Como me redescobri na minha irmã falecida que nunca conheci

Sandra Soares, ao aprender a lidar com o luto pela irmã que não a conheceu, reescreveu a própria história

“De minha irmã Ivana, a única coisa que conheci foi uma pulseirinha de ouro rosado. Nunca vi nenhuma foto, nenhum documento que comprovassem sua passagem por este mundo. Certamente existem uma certidão de nascimento e outra de morte, trancadas no fundo de alguma gaveta. A única lembrança material de seus 9 meses é uma correntinha delicada, enfeitada com pequenas bolinhas, que, quando criança, descobri guardada em meio às joias de minha mãe.

Só muito recentemente, ao ganhar de presente de meus pais essa pulseira, pude perceber a curiosa coincidência: o número de meses de vida de Ivana e o de bolinhas da corrente é o mesmo. Diante da descoberta, reagi com um espanto amoroso e alguma esperança, como se aquilo pudesse indicar que há alguma explicação por trás do que não se explica: minha irmã nasceu com uma condição chamada hidrocefalia, decorrência do mau desenvolvimento do sistema nervoso central, e foi embora pouco tempo depois de sua chegada.

Dela eu sei pouco. Sei que tinha lindos olhos azuis e que sua cabeça era desproporcional ao seu corpinho. ‘Graças à força de sua mãe, Ivana se manteve por aqui durante algum tempo’, me confidenciou um tio, um dos muitos que informalmente tentei entrevistar, em busca de acesso a essa história interdita, e que, depois de responder a apenas uma ou duas perguntas, mudou de assunto carinhosamente: ‘Esquece isso, Sandra’. Fiz uma última pergunta e até hoje ela rodopia no ar: ‘Como posso esquecer aquilo que eu não sei?’.

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Enquanto escrevo este texto, um tanto de culpa me invade por ousar registrar no papel a história dolorosa mantida inacessível pelos meus pais não a mim, mas a si próprios. Luto contra esse sentimento incômodo mentalizando como um mantra aquilo de que me dei conta depois de anos de psicanálise: a história de Ivana também é minha.

O pavor de morrer que durante toda a minha vida se manifestou de diferentes formas – medo de ser mordida por um cachorro raivoso, de andar sozinha de elevador, de viajar de avião – nasceu do medo de minha mãe de que a história de Ivana se repetisse comigo. Também ganhou sentido, a partir desse enigma familiar, o meu exótico desgosto pelo barulho de água corrente.

‘Mãe, o que você fez logo depois que a Ivana morreu?’, perguntei um dia para então saber que, no instante seguinte à partida de minha irmã – e durante os nove meses em que esteve grávida de mim –, minha mãe repetiu o ritual de lavar suas lágrimas debaixo do chuveiro. Lá, e apenas lá, ela encontrava liberdade para enfim transbordar de si mesma. Seu luto foi vivido assim, na solidão do banheiro, e seus medos raramente se atreveram a ganhar palavra. Talvez por isso o amor pelas palavras tenha conquistado tanta força em mim… Se o entrelace entre a minha história e a de Ivana provocou angústia, também gerou consequências preciosas. Diante do silêncio de meus pais, conheci e cultivei empatia. Aprendi a fazer perguntas, a observar, a ouvir as entrelinhas da fala.

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Não à toa, escolhi duas profissões, a psicanálise e o jornalismo, que têm na escuta e na palavra seu material de trabalho. Ivana ajudou a fazer de mim quem sou e, por essa razão, sou grata a ela. É possível amarmos alguém que nunca chegamos a conhecer? Posso garantir que é.

A tarefa mais sensível do luto é aprender a se relacionar com quem se foi sem a sua presença física – embora desapareça do mundo, aquele que morre sobrevive dentro daqueles que o amam. Matar o morto em nós é matá-lo duas vezes e é matar um pouco da gente também.

Foi preciso tornar Ivana viva em mim para reescrever minha história e enfrentar meus medos. Procurando por ela, entendi o que é saudade – uma dor gostosinha – e naturalmente passei a me apresentar como a segunda de quatro filhos, e não mais como a primeira de três. Quando lancei o site Vamos Falar sobre o Luto? projeto gestado juntamente com seis amigas –, Ivana ganhou, enfim, cadeira cativa na minha memória. Posso dizer que hoje eu e ela temos um relacionamento.

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Das sete criadoras do VFSOL, sou a única que não passou diretamente por uma história de perda. Não senti na carne a dor de uma morte devastadora como minhas seis amigas, mas compartilho com elas o inconformismo diante do constrangimento social do luto. Você sabe do que estou falando. Basta estar no mundo para conhecer a timidez estampada no rosto das pessoas que, diante da tristeza de alguém tocado pela morte, paralisam, intimidadas.

Conheci o constrangimento do luto dentro de casa e respeito meus pais por sua forma silenciosa de viver a perda – cada um sofre e supera à sua maneira, e eu preciso de palavras, narrativas. Ainda que minha versão da história seja uma obra de ficção, eu a prefiro ao vazio do nada.

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