A importância do autoconhecimento para ser uma empreendedora

Não bastam uma boa ideia e um plano de negócio esperto. Autoconhecimento também é ingrediente básico para perseguir uma paixão e fazer a transição de funcionária em ascensão a empreendedora, uma opção cada vez mais frequente entre as mulheres

Além de uma boa ideia e um plano de negócios eficiente, ser empreendedora envolve uma jornada de autoconhecimento
Foto: Getty Images

Salário garantido no fim do mês, décimo-terceiro, férias remuneradas, benefícios, possibilidades de promoção e até de chegar ao topo de uma grande corporação, viagens, bônus. Para um número cada vez maior de mulheres, nada disso é tão atraente quanto ser dona do próprio nariz. Cerca de metade dos novos negócios abertos no país tem à frente um empreendedor do sexo feminino, segundo a Global Entrepreneurship Monitor, pesquisa mundial que sonda o movimento e as tendências nessa área. Mas, entre o sonho e a realização, o desafio da transição é grande e complexo. Envolve não apenas ter uma boa ideia e um plano de negócio eficiente como também coragem e disposição para fazer uma espécie de jornada de autoconhecimento. “Há um processo anterior à ação, que é olhar para dentro de si mesmo e descobrir seu verdadeiro propósito. Só então é que se vai achar os meios de colocá-lo em prática”, resume Eduardo Seidenthal, fundador da Rede Ubuntu, empresa de consultoria e coaching em São Paulo.

O consultor enfatiza que essa grande meta de vida muitas vezes é confundida com objetivos financeiros, mas que o dinheiro é somente consequência e, por isso, nunca deveria ser encarado como a força motriz de qualquer mudança. Além de investigar esse ponto fundamental, o mergulho interior tem outras funções. Com ele, é preciso criar métodos para aumentar a resiliência – já que a capacidade de cair e levantar é essencial para empreender – , assim como estratégias emocionais para lidar com o medo de fracassar e até um sistema interno de compensação para se sentir apta a abrir mão de prerrogativas típicas de quem tem um emprego. O próprio Eduardo Seidenthal já sentiu na pele essas necessidades. Ao longo de 13 anos, ele fez uma bem-sucedida carreira na área de marketing, chegando a diretor para a América Latina de um gigante do setor de higiene. “Durante esse tempo, tinha a convicção de que nunca iria ser empreendedor, principalmente pelo pavor de ficar sem salário.”

Em 2009, porém, depois de muitas reflexões e de ter real clareza do que queria, ele criou o conceito do “EUpreendedorismo”, que leva em conta a parte emocional envolvida em uma guinada de carreira, e lançou sua empresa. Hoje oferece programas, em grupo e individuais, que ajudam a fazer um percurso de uma mudança profissional. A proposta central de seus treinamentos é abrir a consciência das pessoas para que elas possam construir projetos profissionais ou pessoais a partir de sua essência. “Em geral, aquilo que você gosta de fazer coincide com o que você faz melhor”, justifica: “Quando não se está feliz no trabalho, a produtividade cai”.
 

Experiências de vida

Nem sempre as pessoas fazem um treinamento específico para descobrir pendores naturais. Às vezes as próprias experiências vividas – e o amadurecimento que vem com elas – servem como o fio condutor que leva à descoberta de um dom sintonizado com o propósito de vida. Foi assim com Aline Corrêa Costa, 33 anos. Formada em direito, ela entrou, aos 23, em uma indústria de autopeças, onde fez carreira. Foram nove anos no emprego até optar por uma mudança radical. Internamente, essa gaúcha radicada em São Paulo já vinha se debatendo com alguns questionamentos, como a deficiente qualidade de vida oferecida pela cidade grande e o consumismo exacerbado dos dias de hoje. Mas foi em uma viagem, em que perseguiu uma de suas paixões, que teve o estalo. “Curto vinhos e já tinha feito cursos de sommelier”, conta. “Em 2011, fiz com minha prima um tour de 16 dias de gastronomia e harmonização pela Itália e pela França. Na volta, não queria mais ficar no meu trabalho.”

Como a família tinha uma casa em Ilhabela, no litoral paulista, Aline viajava nos fins de semana para a praia e viu que ali existia mercado para bons vinhos e carnes nobres para churrasco, outra mania. Decidiu abrir uma loja dedicada ao público gourmet. “Tive que levantar muito dinheiro, pois o investimento ficou entre os 150 mil e os 200 mil reais”, diz. Ela juntou economias, vendeu um carro novo, somou verbas rescisórias, pegou financiamento. “Mas a parte mais difícil foi a tomada de decisão”, admite a hoje empresária, que indica pôr no papel prós e contras da guinada para ter certeza de que vale a pena. No seu caso, diz que os ganhos, especialmente em qualidade de vida, superaram qualquer perda ou sacrifício.

Para quem já sabe o que quer, a consultoria Ubuntu propõe outro programa, que ajuda a dar forma ao projeto. Envolve apoio técnico e também comportamental. É mesmo consenso entre os especialistas que questões intangíveis são tão decisivas para o sucesso de um empreendimento quanto as práticas. “É comum o empreendedor sentir que está sozinho e não tem nem com quem desabafar”, afirma Bruno Caetano, diretor-superintendente do Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) São Paulo. O  Sebrae, por exemplo, oferece um curso, o Empretec, com metodologia da Organização das Nações Unidas (ONU) aplicada ao Brasil, no qual também são trabalhados aspectos comportamentais dos interessados em ter um negócio.
 

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