Paola fala de como aprendeu a se gostar e sobre difícil relação com a mãe

"É forte dizer, mas a morte dela foi libertadora para mim, porque não era uma influência muito positiva na minha vida"

Ela ainda estava com a pele molhada da água fria da piscina, em uma manhã de sol do fim do inverno paulistano, quando se posicionou atrás do computador onde foram registradas as imagens que o fotógrafo havia acabado de fazer.

O cabelo, tantas vezes escondido sob faixas ou lenços em uma cozinha, estava solto e casualmente esvoaçante naquele dia. Nas orelhas, brincos pequenos e discretos sobre os quais fez questão de perguntar se eram mesmo joia, preocupada com uma alergia que tem.

A maquiagem era leve, e o maiô verde ficou colado ao corpo da chef, que está completando 46 anos neste mês de outubro. Parada por um segundo em frente ao monitor, deixou na expectativa os profissionais à sua volta. “Uau! Está belíssima!” Foi assim que a argentina Paola Carosella reagiu ao ver o resultado das primeiras fotos que fez para o ensaio publicado ao longo das próximas páginas. O sorrisão no rosto mostrava que ela estava gostando do que via. Mas nem sempre foi assim.

 (Rodrigo Marques (OD MGT)/CLAUDIA)

Um post no Instagram com mais de 370 mil curtidas e 13 mil comentários (um recorde na sua rede social) foi um marco público da transformação. “Você tem orgulho de você? Eu tenho. Muito”, começava a legenda da imagem da chef em uma praia argentina, durante um fim de semana com o marido, o fotógrafo Jason Lowe. “Postei a foto em um impulso, seis meses depois da viagem. De um tempo para cá, aprendi a gostar de mim de um jeito que eu nunca soubera. Apreciei a foto, a pessoa que vi, a força, a postura segura. Não temos muitas referências de mulheres que se gostam não sendo modelos de 18 anos e 36 quilos.

Na minha profissão, por exemplo, eu jamais poderia imaginar que um dia usaria salto ou maquiagem. Não encaixava no formato que uma cozinheira deveria ter. Foi uma libertação quando entendi que podia fazer isso sem deixar de ser uma boa profissional.”

Paola relata que, na época da postagem, julho de 2018, estava recebendo em suas contas pessoais muitas críticas pela participação como jurada do MasterChef, da Band. “Mas percebi que o discurso de ódio tinha mais relação com a própria pessoa do que comigo. Por isso, terminei a postagem com ‘aos que odeiam, amor-próprio’.

Se está em um bom momento com a sua cabeça, gostando de quem você é, curtindo cada coisinha, você se torna uma pessoa mais amorosa com os outros, em todos os sentidos. E comigo não foi sempre assim. Demorei um tempão para gostar de mim.”

 (Rodrigo Marques (OD MGT)/CLAUDIA)

Com 1,77 metro de altura, Paola acostumou-se nos tempos de escola a ser a última da fila e a representar papéis masculinos nas atividades do colégio. Depois disso, passou quase 30 anos como cozinheira, convivendo com cheiro de alho nas mãos, suor, odor de fumaça, pernas inchadas pelas longuíssimas horas em pé.

Carregando caixas, entrando na câmara fria e saindo dela. Sem maquiagem, sem salto. “De glamour não tem nada. E, justamente por passar tantos anos assim, quando me vi de outro jeito, me assustei. Foi todo um processo de aceitar, entender, abraçar e depois ficar segura de que não tenho que ser só uma coisa. É um lado que quero explorar agora, porque acho divertido. Sou muito mais complexa do que mostram as duas horas semanais do programa.”

Paola não se amava “nem aos 18, nem aos 28, nem aos 36, nem aos 40 anos”, como ela diz. Ela não aceitava o pernão, os joelhos, o rosto marcante, o queixo, o nariz.

Paola diz que duas coisas principais a fizeram mudar o olhar sobre si mesma e sobre o próprio corpo. “Primeiro, a autoestima, que não veio pelo corpo, mas pela cabeça. Depois, a TV, que me ajudou, porque tive de me expor a usar salto, saia, maquiagem, decote, cabelo solto. No começo, foi muito chocante para mim.

Pensava que as pessoas poderiam pensar que não sabia cozinhar. Isso é estúpido e mostra todos os preconceitos que nós, mulheres, carregamos. Para ser uma boa profissional, tenho que ser como um homem, não posso chamar a atenção. Imagine ficar bonita na cozinha? Não dá. Quando se abriu a porta para que eu explorasse o outro lado, demorei um pouco para entender. Mas, quando compreendi, me senti muito livre. E isso ajudou no processo de fortalecer minha autoestima.”

Mãe genial e infeliz

Em um domingo, ao voltar do trabalho, Paola encontrou a mãe morta na piscina de casa. Pulou na água e tirou o corpo de lá. A advogada Irma, que tinha 19 anos quando Paola nasceu, era filha de um caminhoneiro e de uma dona de casa imigrante italiana, tomava antidepressivos e álcool.

“É forte dizer, mas a morte dela foi libertadora para mim, porque não era uma influência muito positiva na minha vida. Era muito denso viver ao lado dela quando nada era suficiente, nada era leve. E ver alguém sofrendo tanto do seu lado…

Vivenciei três tentativas de suicídio da minha mãe, desde criança. É muito difícil. Além disso, passei por momentos que me fizeram ser insegura a vida toda, pois tive uma mãe genial e também bastante cruel, superexigente. Minha mãe era muito dura nas cobranças que tinha comigo, sempre dizia que eu não fazia nada direito. Era muito questionamento. Além de ser uma mulher incrível, linda e admirável, era muito cruel porque era assim com ela mesma. Extremamente infeliz, não tinha nenhuma autoestima. E isso com certeza afetou minha autoestima também.”

Filha – grude

Paola diz que, na relação com a filha, Francesca, 7 anos, se policia para não repetir os comportamentos nocivos de sua mãe. “Mais precisamente os acessos de narcisismo, de começar a reclamar de tudo, de vitimismo. Aí eu paro e peço desculpas para a Fran.”

A menina conhece a história da família – além do acidente com a mãe, o pai de Paola, um agricultor que era maníaco-depressivo, se enforcou no jardim. “Eu e Fran somos um grude. Ela tem um processo muito bonito e verdadeiro de aceitar que os avós não estão aqui. E, de alguma forma, deve sofrer com essa falta e esse medo de a mãe dela morrer também. O que ajuda muito é que, diferentemente do que eu vivia, me vê feliz, saudável.”

 (Rodrigo Marques (OD MGT)/CLAUDIA)

Paola fica alerta com a autoestima da filha e conversa muito para entender o que está sentindo em situações que podem parecer corriqueiras, como chorar porque acha que seus desenhos são horríveis.

“O meu trabalho com Francesca, consciente e constante, está na aceitação do ‘imperfeito’ e na busca do melhor possível. Fortalecer a autoestima dela, para que não seja vítima de comentários dos outros, para não ter insegurança na adolescência, para se livrar de ‘namorados lixo’, é minha meta mais importante. Sem arrogância, na medida certa, de estar bem para ouvir críticas sem se derrotar, mas sem fugir delas, sem criar um escudo de proteção com autoengano. Todos vamos ouvir coisas feias, mas, se você se gostar, vai filtrar melhor aquilo e até saber afastar o que não serve.”

Seus fantasmas

A chef conta que sempre teve muito medo do futuro, mas todo o processo para desfazer a parceria com os sócios argentinos do Arturito, seu restaurante no Jardim Paulista, na Zona Oeste de São Paulo, a fizeram ter mais confiança em suas decisões. Com menos de 20% na participação do negócio, apesar de ser a única a estar no Brasil e a tomar conta do cotidiano sozinha, ela resolveu, depois de muitas conversas sem sucesso para que ocorressem mudanças, deixar que a casa “quase morresse”, com uma queda de 30% no faturamento, o que fez com que aceitassem vender a parte deles no empreendimento paulistano.

“Quando deu certo, consegui confirmar que a minha intuição estava correta, e isso me levou para um lugar melhor. Então saí mais segura de mim. Parei de ter medo do que vai acontecer daqui a cinco anos. Quando esse sentimento vem, eu me lembro de como cheguei aqui.”

Mas há um medo que ainda ronda Paola, aquele que, segundo ela, pode aparecer em um fim de tarde frio e chuvoso de domingo, sem nada para fazer, depois de uma semana que não foi tão boa.

“Imagine tudo o que aconteceu comigo. Vi várias tentativas de suicídio da minha mãe, desde muito pequena; depois, ela morreu num acidente estranho; meu pai se suicidou. Aí virei mãe. Claro que eu tenho medo. Meu maior temor na vida continua sendo o da morte, do acidente que você não controla.”

 (Rodrigo Marques (OD MGT)/CLAUDIA)

Paola conta que chora quando briga com as pessoas que ama, e isso acabou se tornando uma forma de conexão com a filha. “Às vezes a gente começa e não para mais de discutir. Então a Fran me vê chorando, silencia, me abraça.” Diz que também chora quando não consegue se fazer entender no relacionamento com o marido, que é irlandês. “Sabe o que é ter um problema com o parceiro, pensar em português e escrever em inglês quando seu cérebro na verdade está programado em espanhol? Aí é preciso que todo esse turbilhão de sentimentos seja traduzido em uma conversa de WhatsApp. Às vezes me pergunto se não tem jeito de encontrar relacionamentos mais difíceis”, brinca a chef.

Não conseguir ajudar quem sofre, sobretudo a filha, também faz a argentina chorar. “Quando eu vejo que não estou conseguindo fazer a Fran sair da dor, aaaaaahhh, eu sofro muito. Mas aprendi a continuar, a não abraçar o mundo. Fiz isso a minha vida inteira. Era muito crítica, me odiava, me castigava, carregava a culpa do Universo inteiro. Sou de uma família de mulheres que carregam muita culpa. Tenho 18 anos de terapia e aprendi que isso acaba sendo uma forma de narcisismo também”, afirma Paola.

Política brasileira

No Brasil desde 2001, quando chegou para trabalhar no restaurante Figueira Rubayat, na capital paulista, Paola está agora em processo de nacionalização. Quer ser brasileira e poder votar. “Acho que é uma responsabilidade cívica que eu devo exercer”.

Alvo de críticas pelo engajamento contra a nova lei dos agrotóxicos, que flexibiliza as regras para a fiscalização e a utilização, ressente-se da polarização que vive o país e decidiu se afastar um pouco. “É um momento muito quente, de muitos extremos. Adoraria ser criticada com conteúdo, mas estou sendo com estupidez. O cenário político está deturpado, sujo, corrupto. É surreal o que está acontecendo, assustador. Tenho fé na geração da minha filha; na nossa, não.”

Masterchef

Quando a edição mais recente do programa começou a ser gravada, Paola teve dúvidas sobre se iria se apaixonar de novo pelo programa, mas aconteceu. “Eu me emocionei com o talento de alguns participantes, me senti cutucada por cozinheiros mais jovens para ir atrás de algumas coisas. Era uma responsabilidade muito grande julgá-los com conteúdo. Então, à medida que eu continue me encantando, vou fazer. Se eu não gostasse, não faria mais. É muito importante gostar do que se faz. Sou agradecidíssima ao que o MasterChef me deu, mas, se um dia sentir que entrei no automático, vou parar”, afirma a chef, que não se vê com frequência no vídeo.

 (Rodrigo Marques (OD MGT)/CLAUDIA)

O que vem pela frente

Paola diz que olha no espelho e vê uma mulher “bem parada”, com vontade de fazer muitas coisas. Levanta-se e, em postura altiva, explica o que é estar se sentindo segura. E é assim que quer seguir.

“Tenho muitos desejos. Gostaria de aprender a cantar. Quero ter um cotidiano em que eu continue a ser feliz e saudável. No ano que vem, vou fazer 47 anos, a idade que minha mãe tinha quando morreu. Então será um ano forte pra mim. Quero chegar muito saudável e muito feliz a ele. Estou em um momento abençoado, muito agradecida pelo que a vida me deu. Não foi fácil. Não nasci assim. Talvez você tenha a sorte de ter nascido em uma família saudável. Eu não tive. Nasci numa família doente, mas me saí bem. Agora quero continuar nesse caminho porque está muito gostoso.”

Para 2019, planeja tirar do papel planos que estava sem tempo de tocar. “Tenho dois empreendimentos para abrir, já com o local, um ponto que aluguei na esquina do Arturito. É um projeto legal para fazer com Jason também. Vai ser um restaurante e atrás haverá uma padaria, mas só para comprar pão, não para tomar café. E um ateliê para dar aulas, receber pessoas, fazer vídeos.”

Naquele mesmo post na praia, Paola escreveu: “Nada me dá mais alegria e desejo do que esperar e planejar tudo o que vem pela frente”. O ano de 2019 vai ser forte.

Texto: Alessandra Balles | Concepção visual: Miro Branco | Edição de moda: Fabio Ishimoto| Styling: Cuca Ellias (OD MGT) | Produção de moda: Jaqueline Cimadon | Beleza: Wilson Eliodório (Salão WES Estúdio) | Assistente de beleza: Max Lima | Assistentes de fotografia: Erick Diniz e Pedro Lins | Produção executiva: Olivia Canato | Tratamento de imagens: Doctor Raw | Agradecimentos a Loja Tidelli e Mariana Amaral Comunicação

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