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O site que une quem deseja ter filhos sem nenhum compromisso amoroso

Na plataforma, é possível verificar informações dos candidatos e escolher um perfeito para você

Por Texto: Thais Lazzeri - Atualizado em 18 fev 2020, 09h24 - Publicado em 25 abr 2019, 13h35

Mulher, 37 anos, empresária, busca homem que queira ser pai. O anúncio de Taline Schneider lembra aqueles publicados antigamente nos classificados dos jornais, mas ganhou espaço em uma página do Facebook que reúne pessoas interessadas em ter filhos sem se envolver romanticamente. Parece específico, mas Taline sabia que aquele desejo não podia ser só dela. “Namorei, casei, não deu certo. Pensei: por que preciso de tudo isso para ter um filho?”, explica ela, que se descobriu assexuada – denominação dada àqueles que não sentem vontade de manter relações sexuais. Inspirada em sites internacionais, criou em 2015 a “Faça um filho comigo”, que logo ganhou seguidores. Há um nome para esse tipo de construção familiar, chama-se coparentalidade e é contemplada pela lei brasileira. A prática é definida pelo site americano Modamily.com (com mais de 20 mil cadastrados) como “a criação compartilhada de uma criança entre adultos amorosos, comprometidos e financeiramente seguros”.

Não há números oficiais do alcance do movimento no Brasil, mas o público existe. Prova disso é que Taline importou a ideia e transformou a antiga fanpage no site Pais Amigos, ponto de encontro virtual que hoje conta com cerca de 4 mil inscritos. Para entrar no site, é preciso responder a uma pergunta secreta com alternativas incorretas e apenas uma certa. É um filtro para proteger a plataforma e seus usuários. Construída com investimentos de Taline, é parecida com um almanaque de figurinhas. Quem acessa lê o nome, a idade e a cidade do candidato. As gestações podem acontecer via inseminação artificial ou método tradicional. Também é possível adotar. Cerca de 40 famílias já nasceram das conexões da rede. “Meu objetivo não é incitar as pessoas a ter filhos, mas promover o encontro dos que partilham desse sonho”, afirma Taline. A criança mais velha está às vésperas de completar 2 anos. Há ainda aqueles que encerraram o processo mas não notificaram o site – já que não há nenhuma obrigação de dividir com a plataforma a conclusão das tentativas.

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Novas formações

O professor Rodrigo Florêncio da Silva, 36 anos, se inscreveu no site em 2017. Solteiro e homossexual, conversou com mulheres mais jovens, mas não sentiu confiança. Persistiu e, há cerca de um ano e meio, conheceu Maria Angélica Pantaleão de Paula, 41, inspetora de escola da rede pública no interior de São Paulo. “Sabe aquela sensação de encontrar a pessoa certa? Foi assim mesmo”, explica Rodrigo. Maria Angélica tinha frustrações do passado, traumas de quando falou com um namorado sobre ter filhos. Ouviu do então parceiro se ele teria que pagar pensão. “Queria uma pessoa que compartilhasse do meu desejo de viver isso, e não encarasse como uma obrigação. Cheguei a pensar que a maternidade não era para mim”, diz ela. “Rodrigo me mandou uma mensagem perguntando se eu já tinha conseguido realizar meu grande sonho. Aquelas palavras mexeram comigo”, lembra.

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O par passou quase dois anos conversando pelas redes sociais – ele leciona no México desde 2009 –, até combinarem de se encontrar, em 2018. “Criamos um laço de amizade muito forte”, afirma Maria Angélica. Já estão na segunda tentativa de fertilização in vitro. “Foi o companheirismo do Rodrigo que me fez superar a primeira empreitada, que deu errado, e partir para uma nova. É difícil lidar com o resultado negativo, mas ele me apoiou.”

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Antes de se submeter ao segundo procedimento, Maria Angélica foi ao México visitar Rodrigo. Registraram os passeios para fazer um álbum de fotos para o filho. O resultado do teste de gravidez não havia saído até o fechamento desta matéria, mas os planos são criar o bebê no Brasil, já que Rodrigo pretende voltar ainda este ano. Enquanto isso, a avó paterna estará presente.

As famílias coparentais não são heteronormativas – formadas por homem e mulher. Podem ser dois pais, duas mães, um casal de mulheres e mais um homem, um casal de homens e mais uma mulher. As possibilidades são infinitas. O importante é que sejam pessoas movidas pelo desejo de ter uma família. Na rede de Taline, os cadastrados têm entre 30 e 40 anos, e 63% se definem como heterossexuais. “O que acontece na coparentalidade responsável é o que deveria ser o padrão – você se prepara para ter um filho, pensa em como será a educação dele, entre tantos outros aspectos. Toda criança tem direito de ter uma família acolhedora, que vá lutar pelas necessidades dela. É falsa a ideia de que escolher a coparentalidade é um caminho para garantir certa liberdade, mesmo sendo pai ou mãe. Você estará obrigatoriamente ligada à outra pessoa pelo resto da vida. E não é preciso dizer que criar filhos é uma tarefa árdua”, afirma a psicanalista Isabel Kahn Marin, professora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

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Débora Islas/CLAUDIA

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Sonho x preconceito

A coparentalidade coloca fim à ideia de que é necessário um cônjuge para ter um filho, e talvez por isso gere tanta polêmica. É a quebra de um comportamento que por anos foi estabelecido como padrão. “Quem disse que um parceiro ou um casamento legitimam uma família? Desqualificar outros formatos fora daquele tido como tradicional é algo que acontece em muitas religiões. Mas e na prática?”, questiona Breno Silva Rosostolato, psicoterapeuta de São Paulo que auxilia Taline quando surgem questionamentos.

Como tantas outras famílias que fogem do que é considerado tradicional, as coparentais enfrentam preconceito. É o caso do professor Gilmar Araújo, 31 anos, de seu companheiro Igor e de Milla, mãe de Heitor, bebê criado pelos três. Quando anunciaram que teriam um filho juntos, entre 2014 e 2015, ninguém em Serra do Ramalho (BA) os acolheu. “Milla foi quem mais sofreu. Acusaram a gente de todo tipo de coisa ruim, porque não entendiam que queríamos ter uma família”, conta Gilmar. Por proteção, o casal chamou Milla para morar com eles no primeiro mês da gestação, e ela só se mudou quando Heitor completou 1 ano. Hoje, Gilmar e Igor vivem em Belo Horizonte. Milla cursa o penúltimo ano de artes cênicas em Goiás. “Viajamos muito”, conta ele.

A história virou filme em abril do ano passado. O longa A Cidade do Futuro, de Cláudio Marques e Marília Hughes, tem os três adultos em cena. O nascimento de Heitor concretizou a nova família, que, na gestação, muitos não conseguiam enxergar. “A chegada do nosso filho abriu o pensamento das pessoas”, completa Gilmar.

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Atenção às expectativas

A Constituição Federal brasileira entende como entidade familiar qualquer um dos pais e seus descendentes. “Apesar de serem um tema que ganhou notoriedade recentemente, as famílias coparentais têm previsão legal no Brasil desde 1988. As garantias e deveres são os mesmos em qualquer caso”, afirma Ariel de Castro Alves, advogado especialista nos direitos da criança e do adolescente, de São Paulo.

“A coparentalidade é uma expressão contemporânea que a máquina legal está entendendo, consequência das novas famílias. A grande mudança no direito é que rompe-se o tripé sexo, casamento e reprodução. O casamento não é mais legitimador das relações sexuais, e sexo para reprodução não é mais necessário”, diz o advogado Rodrigo de Cunha Pereira, presidente do Instituto Brasileiro de Direito de Família (IBDFAM). Rodrigo sugere que os pais ou mães, com um advogado, redijam um termo de acordo sobre a criação da criança. O documento deve incluir como será a convivência entre eles, a divisão da guarda, do sustento financeiro, os objetivos da educação, entre outras questões. Tudo isso antes da gravidez e com homologação no Judiciário. Ele já fez cinco documentos do gênero. Em uma das ocasiões, quando começaram a detalhar como seria o dia a dia com a criança, um homem desistiu porque a mulher não admitia que ele participasse com a mesma intensidade que ela da criação. Ele não queria se resumir a um coadjuvante.

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A falta de vontade de se casar fez com que Rosa Maria Gomes, 49 anos, listasse as características necessárias do pai do seu filho. “Boa índole, presença constante e valorização da educação”, descreve. Quem preenchia os requisitos era o melhor amigo de infância. Foi com ele que teve o primeiro filho, há quase duas décadas, antes do termo coparentalidade se tornar popular. Sentiu-se confortável e teve um segundo filho, de outro amigo. Os jovens ficaram sabendo aos poucos, ainda durante a infância, sobre sua origem. “O importante é mostrar que cada família é feliz de um jeito”, recomenda Rosa Maria. Mesmo depois de grandes e com as próprias convicções formadas, a conversa aberta é uma constante. “Sempre chamamos de paternidade e maternidade compartilhadas. Nunca faltou educação, dinheiro ou amor”, diz. “E não há arrependimentos. Faria tudo de novo.”

Débora Islas/CLAUDIA

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