Robeyoncé Lima, mulher trans, dará nome à turma da tradicional Faculdade de Direito de Recife

"Eu já me sentia muito acolhida pelos meus colegas de classe, que mostraram com a escolha um posicionamento positivo e favorável às questões de gênero. Foi muito gratificante", confessou a estudante

Robeyoncé Lima, de 27 anos, aluna transexual da Faculdade de Direito de Recife, uma das mais tradicionais do país, batizará a sua classe que se formará no mês de agosto. A decisão é inédita: os estudantes que ingressaram na instituição no ano de 2011 concluirão os cinco anos letivos fazendo parte da Turma Robeyoncé Lima.

A aluna dedicada, que atualmente estagia na Justiça Federal de Pernambuco, confessou que a surpresa foi grande: “Não esperava que fosse ganhar no meio de tantas outras opções que constavam na enquete do nosso grupo do Facebook,  frases de filósofos e pensadores notáveis”, e completa: “Eu já me sentia muito acolhida pelos meus colegas de classe, que mostraram com a escolha um posicionamento positivo e favorável às questões de gênero. Foi muito gratificante.” 

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Negra, trans e periférica, a trajetória de Robeyoncé é de luta e persistência: é dela o mérito de ter sido a primeira mulher trans aprovada no Exame da Ordem dos Advogados do Brasil, em Pernambuco. E este não é o único curso superior em seu currículo: ela já é formada em Geografia pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), conquista atingida a duras penas, com muito afinco e esforço pessoal. 

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“Nos primeiros dias de aula, escutava pessoas mais velhas cochichando sobre mim na faculdade, mas hoje esse contexto mudou. Quando entrei, me sentia no Castelo da Escandinávia, só tinha gente branca, com um poder aquisitivo muito superior ao meu. Agora, por conta das cotas, a gente percebe um perfil mais popular, mais ‘colorido’, e isso é revolucionário porque traz novas realidades para a vida acadêmica”, desabafou Robeyoncé sobre o início da sua trajetória na Faculdade de Direito de Recife.

“Hoje, eu me sinto mais à vontade no meio acadêmico do que na minha própria casa, todos me respeitam, o que nem sempre acontece na minha comunidade. Porque por mais que nos meus documentos acadêmicos eu seja reconhecida como mulher trans, nos oficiais não sou, este é a falha elementar do nome social. Parece que das grades da instituição para fora, não existo para a sociedade” pontuou. 

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Estudante da rede pública de ensino pernambucano, a recifense e sua família foram abandonadas pelo pai, dependente de crack. “Minha mãe é empregada doméstica e tinha aquela rotina de ir para o trabalho na segunda e voltar na sexta-feira, ela dormia lá. Então, fui criada pela minha avó, a dona Maria de Lourdes, que infelizmente já faleceu, ela me trazia gibis e cativou em mim esse interesse pelos estudos. Sempre vi nos livros uma companhia, porque era uma criança que sempre foi rejeitada por ser diferente, tanto pelo grupo das meninas, quanto pelo dos meninos”, relembra. 

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Infelizmente, a realidade de Robeyoncé é uma ínfima exceção: natural do país que mais mata transexuais no mundo – o Brasil lidera o ranking sangrento de 600 mortes em apenas seis anos, segundo dados da ONG Transgender Europe – deixa a sua mensagem de apoio às sobreviventes como ela: “Considero um privilégio a oportunidade que tenho de fazer um curso superior, e espero que isso incentive as pessoas trans a persistirem nos seus objetivos, porque apesar dos milhares de ‘nãos’, das opiniões dos outros, da hostilidade do mundo, a gente é muito capaz.”

Falando nisso…

Maria Clara de Sena, de 37 anos, é uma das finalistas do Prêmio CLAUDIA 2016. Ela é a única transexual no mundo no cargo de Mecanismo de Prevenção e Combate à Tortura, luta pelos direitos LGBTs. Conheça as finalistas e vote já:

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