O lado positivo das emoções negativas

Inveja, raiva, sede de vingança, egoísmo... Entenda melhor esses sentimentos e veja como tirar deles lições e ações úteis para sua vida

Aprenda a enxergar o lado bom das suas emoções negativas
Foto: Getty Images


Você sabia que as emoções negativas não são fatalmente nocivas para nossa vida? “Sentimentos ruins são inevitáveis. E senti-los é importante para manter o equilíbrio”, diz a psicanalista Sonia Pires, de São Paulo. O psiquiatra Paulo Gaudencio, também de São Paulo, autor de livros como Mudar e Vencer (Editora Gente), vai além: “Todo sentimento é bom. O resultado que ele produz é que pode ser ruim”.

A seguir, conheça mais a fundo algumas dasemoções mais rechaçadas pela sociedade, aprenda a enxergar o lado bom de vivenciá-las e descubra ainda como se beneficiar delas. “Alguns desses sentimentos, como a raiva e a sede de vingança, são defesas psíquicas primitivas, manifestadas já pelos bebês e por crianças pequenas”, diz o psicanalista Fábio Belo, professor da Universidade Federal de Minas Gerais. “Nós, adultos, somos capazes de amadurecê-las e elaborá-las.”

1. INVEJA

Todo mundo sente, embora a tendência seja negar. “Se você acusar uma pessoa de ser invejosa, ela ficará furiosa”, ressalta Gaudencio. No entanto, quando tentamos ignorar sua existência, acabamos atacando com palavras e atitudes agressivas, quase sempre sem cabimento, a pessoa que desperta a inveja. No fundo, desejamos “destruir” quem está apontando algo que acreditamos ser incapazes de conseguir também. O primeiro passo para se beneficiar dessa emoção negativa, portanto, é livrar-se de preconceitos e encará-la. “Sentir inveja de forma consciente, ou seja, assumida, pode levá-la a descobrir conteúdos secretos inimagináveis”, afirma a psicanalista Sonia. O segundo passo é desviar o foco do outro e direcionar para si mesma. Até porque será preciso identificar com exatidão o alvo da cobiça. De acordo com os experts, crescer os olhos para o carrão da vizinha, a promoção da colega de trabalho, a viagem de férias à Índia da irmã ou o marido da amiga ainda apaixonado depois de anos de casamento não significa, necessariamente, que se quer dirigir um veículo igualzinho, estar no mesmo cargo, conhecer Nova Délhi ou conquistar aquele homem específico. “Na verdade, a gente inveja as capacidades ou habilidades que permitem ao outro ter mais, ser melhor ou mais amado”, explica Gaudencio. Quando descobrir que dom é esse que lhe falta, se abrirá a possibilidade de desenvolvê-lo.

2. GANÂNCIA

O ser humano é insatisfeito por natureza. “Esse sentimento nos acompanha desde os primeiros momentos da nossa vida e estamos em uma busca constante de algo que nem sabemos o que é”, observa Sonia. Ou seja: é natural (e desejável) ter sonhos a realizar e metas a cumprir – e renovar o cardápio a cada realização. A ambição é a força motriz interna que nos leva a alcançar o que desejamos. Já a ganância, diz a especialista, é a ambição compulsiva. Para o ganancioso, o que importa é ganhar sempre, ser melhor do que os outros, ainda que o objeto da conquista nem seja importante para a felicidade dele. É uma questão de medida. Para não errar na dose, tenha objetivos claros. Quem sabe o que quer não desperdiça energia com o que não interessa e troca, naturalmente, a ganância cega pela ambição necessária para “chegar lá”. Se uma executiva sabe que seu alvo é ser indicada para a próxima vaga no escritório da empresa em Paris, mas está só no nível básico do francês, vai colocar todas as fichas no aperfeiçoamento da língua. Não ocupará seu tempo fuçando e atrapalhando a vida dos demais virtuais candidatos. De qualquer forma, a dica é não perder a chance de usar um episódio de ganância para conhecer o que, de fato, mobiliza você e batalhar por isso. “Deixar de lutar pelo que pode dar mais sentido a sua vida é tão nocivo quanto se entregar a uma busca compulsiva por resultados”, afirma Sonia.

3. SOBERBA

De novo, tudo é uma questão de dosagem. “É na relação com os outros que a gente aprende sobre as próprias dificuldades e capacidades. Mas é também ao me relacionar que posso acabar me deixando à mercê do que todos esperam e pensam de mim”, analisa Sonia. E preocupar-se tanto e o tempo todo com o julgamento alheio, tentando continuamente corresponder a expectativas externas, não é uma maneira saudável e esperta de viver. Isso cria ansiedade, mina a autoconfiança, até paralisa. A soberba é exatamente o oposto: ser “cheia de si”, não se importar em nada com o que as pessoas pensam e dizem, se achar melhor do que todo mundo. Equivale a um sistema de blindagem psíquica, que pode ser de grande valia em certas situações. Imagine uma pessoa começando em um emprego novo, em um ambiente ultracompetitivo, que tem de provar sua competência e sua eficiência sem muita ajuda dos colegas e nenhuma orientação do chefe. Orgulhar-se (ainda que exageradamente) de seus talentos, acreditar piamente no próprio taco e até assumir uma postura meio arrogante são atitudes que ajudarão a desempenhar seu papel e mostrar a que veio. Só não vale manter-se apegada à soberba para sempre. Primeiro, porque afastará os colegas, criará inimizades e rivalidades, dificultará qualquer trabalho em equipe. Mais: “Se essa atitude orgulhosa demais se cristalizar, a pessoa nunca deixará transparecer seus limites e suas dificuldades e, provavelmente, ficará sobrecarregada, estressada e insatisfeita”, defende a psicanalista.

4. RAIVA

É feio sentir raiva. Isso você já deve ter ouvido por aí, mas a verdade é que ela tem sua utilidade, segundo os especialistas. “É uma defesa, como a dor, um alerta do corpo que nos faz tomar providências. Se não a tivéssemos, morreríamos à míngua”, compara a psicanalista Elsa Oliveira Dias, diretora do Centro Winnicott de São Paulo. “A raiva também é um alerta, e esse é um aspecto positivo dela: sua função é indicar que algo a está oprimindo e agredindo, para que você ative seu mecanismo de proteção.” A diferença entre se beneficiar ou se prejudicar com esse sinal é a resposta que se dá a ele. De acordo com o psiquiatra Gaudencio, a agressividade é o combustível para a ação, e quem consegue usá-la dessa forma só tem a ganhar. Para ilustrar sua teoria, ele costuma recorrer à imagem de um barco que perdeu o motor e está à deriva em um rio, sendo levado pela correnteza rumo ao abismo de uma cachoeira. Há três pessoas dentro. Uma é passiva; se senta no chão conformada e se deixa levar. A outra é agressiva; assume o leme e se esforça para mudar a direção do barco. A terceira, que ele chama de malcriada, fica em pé, xinga e esbraveja, mas não age. Quem tem mais chance de solucionar o problema? O segredo, então, é não se deixar enlouquecer pelo ódio, mas aproveitar o impulso para fazer algo efetivo por você. Pode ser um plano de ação para melhorar aquele ponto que despertou sua ira. Na prática, uma mulher que ficou furiosa porque foi chamada de gordinha durante uma discussão deve se valer do alerta da raiva para avaliar se aquilo realmente a incomoda e em que medida – conforme a resposta, a dica é se empenhar em perder o excesso e voltar a se sentir bonita e saudável. Mas às vezes a melhor atitude a tomar é apenas conversar com quem pisou no seu calo. “Quando não manifesto reação ao que me machuca ou ofende, não ofereço ao outro referências do que o ato dele me causa”, diz Sonia.

5. SEDE DE VINGANÇA

Como já foi dito, apenas ficar ruminando o ódio, sem partir para a ação, não tem utilidade nenhuma. Pode resultar, por exemplo, em ressentimento. O verbo ressentir significa “tornar a sentir” – e viver novamente o que já não foi bom antes é, obviamente, prejudicial. “O ressentimento mina, aos poucos, belas amizades e relacionamentos de longa data”, alerta a psicanalista Sonia. “No casamento, se uma das pessoas revive o passado toda hora e está sempre cobrando do parceiro coisas que não podem mais ser mudadas, a relação fica paralisada e se desgasta.” Se elevada à última potência, a raiva também pode virar sede de vingança, uma obsessão que, por si só, não traz benefícios. “Entrar nesse movimento é passar a dedicar a vida ao outro – e justamente àquele que lhe fez mal”, analisa Elsa. Portanto, se seu desejo de fazer justiça é intenso demais para simplesmente deixá-lo para lá, a saída é buscar uma forma positiva de revidar. Um bom conselho é redirecionar o alvo para si mesma. Exemplo: na base da trapaça e da bajulação ao chefe, uma colega conseguiu uma promoção que tinha tudo para ser sua. Muita gente ficou furiosa; você, mais ainda. Qual vingança pode ser mais eficaz do que pesquisar táticas para incrementar a qualidade do seu trabalho (talvez até cursar uma especialização) e se dedicar mais do que nunca a suas tarefas, não deixando dúvidas de que é a melhor candidata a subir na próxima chance que surgir na empresa? Esse tipo de atitude, sim, irá restaurar sua autoconfiança e autoestima feridas.

6. EGOÍSMO

“Em geral, quem chama a gente de egoísta é outro egoísta, que está infeliz porque não estamos dando atenção a ele”, ressalta o psicanalista Luiz Alberto Py, autor de Saber Amar (Rocco) e Mistérios da Alma (Best Seller), entre outros livros. É o instinto de sobrevivência que manda cada um de nós cuidar de si em primeiro lugar. A exceção são os filhos. “O problema é que o egoísmo passou a ser malvisto pela sociedade, culturalmente recriminado”, completa Py. O psicanalista lembra que, não por acaso, nos aviões é dito expressamente que, se houver despressurização e as máscaras de oxigênio caírem, você deve colocar primeiro em si mesma para depois ajudar sua criança ou qualquer pessoa ao lado. “Se não fosse o egoísmo nesse caso, morreriam os dois”, diz ele. Ou seja, conforme a situação, uma dose de egocentrismo é não apenas saudável como necessária. E nisso vários especialistas concordam. Em outras ocasiões, esse sentimento não é vital, mas bem-vindo. A mãe que, de vez em quando, deixa de desfrutar um tempinho livre com o filho para ir à academia ou ao cabeleireiro não pode ser recriminada por se cuidar. Muito menos deve ser censurada aquela que, decidida a ascender na carreira, vira e mexe alonga o expediente em sacrifício do jantar com a família. Mas o sinal vermelho acende para quem exagera e só consegue olhar para o próprio umbigo. “Ignorar a existência do outro, acreditando que ninguém mais interessa, é uma defesa, uma forma de negar a inerente dependência que todos nós temos”, avisa Gaudencio. “Quem se mantém nessa posição deixa de aprender, pois é na troca que crescemos.” Para Sonia, por trás de um ego inflado estão escondidas fragilidades que devem ser tratadas. “Vale o mesmo para quem é altruísta demais e se ocupa o tempo todo dos outros, abandonando seus desejos, interesses e suas necessidades.” O equilíbrio ajuda a desfrutar o melhor dos dois mundos.

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