Maria Valéria Rezende reunirá 500 autoras ignoradas por editoras

Ela é bem-humorada, contundente quando escreve e uma freira muito rebelde. Conheça a escritora das mulheres loucas

Dormir nas ruas de Porto Alegre, em fila de hospitais públicos, na rodoviária e no aeroporto para ver o que sente uma mulher da sua idade ao se expor à crueza da noite não foi problema para a santista Maria Valéria Rezende, 74 anos. A experiência era necessária. Tornou real Alice, a personagem que fez o mesmo périplo no romance Quarenta Dias (Alfaguara) e rendeu à escritora o Prêmio Jabuti 2015 de melhor livro.

Valéria também não vê embaraço algum em aparecer nas fotos fumando seu cigarrão feito James Dean ou topar briga por opiniões políticas, em mesa de bar, como aconteceu com o escritor e cartunista Ziraldo. O fato de ser freira não a impede de viver nada. Ligada à igreja que fez opção pelos pobres e enfrentou a ditadura militar, Maria Valéria diz: “Eu me recuso a parecer a bobinha que todos imaginam que uma freira seja”.

Gosta de mostrar-se carne, osso, suor e sucesso. Em julho, na Festa Literária Internacional de Paraty, fãs paravam a autora de Outros Cantos (Alfaguara), ganhador do Prêmio Casa de las Américas neste ano, em busca de selfies. Mas ela já se distanciou do exótico (“uma velhota, desconhecida, que ganhou de Chico Buarque a disputa pelo Jabuti”, lembra) e se consolida como nome forte do romance brasileiro.

Na sua autodescrição, é uma anarquista – embora nunca saibamos se está falando sério. Valéria adora uma mentirinha, um exagerozinho, uma tirada hilária para entreter a plateia. “Memória e ficção às vezes se misturam”, explica ela sobre os casos que conta a seu respeito.

MVal (é assim que assina e-mails), mestre em sociologia que formou leitores no sertão pernambucano e no brejo paraibano, reunirá entre 12 e 15 de outubro 500 escritoras em João Pessoa, onde mora. O Mulherio das Letras, entre várias pautas, vai lutar por igualdade de oportunidade na publicação de livros. “Nunca houve um encontro assim, para além da cota magra, de 10%, que as feiras literárias nos reservam”, declara ela, que já pôs no mercado 17 títulos, a maioria infantojuvenis. Nesta entrevista, a irmã, da Congregação de Nossa Senhora – Cônegas de Santo Agostinho, fala do novo livro, de inúmeras paixões e revela por que sua escrita é tão criativa.

O que trata em Carta à Rainha Louca, que está escrevendo?
Achei um documento no Arquivo Histórico Ultramarino, em Lisboa, escrito em 1754 por uma mulher – coisa rara – que se defendia, de maneira irônica, da acusação de criar um convento clandestino em Minas Gerais. Maria Isabel era investigada por ordenada da Coroa Portuguesa. No Brasil, existiam as esposas dos sesmeiros, de donos de engenho, escravas e índias. Não havia lugar para brancas pobres: elas viravam rameiras ou freiras. Sem dotes, quem casaria com ela? Então, criei a Maria Isabel das Virgens, que faz do convento uma comunidade de mulheres que precisam sobreviver. Ela é presa, levada a Olinda, onde espera a nau que a conduzirá ao julgamento em Lisboa. Ali a esquecem, ela vai endoidando e decide mandar uma carta para a rainha de Portugal, imaginando que, sendo mulher, ela a entenderia.

Por que sempre diz que não planejou ser escritora?
Jornalistas perguntam a razão de ter decidido escrever aos 59 anos. Ora, não decidi nada. Nem fiz o primeiro livro nessa idade. Em missão de educadora na zona rural nordestina (nos anos 1970), aos domingos eu ficava só, na minha casinha de taipa com lampião, escrevendo. Dava os textos de presente aos amigos. Um deles, o Frei Betto (frade dominicano e escritor), entregou a uma editora, que, anos depois, me ligou pedindo todos os originais.

Você faz o público rir quando diz coisas como: “Sou meio mouca, meio cega e meio fraca do juízo”
É engraçado, mas verdadeiro. No tempo em que não tinha artrose e esbanjava dois olhos, escrever era só prazer. O olho ruim, perdi em um infarto na veia. Não vejo nada. E no bom tenho catarata. A audição sempre foi baixa, por isso falo tão alto. Muitos acham que é puro entusiasmo. E fraca do juízo, porque junto muitas coisas na cabeça e vivo um turbilhão de decisões e afazeres… Não estou escrevendo no volume que preciso. Até pensei: “Seria bom que me prendesse. Na cadeia haveria tempo para terminar meu livro”.

Por que seria presa, Valéria?
Meu último livro tem o selo da Petrobras. Ganhei patrocínio deles. Então, a Lava-Jato podia me acusar de ter sido beneficiada indevidamente (risos).

Em presídios, você ensina a ler. No passado, ia visitar amigos detidos. Reza a lenda que adotava meios pouco ortodoxos para libertá-los…
Era ditadura. Um pequeno sindicalista rural que organizava os outros ia preso. Eu mostrava meu RG ao delegado e dizia: “O senhor pode ler em voz alta o meu nome? Já ouviu falar em Elizeu Resende (ministro dos Transportes do general Figueiredo). É da minha família. Imagina o que vai acontecer se não soltarem o meu amigo…” Usei o falso parentesco até para desbancar o dono de uma usina que, com capangas, apontou sua arma. E eu: “Conhece Eliseu Resende?” Vivi anos nesse meio. Sei o que sofreu Dorothy Stang (missionária assassinada em 2005 por fazendeiros incomodados com a defesa que ela fazia de pequenos produtores no Pará). Ela já tinha que estar canonizada faz tempo. Mártires assim não canonizam. O processo é muito bobo: não considera o testemunho evangélico que a pessoa dá, mas o milagre. Ora, então devemos que inventar um milagre para Dorothy?

E o passaporte do Vaticano. Você ainda tem?
Tenho. Em 1972, eu voltava da Argélia para a Itália, quando entrou em greve a Alitalia – que oficialmente transportava a valise diplomática com documentos da igreja de lá para o Vaticano. Souberam que uma freira estava no aeroporto indo para Roma; me pediram para levar. O secretário da nunciatura algemou a malinha no meu pulso para não ser roubada nem aberta. Lá fui eu, portanto uma carta atestando que estava em missão e solicitando passe livre. No Vaticano, não me pediram de volta a carta, e a grampeei no passaporte. Virei uma santa pessoa diplomática do Vaticano, entrava até nos Estados Unidos sem visto.

Como nasceu o Mulherio das Letras?
No bar, à noite, durante a Flip de 2016. Não sabíamos quem eram as escritoras no Brasil e o produziam. As editoras são masculinas, publicam mais os homens. Só na edição desteano, por coragem da Josélia Aguiar (curadora), a Flip convidou número igual de homens e mulheres. Também me incomoda o Brasil achar que literatura se faz apenas na Vila Madalena e em Ipanema. Mulheres fazem ótima literatura em tudo que é canto. Decidimos nos juntar. Em março passado, criamos o grupo no Facebook e, em três meses éramos 5 mil escritoras, ilustradoras, multiartistas… Vamos nos ver em João Pessoa (programação ao lado), na linha da anarquia, mesmo: não há dinheiro, patrocínio, cachê. Todas terão direito ao microfone e se hospedarão em hotéis onde pedimos descontos. Ao todo seremos 500.

Em Quarenta Dias, quando Alice, aposentada, acha que viverá só para si, mas é obrigada a se mudar de cidade para ajudar a filha, que teria um bebê. As mulheres são suas protagonistas, sempre…
Elas estão sustentando o Brasil, segurando todas as barras e sofrendo demais. Temos de criar alternativas. As mulheres precisam ajudar as mulheres.

No país, há muitos casso de gravidez precoce, violência doméstica, abusos sexuais, aborto. Como vê isso?
As mulheres reformularam sua imagem e os homens não. Eles necessitam da submissão delas e isso que não funciona mais. Em crise, muitos agem com violência. O aborto só se faz em caso de saúde ou gravidez involuntária. Como é possível, hoje, existir gravidez indesejada com tantos meios para evitar? O amor livre nunca existiu. Passou-se do sexo proibido ao obrigatório. Meninas de 14 anos me perguntam o que há de errado com elas, porque não têm vontade de ficar com qualquer menino. Há uma pressão, ela sente vergonha de dizer que é virgem. Vivemos num mundo onde tudo se desarrumou. Inclusive politicamente. Temos que demolir, se quisermos reformar a casa. Ao pôr abaixo as paredes ruins, teremos a liberdade de construir coisas novas.

Em algum momento fez falta o amor romântico?
É fácil olhar para um monte de gente e distinguir a única pessoa que oferece perigo. A única pessoa por quem eu me apaixonaria. Antes que isso aconteça, me afasto. Sou também exigente. Na adolescência, começava a namorar; o menino era bacana, mas raso não tinha lido nada. Meus namoros nunca duravam. Havia três possibilidades: casar, ficar para titia ou ir para o convento. A vida de freira (da congregação de Nossa Senhora, Cônegas de Santo Agostinho) e a Teologia da Libertação me fizeram rodar o mundo; e experimentar aventuras. A vida pacata de dona de casa não me contentaria.