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Stéphanie Habrich Stéphanie Habrich é empreendedora, apaixonada pelo mundo da educação e do jornalismo infantojuvenil. Fundadora do Joca, único jornal para jovens e crianças do Brasil, ela vai abordar aqui na coluna temas que interligam o contato com as notícias desde a infância e a educação, sempre pensando em como podemos ajudar nossos filhos a serem cidadãos com pensamento crítico.

Carreira e propósito: é possível conquistar os dois?

Stéphanie Habrich entrevista os atletas Henrique Avancini e Bruna Kajiya e o youtuber João Sampaio, que falam como aliaram esses dois pontos na vida

Por Stéphanie Habrich Atualizado em 26 fev 2021, 22h14 - Publicado em 1 mar 2021, 11h00

Desde que comecei a escrever esta coluna quinzenal aqui na CLAUDIA, falamos muito sobre a importância de trabalhar com um propósito. Não se trata apenas de um conceito que está na moda, e sim de uma estratégia comprovada de como obter mais realizações na vida.

Se você fizer uma rápida busca no Google, encontrará diversas pesquisas mostrando que pessoas que trabalham com o que gostam tendem a ser mais felizes e até mais bem-sucedidas – quando a pessoa faz aquilo que acredita, tende a se dedicar, praticar e estudar mais, o que faz com que o dinheiro e o reconhecimento venham naturalmente, como consequência de todo o esforço investido.

Como já disse em outros artigos, há mais de dez anos abandonei uma carreira no mercado financeiro para me dedicar exclusivamente ao Joca, o primeiro jornal para crianças e jovens do Brasil. Foi uma mudança difícil, mas muito recompensadora. Hoje, trabalho com um projeto que tem um grande impacto positivo nas gerações mais novas e isso me deixa profundamente feliz e motivada.

Assim como eu, muitas pessoas parecem estar chegando à conclusão de que não vale a pena abrir mão do seu propósito de vida. As histórias que você verá a seguir são prova disso.

Os nossos três entrevistados são pessoas que, hoje, são muito bem-sucedidas no que fazem e que, a despeito de todos os desafios, persistiram e conseguiram chegar aonde queriam. Henrique Avancini, Bruna Kajiya e João Sampaio (mais conhecido como Flakes Power) são exemplos muito inspiradores, que nos ensinam que a caminhada pode nem sempre ser fácil, mas a recompensa da chegada sempre vale a pena. Confira!

Henrique Avancini, atleta de mountain bike

Henrique Avancini
Henrique Avancini no Pan de 2019 em Lima, Peru. Foto: Ezra Shaw/Getty Images

“Eu sou nascido e criado em Petrópolis, no Rio de Janeiro, um lugar muito montanhoso. Quando eu tinha uns 6, 7 anos, o meu pai abriu uma oficina de bicicleta. Então, desde criança eu tive muito contato com bicicletas, era fissurado por esse assunto. Na época, a minha família não tinha condições financeiras muito boas e a oferta de produtos de bike esportiva para crianças era muito restrita. Então, eu não tinha uma mountain bike de verdade. Até que, por volta dos 8 anos, um cliente da oficina teve um problema que fez com que a sua bike partisse ao meio. A estrutura, então, virou sucata e retornou para a oficina. Meu pai pegou aqueles restos, refez como se fosse uma mini mountain bike e deu para mim. Foi a minha primeira mountain bike. Conforme o tempo foi passando, fui crescendo como atleta e comecei a ter vontade de viver do esporte. Mas a condição da modalidade no país até então não era nada atrativa. Mesmo que eu me tornasse o melhor mountain biker do Brasil, não seria o suficiente para eu ter uma vida profissional confortável. Então, eu sempre tive um conflito interno muito grande entre fazer o que que gostava e seguir uma carreira mais tradicional. Cheguei a entrar na faculdade de direito, mas continuei competindo semiprofissionalmente. Toda vez que eu ia para a faculdade, sentia esse conflito, de não estar seguindo o meu sonho. Até que chegou o momento em que eu realmente tomei uma decisão. A força que eu tinha para realizar o meu esporte era diferente da motivação que eu tinha para fazer outras coisas. Então, tranquei a faculdade e passei a investir todas as minhas fichas no meu sonho. Depois de decidir virar atleta profissional, fui para a Europa e passei três anos lá. Enfrentei muitos desafios na tentativa de me consolidar profissionalmente. Eu tinha dificuldade para viajar, competir e, às vezes, até para comer. Durante três anos, as coisas não foram para frente. Eu não deslanchei profissionalmente e isso fez com que eu tivesse muitos conflitos internos. Parecia que tudo estava dando mais errado do que certo. Então, comecei a pensar que talvez eu tivesse que mudar um pouco o jeito de fazer as coisas. Foi aí que comecei a me reinventar. Comecei a entender que não podia fazer exatamente o que os outros já tinham feito. Quando eu fui para a Europa, tentei fazer tudo o que os atletas de lá faziam. Então, nas competições, não vencia as grandes provas. Para não ser só mais um, resolvi criar o meu jeito de fazer as coisas e isso fez toda a diferença. Hoje, quando paro e olho para tudo o que eu construí, fico chocado. É impressionante quantas coisas eu consegui realizar para mim e para o esporte. Eu não apenas me tornei atleta número 1 no mundo, como tenho vários outros projetos à minha volta. Eu tenho o meu time de atletas de elite, programa na televisão, produzo conteúdo, dou palestras… Tudo isso veio desse meu desejo de fazer diferente dos outros, porque senão eu seria só mais um.”

Bruna Kajiya, atleta de kitesurf

Bruna Kajiya
Bruna Kajiya no mundial de Kitesurf. Foto: Hoch Zwei/Getty Images

“Sempre fui apaixonada pelo mar e, quando era mais nova, minha paixão era o surfe. Então, eu tive um acidente surfando e fiquei um pouco traumatizada. Só que eu tinha uma vontade muito grande, uma necessidade mesmo de estar no mar. Eu estudava em um colégio em Ilhabela e da janela de lá, um dia, eu vi os caietes [pessoas que praticam kitesurf] coloridos por cima das árvores. Depois do colégio, eu saí correndo, fui para a praia e vi os caietes lá. Então, todos os dias eu comecei a ir para a praia depois da aula. Pedia para as pessoas me ensinarem kitesurfe. Até que um amigo meu resolveu me ensinar e, desde então, eu não larguei mais. O kitesurfe como profissão foi uma coisa que aconteceu organicamente, sem eu planejar. Eu ia fazer relações internacionais em São Paulo, mas costumava passar os dias inteiros velejando. Nessa época, a minha mãe me incentivou a participar de uma competição de kitesurfe na Venezuela. Eu fui para o torneio e me saí muito bem, terminei em segundo lugar. Depois, comecei a participar de outras competições. Eu nem estava acreditando no que estava acontecendo. Eu estava fazendo o que eu gostava, mas não tinha um plano relacionado ao kite. No meu primeiro ano competindo, eu terminei em terceiro lugar no ranking mundial e recebi propostas de patrocínio. Eu gostava do esporte e só queria fazer aquilo, mas achava que em algum momento eu ainda teria que fazer faculdade. A decisão mais dura veio dois anos depois que eu já estava fazendo kite profissionalmente. Meu pai tinha uma empresa e, como ele é de origem japonesa, queria seguir a tradição de deixar os negócios para os filhos. Eu sempre senti um dever muito grande em relação a isso e essa era a minha maior dificuldade: escolher o kite em vez da tradição familiar. Sempre respeitei muito a opinião do meu pai e não queria desapontá-lo. Eu ficava em conflito. Mas, quando eu voltei de uma competição, meu pai virou para mim e disse que tinha recebido uma proposta para vender a empresa. Ele disse que estava cansado de tanto trabalhar e que já não queria mais tocá-la. Então, perguntou se podia vender a companhia ou se eu iria querer assumi-la. Na hora, eu fiquei meio tensa. Então, disse que, se ele tinha a oportunidade de vender, era melhor que ele fizesse isso, porque eu não iria querer tocá-la. Falei que queria ficar com o kite. Foi um grande passo dizer isso. Na empresa eu tinha um futuro mais definido e a vida de atleta era mais incerta. Mas, quando eu disse a minha decisão para ele, senti um alívio. Hoje, eu me sinto abençoada, realizada e feliz por ser atleta de kite. Eu faço algo que eu não tenho a menor dúvida de que é o que eu quero fazer. Eu aconselho que as pessoas tentem construir o seu caminho do jeito que a gente quer. Acho que nós temos que acreditar que o que é nosso está aí, esperando pela gente.”

João Sampaio (mais conhecido como Flakes Power, youtuber de games)

João Sampaio
Instagram @flakespower/Reprodução

“Desde criança, eu sempre fui apaixonado por videogame. Além disso, desde que o YouTube começou, eu sempre usava bastante o site. Tinha o sonho de ter um canal lá. Então, comecei a jogar um jogo chamado Clash Royale e percebi que estava me dando muito bem nele. Na época, tinha muita gente reclamando que não tinha como progredir nesse jogo sem gastar dinheiro. Eu estava conseguindo ir muito bem sem gastar nada. Foi aí que resolvi criar um canal para passar algumas dicas para a galera. Na época, eu estava no meio da faculdade de engenharia de software. Eu adorava programar, gostava da faculdade, mas o canal estourou muito rápido. Em apenas um ano, bateu a marca de um milhão de inscritos. E, quando cheguei ao terceiro ano do curso, tive que fazer estágio (era obrigatório). Então, seria impossível conciliar o canal com o estágio. Foi aí que eu resolvi dar um tempo na faculdade para me dedicar 100% ao YouTube. Depois disso, o canal começou a fazer ainda mais sucesso e virou a minha profissão. Quando eu abandonei a faculdade, o canal já estava muito bem estabilizado, já estava ganhando uma grana com ele. Como eu era muito novo, disse para mim mesmo que iria arriscar e, se não desse certo, voltaria para a faculdade. Hoje, eu vivo do meu sonho e isso é incrível. Eu me sinto muito feliz e orgulhoso de tudo o que eu consegui construir. Acho que as pessoas não devem desistir dos seus sonhos. O ideal, na minha opinião, é ter planos A, B e C. Acho que não dá pra você resolver criar um canal e abandonar tudo. Mesmo que você seja muito bom, o fator sorte ainda é importante. Por isso eu digo que é importante ter uma faculdade, ter um trabalho de ‘backup’ para não se frustrar lá na frente. A partir do momento em que as coisas começarem a dar certo no canal, você poderá se dedicar exclusivamente a ele.”

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