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Bodour Al Qasimi, a empresária que quer mais mulheres no mercado editorial

Presidente da International Publishers Association (IPA), ela conversou com CLAUDIA sobre a importância da diversidade e inclusão no mercado editorial

Por Joana Oliveira 11 jul 2022, 09h15

Bodour Al Qasimi está sempre carregando livros para cima e para baixo. Leitora compulsiva, ela devora de romances juvenis e HQ’s a não-ficção, poesia e obras de História. Atualmente, está “obcecada” pela literatura do argentino Jorge Luis Borges. Mas o que mais faz seus olhos brilharem é o ativismo em prol de que mais mulheres publiquem suas histórias e ocupem papéis de liderança no mercado editorial. Aos 44 anos, a saudita que carrega o título de sheikha (ela é filha do Sultão Muhammad Al-Qasimi), não apenas é fundadora da editora infantil Kalimat Grup e presidente da Associação Internacional de Editores (IPA, na sigla em inglês), como também criou o movimento PublisHER, com a missão de promover a carreira de mulheres nesse mercado, com mentorias e promovendo debates e encontros de relacionamento. 

Bodour veio ao Brasil na semana passada para se reunir com 50 mulheres editoras em São Paulo e lançar o PunlisHER no país, com o apoio da Câmara Brasileira do Livro (CBL) e do Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL), e conversou com CLAUDIA sobre sua trajetória na indústria editorial e os obstáculos enfrentados no combate à discriminação de gênero nesse mercado. “Mesmo à frente da IPA, enfrentei muito mansplaining. Às vezes, eu dava alguma ideia em voz baixa e, de repente, um colega homem repetia essa ideia num tom mais alto e era celebrado por sua criatividade. Tive que aprender a dizer: ‘Ei, eu acabei de dizer isso!'”, lembra ela, que, em 125 anos da instituição, é apenas a segunda mulher (e a primeira de origem árabe) a assumir a presidência.

Para além de incentivar a participação de mulheres no mercado editorial, Bodour quer que elas se sintam confiantes para abrir mais portas e romper tetos de cristal em todas as áreas. “É muito comum mulheres se sentirem sempre inferiores ou menos capazes, principalmente no mercado de trabalho. Uma coisa que os homens têm é autoconfiança. Quando veem uma oportunidade de trabalho, mesmo que sejam apenas 10% qualificados para aquele posto, eles não hesitam. Enquanto nós sempre nos questionamos, duvidamos de nossa experiência e sequer nos candidatamos. Acho que passamos a reivindicar nossa autoestima nesse sentido a partir dos 40 anos, acredito, mas aí já perdemos uns bons 20 anos de nossas vidas por causa disso. Por isso é importante a imagem de mulheres no poder: é um espelho para as demais“, afirma.

Quais são as suas primeiras lembranças envolvendo livros e literatura?

Eu acho que eu estava segurando um livro mesmo antes que eu pudesse andar. Sempre tive muitas lembranças divertidas envolvendo livros e leituras, porque eles eram uma parte importante da educação que meus pais nos davam. Meu pai também é um editor e escritor, ele mesmo é autor de 70 livros, então era uma parte importante de nossa família. Eu sou mãe de quatro filhos e também os criei cercados de livros, perto da cama, na sala, em todos os cômodos. Acho que ensinar as crianças a amarem a leitura desde muito pequenas é uma bela maneira de educá-las.

Seus filhos foram a principal inspiração para que você abrisse sua própria editora infantil?

Sim, com certeza. Minha filha mais velha tem 19 anos hoje e, quando ela tinha quatro anos, me disse: “Eu odeio livros árabes, porque eles são muito chatos”. E eu tive que concordar [ri]. Foi quando abri a editora. Queria que as crianças tivessem a oportunidade de apenas ler livros, sem ter que necessariamente aprender algo. Os livros árabes sempre têm uma lição a ser aprendida, uma moral da história, e era isso que as crianças achavam enfadonho. Eu queria publicar histórias que fizessem as crianças rir e de se divertir enquanto leem, com narrativas e ilustrações que estimulem a imaginação delas.

Foi então que decidiu apostar no mercado editorial como trajetória profissional?

Na verdade, só me senti inspirada pela ideia da minha filha. Como estudei Antropologia, nunca havia pensado em trabalhar na indústria de publicações. Pensei em fazer como um trabalho à parte, quase por diversão. Foi quando várias amigas e mulheres que eu não conhecia me pediram para não parar com as publicações, porque viam ali uma mudança necessária. Foi esse feedback que me incentivou a não olhar para trás e, até então, este tem sido o melhor emprego que já tive. Conheço pessoas incríveis nesse mercado, que é muito humano, de gente generosa, inteligente, apaixonada pelo que faz.

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E você enfrentou obstáculos nessa indústria pelo fato de ser uma mulher?

Sim e não. Quando entrei nesse mercado, vi que havia muitas mulheres trabalhando nas editoras, mas elas não chegam aos cargos de liderança. Eles são editoras, publicitárias, contadoras, mulheres que são, verdadeiramente, a alma dessa indústria, mas não têm o poder de tomar decisões. Isso fica com os homens. Como dona da minha própria editora e presidente da IPA, não raro sou a única mulher numa sala de reuniões. A própria IPA é um organização de 106 anos eu sou apenas a segunda mulher a ocupar a essa posição. Precisamos de mais de nós em cargos de liderança no mercado, porque, se mulheres decidirem o que será publicado, elas escolherão livros que empoderem meninas e jovens mulheres, com histórias com protagonistas femininas fortes. Assim, as crianças crescerão com novas narrativas do que significa ser mulher.

Na minha experiência, enfrentei mais obstáculos por ser uma mulher árabe, especialmente uma que não atende à ideia pré-concebida de como uma mulher árabe deve ser. Quebrar esses estereótipos também precisa ser nossa missão.

Por isso você decidiu criar o PublisHER?

Sim, no começo, foi tudo muito informal, um jantar com 15 mulheres na Feira do Livro de Londres, em 2019. Nos reunimos para descobrir porque éramos tão poucas e todas tinham histórias para contar de discriminação de gênero, falta de exemplos femininos de liderança, falta de autoconfiança para ocupar um cargo de decisão. Eu acredito que, quanto mais falamos e compartilhamos, maior a chance de chegarmos a uma solução. Gosto muito, por exemplo, do que o Reino Unido vem fazendo para incentivar a publicação de mulheres em seu mercado editorial, com prêmios exclusivos para escritoras, prêmios para diversidade, programas de mentoria feminina para ocupar posições de destaque, igualdade gênero nas oportunidades… Isso tem mudado a indústria deles, que são um bom exemplo a seguir.

O que tem a dizer para as mulheres que estão criando o PublisHER no Brasil?

Vocês não estão sozinhas. Há muitas de nós em todo o mundo e é importante que nos juntemos para pensar soluções locais para a realidade de cada país. É uma ótima oportunidade de network também. Se eu quiser publicar um livro, por exemplo, na Espanha, nessa rede eu encontrarei pelo menos 20 editoras que poderão me orientar e me dizer em quais portas bater. É sobre tornar nosso negócio em um negócio global, uma rede mundial de mulheres no mercado editorial.

Qual a importância de incentivar mais diversidade e inclusão nesse processo?

Diversidade e inclusão nunca foi uma prioridade do mercado e isso piorou nos últimos dois anos, quando a pandemia de Covid-19 trouxe ainda mais desafios. Mas esses são aspectos-chave para potencializar toda a indústria editorial. É preciso garantir que todo mundo tenha um lugar à mesa, com diversidade territorial, de raça, presença de pessoas LGBTQIA+… Mas, infelizmente, muitas pessoas ainda não sabem o que isso significa. Eu gosto de dizer que diversidade é quando você é convidado para uma festa. Inclusão é quando te convidam para dançar nessa festa.

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