Não aguento mais a hora da lição de casa!

Qual é o papel dos pais em relação às lições de casa dos filhos? Confira a opinião da especialista!

 

Minha filha implora ajuda nos deveres de casa, mas a escola diz que não devo dar. Fico totalmente dividida. O que devo fazer? (Pergunta enviada por leitora)

A lição de casa está se transformando no bicho-papão das famílias. Antes, as escolas seguiam uma metodologia mais tradicional e esperavam que os alunos trouxessem as tarefas (sempre bem extensas) completas e corretas. Os pais ou, mais especificamente, as mães – que quase nunca trabalhavam fora – acompanhavam tudo, ajudavam e corrigiam os erros. Como o foco voltava-se para o resultado, e não para o esforço, era comum que se sentissem na obrigação de interferir nas respostas para não prejudicar a avaliação dos filhos. Hoje os tempos são outros: a finalidade das lições é fixar os conteúdos dados em classe, desenvolver hábitos de estudo, habilidades e atitudes de interesse e curiosidade por aprender. O papel da escola é decisivo para que o dever possa funcionar. É ela que deve dar explicações aos alunos e deixar claras as suas exigências com relação ao prazo de entrega e correção. A postura da escola moderna é olhar o processo de aprendizagem do aluno como um todo, e não apenas se fixar, no produto de uma lição de casa. Cabe ao colégio também orientar os pais sobre como lidar com a questão e garantir a eles que dará respaldo ao aluno, em caso de dúvida, por meio da correção em classe. Um instrumento poderoso para ajudar a família a controlar o desempenho da criança e da própria escola são os cadernos do filho. É importante manter o costume de folheá-los mesmo quando a criança não apresenta dificuldade em dar conta de suas tarefas.

Esse, no entanto, não é o único papel dos pais em relação à lição de casa. Partindo dos novos conceitos pedagógicos de que a própria criança deve construir seu conhecimento, a função deles é a de coadjuvantes. Ajudar não significa “fazer pelo filho”, dar as respostas certas a ele, e sim providenciar um ambiente longe do movimento da casa, com uma mesa e os materiais necessários. É também criar hábitos e estabelecer acordos, definindo previamente o horário das tarefas para evitar embates na cobrança de sua execução.

Mas, afinal, qual o melhor horário? Cada criança tem seu biorritmo, que deve ser respeitado. Quando pequena, no início da fase escolar, ela vai precisar de maior direcionamento. Assim, é bom estabelecer o horário de lição num período em que um dos pais esteja em casa. Com o passar do tempo, espera-se que fique cada vez mais independente para poder realizar suas tarefas. Esta é a principal colaboração dos pais em relação à lição de casa: ensinar os filhos a estudar por si mesmos.

Se isso não acontecer, precisamos investigar: a solicitação de ajuda acontece todos os dias e para qualquer disciplina escolar? Ou é apenas para algumas matérias? No primeiro caso, a criança pode estar pedindo ajuda por falta de autoconfiança ou como forma de obter atenção. Os pais vão sair ganhando se conversarem com ela e a encorajarem a enfrentar os desafios, mostrando na vivência cotidiana que eles têm outros momentos, não apenas a hora da lição de casa, para ficar juntos.

No segundo caso, é provável que a criança esteja enfrentando dificuldades reais num assunto específico. Os pais podem ajudá-la tirando dúvidas eventuais, mas, se os problemas persistirem, será preciso contatar a escola para saber o que está acontecendo. Geralmente, o próprio colégio é capaz de resolver o problema do aluno por meio de atendimentos individualizados ou de reforço em pequenos grupos. Algumas vezes, há necessidade de se fazer um encaminhamento para um profissional especializado.

Além da adoção de medidas rotineiras, o grande facilitador dos pais para transformar a hora da lição de casa em um momento tranquilo e prazeroso é a própria atitude diante do aprender. Se são pessoas que estudam, leem, sentem curiosidade de aprender coisas novas e mantêm vínculos com seu meio sociocultural, já há grande possibilidade de os filhos seguirem pelo mesmo caminho. Uma boa conversa sobre as aulas e a aprendizagem vale muito mais do que a correção das lições.

Silvia Amaral de Mello Pinto, pedagoga, psicopedagoga e coordenadora do Centro de Aprendizagem e Desenvolvimento (CAD), de São Paulo.

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