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Precisamos falar sobre: assédio em lugares públicos

Uma causa se destaca entre as bandeiras do novo feminismo: o combate ao assédio sofrido por mulheres em espaços públicos

Por Luara Calvi Anic Atualizado em 5 abr 2017, 19h28 - Publicado em 27 ago 2015, 15h42

Levar uma cantada na rua agora é assunto sério. Comentários que constrangem, ofendem, intimidam e amedrontam são considerados uma forma de assédio sexual. E mulheres de várias partes do mundo vêm se mobilizando para trazer à tona a discussão, especialmente produzindo vídeos que registram os insultos sofridos nas andanças cotidianas. “Estamos assistindo ao surgimento de novas manifestações do movimento feminista, e a luta contra o assédio é parte disso. As mulheres estão entendendo que não deveriam tolerar tal situação”, diz a CLAUDIA Emily May, cofundadora da organização americana Hollaback!, que abraçou a causa. Já há vitórias. No Egito, onde as abordagens ultrapassam o limite verbal, e eles puxam, passam a mão, enfiam o braço dentro de carros ou fazem pior, um decreto de 2014 criminaliza os atos com pena de até cinco anos de prisão. Foi baixado após cair na rede um vídeo em que uma mulher é agredida por vários sujeitos na Praça Tahrir, no Cairo, até ficar nua. “Não vivemos nas cidades da mesma forma que os homens. Algum deles já deixou de vestir uma determinada roupa por medo?”, indaga a brasileira Juliana de Faria, da campanha Chega de Fiu Fiu. Veja a seguir como as mulheres têm levantado essa bandeira.

Direito de ir, vir e vestir

A paulistana Juliana de Faria, 30 anos, lançou em 2013 a campanha Chega de Fiu Fiu, contra o assédio a mulheres em espaços públicos, não importa o que estejam usando.

Pablo Saborido Pablo Saborido

Juliana de Faria

Na época, divulgou uma pesquisa com 8 mil entrevistadas em que praticamente todas declaravam já ter enfrentado situações do tipo nas ruas – e 83% não achavam graça nisso. “O que muita gente vê como elogio é uma agressão que atinge nossa liberdade, porque traz medo e intimidação”, diz Juliana. Ela e mais três amigas arrecadaram fundos em um site de financiamento coletivo para fazer um documentário sobre o tema que deve ser lançado em janeiro de 2016. No filme, além de análises de especialistas, mulheres usando óculos com microcâmera acoplada andam pela cidade e registram falas e atitudes ofensivas.

Juliana é uma das nossas finalistas do Prêmio CLAUDIA 2015 na categoria “Trabalho Social”. Vote agora!

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Sem medo de sair

Radicadas no Cairo, a belga Tinne Van Loon, 26 anos, e a americana Colette Ghunin, 23, filmaram os dez minutos que gastaram para atravessar uma ponte no centro da cidade. O vídeo Creepers on the Bridge mostra homens dirigindo olhares intensos para as duas e fazendo comentários lascivos. Segundo levantamento da Organização das Nações Unidas (ONU), 99% das mulheres do Egito já enfrentaram algum tipo de assédio sexual. O que faz com que muitas delas evitem sair. “Não importa a roupa que estejam usando, eles vão olhar para o corpo inteiro como se elas fossem objetos”, conta Colette a CLAUDIA. Agora a dupla trabalha em um documentário sobre essa questão, também no Egito, People’s Girl, com lançamento previsto para o começo de 2016.

Tem consequência, sim!

Quando estava cursando cinema, a belga Sofie Peeters, 26 anos, ouvia muitos ultrajes nas redondezas de sua casa, em Bruxelas. Resolveu, então, filmar o assédio que sofria tão constantemente. O vídeo virou o documentário Femme de La Rue (2012) e rendeu tanta discussão sobre o tema que as autoridades locais baixaram um decreto prevendo multa para quem molestar mulheres em espaços públicos.

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No ano passado, a organização americana sem fins lucrativos Hollaback! divulgou um vídeo em que uma mulher caminhava pelas ruas de Nova York por dez horas e recebia 108 cantadas. Rendeu milhares de visualizações. Para a cofundadora e diretora da instituição Emily May, 33 anos, compartilhar experiências é a chave para virar o jogo das abordagens abusivas. Por meio de seu site e seu aplicativo, a Hollaback! já colheu mais de 8 mil relatos de assédio do gênero. “Quando as mulheres têm contato com histórias semelhantes, olham para o que já sofreram de outro ângulo”, defende. Emily batalha para conscientizar que esse tipo de constrangimento não é culpa delas. E resume: “Embora seja direcionado a você, o assédio é uma questão social”.

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