um deles realmente triste por isso uma vez, devido a xingamentos que ouviu na escola. Obviamente não deixei para lá e, na hora, fui até o colégio para relatar o ocorrido e exigir que tomassem providências”, lembra.

Arquivo Pessoal/Reprodução

Sobre as atuais mobilizações envolvendo os movimentos Black Lives Matter, ela diz enxergar a importância do movimento, mas afirma que isso tudo está acontecendo muito tarde por aqui. “Obviamente é muito importante falar sobre isso, mas sinto que muita gente está se aproveitando disso só porque está ‘na moda’. Tanto que é comum ouvir brancos falando que não sabem o que é racismo ou que não entendem como isso acontece. As pessoas falam muito nas redes sociais, mas na hora de ajudar de fato, não fazem nada. Tem que parar e pensar em quantos negros você empregou e para quantos negros você deu oportunidades”.

Futuro

Há 3 anos, Gil mudou-se com a família para Portugal em busca de uma vida mais tranquila e segura e, também, para ficar mais próxima do filho mais velho, que mora em Dublin, na Irlanda. Em Lisboa, abriu uma filial da Mugshot que trabalha com países europeus e, desde então, divide seu tempo entre sua casa e o país natal.

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Desde o início da pandemia, todos os funcionários das empresas estão trabalhando de casa e, segundo ela, como os negócios são quase inteiramente digitais, está funcionando muito bem assim. Ela até se questiona se eles voltarão de fato a trabalhar no escritório mesmo depois que tudo passar. A empresa também deu todo o apoio necessário aos colaboradores que não tinham computadores ou cadeiras adequadas para trabalhar em casa enviando os equipamentos do escritório e instalando internet na casa daqueles que não tinham.

Apesar da atual situação do mundo, Gil é positiva. “Hoje em dia o mercado de trabalho e o mundo já estão bem melhores, apesar de ainda ter muito o que mudar. Apesar de pouco, hoje vemos mais pessoas negras estudando e trabalhando em empresas. Acho que, depois da pandemia, vai haver uma mudança bem grande também e o mundo estará ainda melhor, valorizando as pequenas coisas”, afirma. Em relação ao racismo, ela tem o mesmo pensamento e acredita que caminhamos para uma melhora. “Hoje há mais visibilidade, tem muita mais gente lendo livro de escritores negros, assistindo filmes com essas temáticas. Vai ser um mundo melhor para meus filhos quando forem mais velhos e nós temos que continuar trabalhando para que eles possam colher os frutos no futuro”.

Arquivo Pessoal/Reprodução

Quando questionada sobre qual o seu papel e se se sente uma inspiração para as meninas negras, Gil responde: “Estou aqui para criar pontes, essa é minha principal meta. Quero fazer com que as oportunidades surjam, assim como foi na minha história. Quero que todas as pessoas negras, homens e mulheres, saibam que elas podem e devem ter sonhos, que é possível chegar onde eles querem. Hoje em dia o mercado exige muito, exige que os funcionários falem outras línguas, que tenham uma ótima formação, experiência, mas não dá oportunidade. Como os empresários querem isso tudo se as pessoas sequer conseguem estudar? Como empresária, não estou aqui para tirar a oportunidade de ninguém, mas sim para fazer com que elas surjam e também servir como inspiração e mostrar que, apesar das dificuldades, dá sim para ir muito longe”.

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