Mulheres que fumam têm 30% mais chances de serem totalmente inférteis

A pesquisa realizada pelo Instituto Nacional do Câncer (Inca) também aponta que dependentes em nicotina têm duas vezes mais possibilidade de atrasos durante o processo de concepção

29 de agosto é conhecida por ser a data que marca o Dia Nacional do Combate ao Fumo. Mas apesar da considerável queda no número de fumantes, 10,8% de toda a população brasileira ainda é dependente de nicotina, de acordo com dados levantados pelo Ministério da Saúde. 

Considerado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como a principal causa de morte evitável em todo o mundo, o tabagismo implica danos, por vezes irreparáveis, na saúde de qualquer um – principalmente na feminina. 

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É o que confirmam os resultados de uma recente pesquisa realizada pelo Instituto Nacional do Câncer (Inca): mulheres que fumam e não fazem uso de métodos contraceptivos hormonais apresentam uma redução de 75% para 57% na taxa de fertilidade, duas vezes mais possibilidade de atrasos durante o processo de concepção e 30% mais chances de serem totalmente inférteis

E as consequências podem ser ainda mais drásticas, segundo revela a ginecologista, obstetra e mastologista da rede dr.consulta, Dra. Mariana Rosário: “Aquelas que consomem 20 cigarros diários diminuem em 22% suas possibilidades férteis; já as que queimam mais de um maço por dia, minimizam em 43%. A prática também propicia uma entrada prematura no processo de menopausa.” 

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Além dos prejuízos para as mulheres que estão no chamado “ciclo fértil”, as tragadas são ainda mais nocivas para as gestantes, conforme conta a hematologista: “Há um maior risco de aborto. A presença de nicotina no fluxo sanguíneo também pode causar trabalho de parto prematuro ou o que chamamos de ‘placenta prévia’, que implica num risco maior de descolamento por estar localizada na porção superior do colo do útero e ocasionar, consequentemente, o óbito fetal.” 

“As chances de uma gravidez ectópica, desenvolvida fora do útero (nas trompas ou no ovário) também aumentam. O cigarro ainda pode acarretar, posteriormente, doenças respiratórias para o bebê. A ingestão do tabaco também é responsável por reduzir o nível de hemoglobina no sangue, o que coloca em xeque a oxigenação e a nutrição fetal. Nesses casos a criança nasce pequena, com um peso bastante inferior ao normal, o que mais tarde pode acarretar dificuldades no aprendizado”, explica a médica.

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Mães que fazem uso da substância e estão em processo de aleitamento também trazem riscos sérios à própria integridade – e o pior, à dos filhos, alerta a ginecologista: “Há uma diminuição considerável na quantidade de leite produzido e no período de aleitamento. Esses dois fatores também são responsáveis por prejudicar o desenvolvimento dos bebês, que permanecem menores por não conseguirem a quantidade ideal de nutrientes.”

“Ainda há uma diferença considerável no nível de nicotina no sangue das crianças, que apresentam uma quantidade superior a 30%, quando comparadas com suas progenitoras. É por esta razão que recomenda-se àquelas que fumam esperar de 2h a 3h após fazer uso do tabaco para dar de mamar – este é o período necessário para a diminuição, quase total, da substância”, justifica Mariana.  

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Os porquês científicos

Infelizmente, é natural que a maioria das mulheres não esteja familiarizada com o próprio aparelho reprodutor, por isso, quando ouvimos fluído folicular do ovário, muitas de nós podemos até estranhar. Mas esta é a peça-chave para entendermos, cientificamente, todos os malefícios que o cigarro pode nos trazer.

Este tecido é responsável por embeber os folículos ovarianos, extremamente vascularizados, onde se localizam as nossas células germinativas – que por serem tão novinhas, ainda não se diferenciaram das demais. Elas são as maiores vítimas do tabagismo: são mortas pela presença da nicotina na nossa corrente sanguínea, ocasionando, portanto, a aceleração da menopausa. 

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Grupo de risco

Um levantamento realizado durante as últimas décadas e publicado no Jornal do Pediatra, da Sociedade Brasileira de Pediatria de 2001, registrou que 21% das mulheres param de fumar quando descobrem a gestação e abandonam de vez o vício. Mas acredita-se que o maior empecilho para que este número seja ainda mais significativo seja a falta de informação, segundo a Dra. Mariana: “Aquelas que pertencem às classes baixas são, geralmente, as mais refratárias e continuam mesmo durante a gravidez, e depois também; acreditam que, como sempre fizeram uso da substância, não há uma diferença considerável, uma realidade muito triste.”

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Falando nisso…

Finalista do Prêmio CLAUDIA 2016, Paula Johns é Fundadora da Aliança de Controle do Tabagismo + Saúde, e batalha para controlar o tabagismo. Vote já!