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Câncer de Mama: Como foi a minha vida sem cabelo

Nossa colunista Ana Barbosa conta como foi perder os fios durante o tratamento: "Não me acho feia e menos feminina. Já não estou preocupada com a beleza."

Por Ana Lúcia Barbosa - 29 out 2016, 09h06

Hoje me senti livre. Livre. Como há muito não acontecia. Acordei cedo e saí para caminhar “livre, leve e solta”, com vontade de sair dançando. O que aconteceu de tão incrível? Nada demais. Ou tudo.

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Pela primeira vez em meses, saí de casa sem lenço, sem gorro, sem peruca. Cabeça nua. Um grande feito para mim. E não é porque meu cabelo cresceu da noite para o dia, mas simplesmente me enchi dessas coisas que apertam, abafam, coçam, tampam a orelha. Me impedem de escutar. Me escondem.

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Enchi e resolvi sair à rua com a minha quase-careca à mostra. Enfrentar o frio e o olhar das pessoas. Sou outra. Ao ficar sabendo que deveria fazer quimioterapia, uma de minhas primeiras e maiores preocupações foi com o cabelo, ou melhor, com a sua queda. Meu rico cabelinho. Podia não ser o mais bonito do mundo, mas era o que eu tinha. Parte essencial de mim, é, ou era, minha identidade. Como ficaria sem ele? Horrorosa com certeza. A primeira providência que tomei foi sair em busca de perucas, achava que ia me divertir a valer mudando de cara todos os dias. Eu realmente não sabia o que me esperava…

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Levou algum tempo para entender minha nova situação. Junto com os cabelos foram-se os cílios e as sobrancelhas. O rosto fica pálido e os olhos fundos, sem disfarces. Cílios, para mim, eram um porta-rímel, sua função era realçar e enfeitar. Não demorou para perceber que eles fazem muito mais do que isso, ao sentir o vento cheio de pó das ruas e a água do chuveiro entrando pesada nos olhos…

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A peruca logo demonstrou ser muito incômodo e nada de diversão. Em pleno verão, esse corpo estranho envolvendo minha cabeça esquenta, aperta e coça, qual um chapéu mal ajustado. Vem uma sensação de desconforto crescente, a cabeça incha e minha capacidade de concentração e raciocínio vão embora. Peruca não é comigo mesmo e resolvo aderir aos lenços.

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Percebi que o estar careca em si não é o problema. Não me acho menos feminina, nem feia. Pensando bem, já não estou tão preocupada com a beleza. Mas ficar sem cabelo é muito ruim, tudo incomoda. As orelhas, a careca e o pescoço nus ganham nova relevância. Mais frio e mais calor, uma constante pressão na cabeça. Só o som é menos. Também, pudera, tenho um pano amarrado sobre minhas orelhas! A solução é levantar discretamente o lenço para ouvir melhor. Só falta aquela cornetinha de desenho animado, uma velhinha surda e careca… Hein?

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Neste momento meus primeiros fios de cabelo estão começando a nascer, ralinhos e brancos. Sabia que tinha cabelos brancos, mas nunca havia me visto só com eles. No máximo uma raizinha de um centímetro, que surgia entre uma tintura e outra, mas agora é diferente: eles estão aí para quem quiser ver. Quantas surpresas.

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Sei que a pior parte já foi e é só uma questão de tempo, mas esse tempo é teimoso — ora demora para passar, ora vai embora num instante. Já operei, operei de novo e comecei a quimioterapia. Já abreviei o nome dos tratamentos. Já terminei a quimioterapia e comecei a radioterapia. Depois de todos esses meses de tratamento, os muitos incômodos e o mal-estar que pareciam eternos, de repente se foram e sua lembrança está ficando para trás, envolta em névoa.

Creio que daqui a pouco tudo vai parecer um sonho ruim, daqueles esquecidos no fundo da memória. Agora o que mais quero é voltar à vida normal, ter meus cabelos, meus cílios, minha sobrancelha. Para cair foi rápido… quanto tempo será que demora para crescer?

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