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Mulheres encontram na corrida a força para transformarem suas vidas

Saiba o que essa prática esportiva causa no seu cérebro e por que ela é tão empoderadora

Por Nathalia Cariatti (colaboradora)
Atualizado em 22 out 2016, 18h57 - Publicado em 8 jul 2016, 07h00

Diariamente, Marieneide dos Santos se levanta junto com o sol. Ela tem um compromisso com mais de 80 mulheres e, mais importante ainda, consigo mesma, de vestir os tênis, sair para a rua e correr às 7h da manhã. “Eu não sei o que os pesquisadores dizem sobre isso, mas certamente tem alguma coisa muito forte aí, que me faz querer levantar cedo até no domingo para correr”. Neide, como prefere ser chamada, é apenas uma entre milhares de adeptos que encontraram na corrida mais do que uma atividade para manter o corpo saudável: para ela a prática é indispensável principalmente para a mente. “No dia em que eu não corro eu é mais difícil me concentrar em outras coisas, não consigo nem dormir direito”.

Não é novidade que os benefícios de se exercitar superam o bem estar fisíco e agem também no cérebro. Além de manter o corpo em forma, o que pode ser um santo remédio para aumentar a disposição no dia a dia e melhorar a autoestima, a prática de exercícios físicos, especialmente os aeróbicos, aumenta a produção da endorfina, hormônio responsável pelo bem-estar e que ajuda na redução do stress e da ansiedade.

Pesquisas apontam ainda que a atividade aumenta a circulação de sangue no lobo frontal do cérebro, região que, quando irrigada, o que acontece após uma longa corrida, pode melhorar o foco e concentração. Um estudo recente feito em Harvard acrescenta ainda que a atividade regula também as emoções, podendo ajudar na superação de sentimentos como raiva e tristeza.



Pablo Saborido
Pablo Saborido ()

Neide corre desde os 14 anos e não estava ciente desses benefícios explicados pela ciência – apenas sentia por sua própria experiência. Hoje com 56 anos, considera que teve a vida transformada pelo esporte. Vitíma de abusos sexuais na juventude, ela perdeu o marido e o filho adolescente para a violência urbana e encontrou na atividade física um caminho “não para superar, porque isso a gente nunca supera, mas para aprender a conviver com a dor”. Foi aí que entendeu que a sua válvula de escape também poderia ajudar outras pessoas. Moradora do Capão Redondo, na periferia de São Paulo, usou essa força para criar o projeto Vida Corrida, que estimula o esporte na comunidade, e que lhe rendeu a indicação ao Prêmio CLAUDIA 2016 na categoria Trabalho Social.

Tendo ajudado já quase 500 pessoas, ela vê diariamente o empoderamento que a corrida pode trazer. “Muitas mulheres aqui são donas de casa, ou trabalham como empregadas domésticas. A corrida lhes deu confiança para falar para a patroa – olha, eu posso fazer outro horário, mas preciso desse tempo aqui para me exercitar – ou para sair em um domingo de manhã para treinar e deixar o almoço na responsabilidade do marido, sendo que a vida toda tinha sido o contrário, eram eles que saiam pro futebol e esperavam voltar e encontrar comida na mesa. O exercício estimulou essas mulheres a verem uma vida além da que tinham”.

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Promotora de justiça e atleta amadora, Gabriela Mansur endossa com a sua experiência pessoal o que a ciência está tentando explicar. Corredora há 20 anos, ela afirma: “sempre que eu tenho um problema, é no esporte que eu consigo me acalmar, manter o controle da situação”. Para ela, a corrida foi essencial para superar fases difíceis e de mudanças, de prestar um concurso público ao divórcio. “Correr me traz um alivio muito grande, uma sensação de controle da minha própria vida, de poder”.

Atuando no GEVID – Grupo de Atuação Especial de Enfrentamento à Violência Doméstica, Gabriela percebeu que, da mesma forma que a corrida lhe ajudava a superar seus conflitos, poderia servir às mulheres em situação de vulnerabilidade. Munida dessa motivação, criou o Movimento pela Mulher, que une provas de corrida e ações sociais para lutar pelo fim da violência doméstica e a igualdade entre os gêneros. “A medida que mulher ganha confiança através do esporte, transfere isso para a vida pessoal. Ela se descobre, não aceita mais ser subordinada, ganha força para sair de um relacionamento abusivo ou mudar de emprego se está insatisfeita”. 

 

Divulgação
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Encontrar no esporte a força para retomar o controle da própria vida foi também o que aconteceu com a jornalista Yara Achôa, que descobriu o gosto pelo exercício há 11 anos. Ela começou a praticar aos 40 anos de idade. “Cheguei no treino e me senti envergonhada em meio a meninas mais jovens e em forma. Mas insisti e em seis meses minha vida mudou”. Yara diz que tomou forças para terminar um casamento, que já estava morno, e para partir do trabalho fixo e se arriscar como autônoma. “Comecei a me sentir mais corajosa, com vontade de virar a mesa, encarar desafios”.

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Hoje, ela não vê mais a idade como barreira e já deixou muita menina para tráz nas 7 maratonas que completou. “Depois de correr 42km, garanto que você não aceita ouvir de mais ninguém que não é capaz de fazer algo”.

Estímulos gerados pelo desafio e a vontade de quebrar os próprios recordes se somam à atividade cerebral intensa provocada pelo exercício, justificando a sensação de poder que essas mulheres afirmam sentir ao final de um treino. Em entrevista à revista New York a neuropsicóloga Karen Postal afirma que o surgimento de novas células no cérebro só se dá através da prática de um exercicío aeróbico vigoroso – não se conhece ainda nenhum outro gatilho para esse processo. Essas novas células surgem no hipocampo, região associada à memória e ao aprendizado, o que explica tal clareza para tomar decisões transformadoras. “Certa vez me perguntaram: ‘porque todas as pessoas bem sucedidas correm?’. Depois de pensar eu respondi – ‘Elas são bem sucedidas porque correm'” relembra Gabriela. 

Não à toa, sonhar acordado entre as pisadas é valioso. Para Neide, a rua é um lugar de meditação “me sinto zen, só penso em colocar um pé na frente do outro”, enquanto Gabriela se perde em devaneios “começo pensando em um problema que preciso resolver no dia e no fim do treino estou decidida a me candidatar à presidência da república!” Mas as duas se encontram em uma conclusão – “Não é só um esporte, é um estilo de vida”.

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