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Manuais da vida: confiar plenamente na sorte pode ser perigoso

A sociedade sempre buscou apoio nos mais diversos tipos de orientação, mas será que agora estamos viciados em ouvir “faça isso”?

Por Lorraine Moreira
22 jun 2023, 10h02

Bastam algumas rolagens no Tik Tok, poucas visitas a tarólogos e muitos malabarismos no cartão de crédito para contratar aquele coach. Dá para obter a receita de como fazer qualquer coisa: ficar milionário, ter um relacionamento perfeito, tirar a sorte grande no trabalho ou todas as alternativas anteriores juntas, nada hoje é impossível (dizem).

Sim, antes de você nascer o mundo já estava cheio de “manuais da vida“, livros, crenças, gurus, absolutamente prontos para dizer o passo a passo do sucesso.

Hoje, porém, eles têm mais espaço. Você acorda, lê o horóscopo, as sugestões das redes sociais, os trending topics, as notícias, e fica tentada a buscar instruções para tudo. Mas será que esses oráculos contemporâneos (sobram até dúvidas existenciais para o ChatGPT) são eficientes? E, ainda mais, a que custo?

Antes de responder essa dúvida, precisamos entender a origem dessa situação. Toda vez que uma dúvida nos pega desprevenida, que alguma situação sai do controle e que um grande problema surge, as cartas, os sinais que você pede ao universo e até as plataformas digitais dão uma controlada no medo do amanhã.

“Crenças mágicas, como lei da atração, pensamento positivo e superstições, foram usadas ao longo da história para explicar e dar sentido ao mundo, além de justificar eventos naturais, doenças e outros fenômenos desconhecidos. Algumas delas foram transmitidas de geração para geração e permaneceram enraizadas em determinadas culturas ou grupos sociais”, define André Rizzi, doutorando em crenças mágicas pela USP. Elas são predominantes nas crianças, mas, conforme os anos passam, perdem espaço para a racionalidade.

No entanto, em momentos de desespero e a depender do perfil sociocultural, se fazem presentes na fase adulta. “Elas garantem a paz e a serenidade diante das tribulações da vida. Basicamente, oferecem conforto existencial, uma coisa que muitas vezes o discurso científico não supre”, diz Salviano Feitoza, sociólogo e mestre em filosofia.

Ok, isso justifica nosso gosto pelo tarot, o horóscopo e as superstições. Mas e os livros de autoajuda, os vídeos do TikTok ou os coachs motivacionais? A inquietação sobre o futuro somada à aceleração tecnológica, às oscilações econômicas e aos desafios globais geram a falta de um corrimão para se apoiar.

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Diante do aumento exponencial de possibilidades para o amanhã, de acordo com a psicóloga Bárbara Faustino, as pessoas ficam tentadas a buscar profissionais que indiquem exatamente o que fazer para lidar com desafios (vai que dá certo, né?). “Geralmente, as abordagens são excessivamente otimistas, reforçando a ideia de que a positividade é determinante para os resultados, o que está ligado às crenças mágicas”, explica Bárbara.

Esse aparente alívio tem um custo, e ele pode ser alto. Mães se culpam por não seguir todos os “dos” e “don’ts”, relacionamentos terminam porque não preenchem todos os critérios da postagem do Instagram sobre o que deveria compor um bom casal e crianças pensam que talvez entrar naquela partida seja inútil pois nem estão com sua meia da sorte.

Sorte
Silenciar sentimentos ruins ao confiar plenamente na sorte pode trazer riscos às pessoas. (Iustrações/Eduardo Pignata/CLAUDIA)

Trazendo a discussão para algo mais concreto, o perigo é haver exclusão das emoções negativas, que também são legítimas, terceirização da responsabilidade de tomar decisões e aumento da culpa, diz a especialista. “O ser humano constantemente quer ter certeza das decisões que toma, mas esquece que não tem controle sobre os resultados, e ignorar isso pode ser frustrante.”

Além disso, abandonar possibilidades negativas ao traçar planos traz riscos, como no caso da pessoa que aposta todo seu dinheiro no jogo e não se dá conta de que pode perder tudo. “Uma escolha fundamentada na racionalidade tem mais chance de dar certo”, diz André.

Há quem caia nas mãos de vendedores de milagres, como os comerciantes de cursos online para enriquecer em poucos meses usando a lei da atração, ou de charlatões que fazem leituras frias como previsão do futuro, oferecendo definições vagas e ambíguas aos clientes, que procuram (e acham) sentido naquilo naturalmente, graças ao funcionamento do nosso cérebro.

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Também há outros que esquecem de estruturas sistêmicas, privilégios, adversidades e outros elementos que impactam significativamente a vida das pessoas, criando uma situação de alienação na qual, segundo o sociólogo Salviano, há a manutenção de uma sociedade problemática por achar que a responsabilidade de tudo é individual, nunca coletiva.

Não tem problema recorrer às ferramentas, mas é sempre bom ter em mente o equilíbrio e o que elas são. Uma curiosidade que nem todo mundo sabe: o tarô (que toda semana é tirado aqui em CLAUDIA pela colunista Cris Paixão) surgiu na Europa como um jogo, não foi criado para fins divinatórios.

“É fundamental ter uma abordagem equilibrada e realista para lidar com os desafios e objetivos na vida. A terapia cognitivo comportamental, por exemplo, enfoca a promoção de pensamentos e comportamentos mais adaptativos, levando em consideração tanto os aspectos positivos quanto os negativos da experiência humana”, finaliza Bárbara.

Talvez o grande “sinal do universo” que estamos buscando só queira nos recomendar uma boa terapia.

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