Clique e assine Claudia a partir de R$ 8,90/mês

“Não me livrei até hoje da sensação de estar sendo vigiada. Quero recomeçar a vida”

A mineira Magna Santos, 40 anos, trabalhou como tesoureira em um banco e sofreu dois sequestros em que sua filha foi tomada como principal refém. Ela conta sua história em um livro lançado recentemente

Por Gabriela Abreu (colaboradora) - Atualizado em 22 out 2016, 20h27 - Publicado em 13 nov 2015, 16h51

“Sou formada em história e, aos 27 anos, passei em um concurso para trabalhar no Banco do Brasil, onde me tornei tesoureira. Nessa época, 2003, mudei com minha filha para Caetanópolis, uma pequena cidade próxima a Belo Horizonte. Me apaixonei pelo lugar pois possibilitou a ela frequentar uma escola particular, fazer curso de inglês e estudar música. Além disso, tinha o Museu Têxtil Décio Mascarenhas, onde eu podia fazer pesquisas na área em que me graduei. Mas nos últimos 12 anos a cidade ficou violenta.

Em janeiro de 2013, saí do trabalho e cheguei em casa às 18h20. Ao entrar, fui para o meu quarto e estranhei, pois em pleno verão, minha filha estava deitada e coberta até a cabeça, pensei que estivesse dormindo. Rapidamente fui surpreendida por um homem que me deu uma gravata e me empurrou para o quarto. Ali percebi que havia mais um rapaz e que minha filha, na época com 15 anos, não estava dormindo, mas rendida pelos bandidos. Em seguida, entraram mais alguns criminosos em minha casa, um total de sete pessoas. A quadrilha era especializada, existia uma hierarquia, eles me acompanharam durante 90 dias, sabiam toda a minha rotina, estavam muito bem preparados.

Enquanto estávamos em casa, eu e minha filha ficamos sentadas no sofá o tempo todo. Eles faziam ameaças e deixavam claro que preferiam não matar, mas que estavam dispostos a isso. Até que às 22 horas, um parte da quadrilha saiu com a minha filha e um casal ficou comigo. Não consegui dormir, fiquei todo o tempo no sofá. Eles estavam muito concentrados, agiam de modo profissional, eram bem articulados e se expressavam corretamente. Durante a noite fui ouvindo as conversas e descobrindo como a quadrilha funcionava. Por exemplo, esse homem que passou a noite em minha casa iria receber 20 mil reais pelo trabalho. A função dele foi me seguir durante alguns dias e nos render.

Às 7 horas, os sequestradores saíram e devolveram o meu celular. Minha filha continuava em poder deles. Me deram um saco para eu colocar o dinheiro que deveria pegar no banco e passei a receber telefonemas de 10 em 10 minutos. Tomei banho e fui para o trabalho. Entrei na agência e fiquei esperando o meu colega chegar – ninguém tem acesso ao cofre sozinho. Os sequestradores me ligavam várias vezes para ameaçar, diziam que a vida da minha filha só dependia de mim. Convenci o meu colega a me ajudar a entregar o dinheiro e fomos juntos encontrar os bandidos. Paramos o carro e um bandido, com a arma apontada pro meu rosto, pegou 420 mil reais, todo o dinheiro que tinha na agência. Ele saiu a pé até sumir em uma curva. Me mandou ir para a agência e esperar que, em 30 minutos, eu teria notícias da minha filha.

Esperei uma hora e meia até o telefone tocar. Ela foi abandonada na zona rural de Belo Horizonte. Fui com esse meu colega buscá-la. Chamamos a polícia e, até agora, apenas um membro dessa quadrilha foi identificado. Minha filha estava bem quando a encontramos, mas foi um grande trauma. Fiquei um tempo afastada, sem poder trabalhar. Nessa primeira ocasião eu sofri muito, me sentia fracassada nos dois papéis que eu considero os mais importante na minha vida: mãe e profissional. Passei por momentos difíceis, mas continuei na função de tesoureira na mesma agência, acreditando que esse tinha sido um fato isolado. Mas, infelizmente, não foi.

Dois anos depois, maio deste ano, assim que abri o portão para ir trabalhar um bandido armado apareceu. Fui rendida e voltei para a casa acompanhada de mais dois sequestradores. Um deles disse que sabia que eu já tinha sido vítima de um sequestro. Mas que iriam sair com minha filha e eu teria que entregar o dinheiro da agência de novo. Consegui identificar que ele era da mesma quadrilha, só que desta vez estava com grupo de amadores. Minha filha acordou eles dentro do quarto, fizeram um vídeo com a arma na cabeça dela para que eu usasse para sensibilizar outros funcionários do banco. Eles saíram com ela e eu fui para o banco sozinha. Só que dessa vez, alguém percebeu a movimentação e chamou a polícia. Eles conseguiram rastrear o número da minha filha e prenderam a quadrilha na BR 040. Ela foi resgatada sem nenhum ferimento.

Desde então eu não trabalhei mais. Durante três meses fiquei afastada da minha casa e da minha filha. Não tinha coragem de ficar junto com ela. Depois de muita terapia, muita oração, estou tendo alguma paz. Aparentemente, ela lida de forma mais tranquila com isso. Fiquei feliz porque ela acabou de passar no vestibular e, ano que vem, vai morar em Belo Horizonte para cursar arquitetura em um dos melhores cursos do país. É estranho uma mãe falar isso, mas estou feliz porque não vamos mais morar juntas. Quando eu voltar a trabalhar, ela não vai estar mais em casa, mas em um lugar mais seguro.

Voltando ao banco, infelizmente, eu vou sair da função de tesoureira. Ainda não sei qual será meu cargo, mas vou recomeçar a vida. Quero também retomar minha pesquisa na área de história e continuar minha pós-graduação que parei depois do primeiro sequestro.”

Confira o e-book de Magna Santos, #AFelicidadeNãoEstáAVenda!: Uma história de como a violência afeta a vida na modernidade. À venda na amazon.com por US$ 0,99 dólares

Continua após a publicidade
Publicidade