Da internet para a TV, Caio Braz fala sobre sua trajetória em entrevista

Conheça o pernambucano que é hoje um dos rostos mais carismáticos da internet

Dois dias depois de se encontrar com a equipe de CLAUDIA, Caio Braz, 32 anos, embarcou para o México pela terceira vez. “Amo praia, sol, natureza”, explicou sem tirar o cigarro eletrônico da boca. Apesar da descrição, a viagem não era exatamente a lazer. Cada segundo que o apresentador pernambucano – e nome forte da nova geração que se destaca nas redes sociais – passou em terras mexicanas foi parar em sua conta no Instagram, alimentando seus 150 mil seguidores.

O número é modesto para as proporções atuais, mas ele não tem pressa. Cada passo na carreira é pensado para ele não virar, como teme, arroz de festa. Contratado do GNT, Caio comandou o programa Merendas e Marmitas, que, em 2018, em sua segunda temporada, foi uma das maiores audiências do canal por assinatura no horário nobre. Nele, entrevistou famosos como Claudia Raia, Luan Santana e Daniela Mercury para saber o que eles levavam em suas quentinhas.

No ano passado, outra atração comandada pelo publicitário, o talk show Xou das Nove, migrou de seu Instagram pessoal para o perfil do GNT e contou com a participação da cantora Maria Rita e da escritora Fernanda Young, entre outras.

Morando no Rio há pouco mais de uma década, Caio foi uma criança precoce na internet. Com 10 anos, criou um site em homenagem à banda britânica Spice Girls, de quem era fã. E não parou mais. Estudioso, toca piano e fala cinco idiomas: inglês, português, espanhol, francês e italiano.

“Aos 12 anos, fazia curso de italiano todo sábado. As crianças iam brincar e eu ia estudar (risos)”, diz ele, que, atualmente, cursa pós-graduação em filosofia enquanto movimenta seu canal no YouTube. Com 120 mil inscritos, o projeto fala de moda, música e estilo de vida.

Caio, que usa a expressão “é massa” como se fosse vírgula, entende bem dos caminhos de quem optou por ganhar dinheiro com a internet e tem opiniões elaboradas sobre o vício nas redes sociais. “Quem souber usar as ferramentas digitais para criar produtos jornalísticos que não necessariamente tenham a ver com a exposição da figura ou de uma vida fitness ou de um reality show vai ser feliz”, afirma.

 (Jorge Bispo/CLAUDIA)

CLAUDIA: Já teve dúvidas sobre seu trabalho?

Caio Braz: No começo, notei que algumas pessoas da minha geração estavam seguindo um modelo de blogueiro de permuta.Não queria isso; então aprendi a dizer não. Não virei arroz de festa de evento para ganhar brinde, lanche, champanhe… Se eu quero beber champanhe, trabalho, compro uma garrafa e tomo com meus amigos. Foi um dilema porque eu queria me estabelecer como repórter mesmo.

CLAUDIA: O que pensa do vício das pessoas na internet?

Caio Braz: É megaproblemático não sair do celular. Quando estou fazendo ioga, fico quase duas horas sem meu celular, sem pensar em tecnologia, em nada! Porque, às vezes, até correndo na praia você não se desconecta. Se alguém liga, bate aquela tentação de atender. Tenho procurado esse tipo de experiência, de ficar longe das redes.

Em setembro de 2017, em um retiro de 15 dias na Índia, fiquei irritadíssimo porque celular era permitido. Mas já fui para a Chapada dos Veadeiros (Goiás) e passei quatro dias sem pegar no aparelho. Não tem nada que não possa esperar. Se uma pessoa que você ama morrer, você vai ficar sabendo. Não é demagogia, é difícil mesmo, mas sou a favor de a gente se ocupar com outras atividades. Olha que eu vivo da interação com a internet; sei, porém, que isso pode ser opressivo.

CLAUDIA: Você já fez seu pé de meia?

Caio Braz: Acho que o pé de meia não tem fim. Na verdade, é uma meia furada. É outra crise. O que fazer com essa grana? Compro um apartamento? Um carro? Faço parte de uma geração que está ressignificando a propriedade. Invisto muito em viagens e cursos, que dão retorno, repertório. Foi uma lição que aprendi em casa.

Meus pais (Paulo e Lúcia) não são ricos. Sou de uma família de classe média, de bancários aposentados. Hoje minha mãe trabalha como estilista de Carnaval e meu pai tem um bloco em Recife. Sempre que eu pedia algo que fosse me trazer aprendizado, eles faziam o possível para me proporcionar.

Sei que sou um privilegiado neste país que a gente vive, mas tenho prazer de gastar dinheiro para ganhar conhecimento ou criar conteúdo que vá levar isso para quem me acompanha. Surgiu uma história incrível para fazer no Japão? Faço um esforço e vou.

CLAUDIA: Internet dá dinheiro?

Caio Braz: Muitas pessoas estão nessa empreitada por causa de grana. O Brasil é o segundo país no mundo que mais acessa as redes sociais. É fortíssimo! Tem muita grana, oportunidade, emprego. A gente nem consegue imaginar a quantidade de coisas que vai surgir nessa área em dez anos. Fico muito ligado nas novidades tecnológicas porque não vendo um produto, mas ideias, pensamentos, histórias.

CLAUDIA: Você pensa em fazer TV aberta?

Caio Braz: Até gostaria, mas estou bem no GNT, tenho conseguido ampliar a minha voz.

CLAUDIA: Você trabalhou como repórter do GNT Fashion por cinco anos. Como chegou à televisão?

Caio Braz: Comecei fazendo cobertura de moda na internet com a galera do Gema TV, um canal da web, e com o pessoal do blog Garotas Estúpidas. Até que um dia, o roteirista que trabalhava com a Lilian Pacce viu um vídeo meu e me chamou para uma experiência. Não foi nem um teste! Já entrei ao vivo para cobrir a São Paulo Fashion Week.

Hoje, quando assisto às coisas daquela época, morro de vergonha. Mas o GNT Fashion foi a minha escola de jornalismo. Fui para a França, para os Estados Unidos. Que massa! Não sou especialista em moda nem em alimentação saudável e natural. Nem pretendo ser. Sou antenado. Se quiser fazer uma matéria sobre café, vou estudar e descobrir um monte de coisas.

CLAUDIA: Ser especialista não é importante?

Caio Braz: Isso não existe mais na TV ou na internet. Admiro muito a Astrid Fontenelle, até a chamo de mommy porque ela é muito carinhosa comigo. Gosto de como ela conduziu a carreira no entretenimento e na cultura sem impor regras ou babar ovo de celebridade. Não é especialista em nada, mas sabe de tudo.

 (Jorge Bispo/CLAUDIA)

CLAUDIA: Falar sobre sua sexualidade aumentou sua visibilidade?

Caio Braz: Não sei, mas foi, para mim, necessário. Publicamente, eu evitava o assunto porque tinha medo de ser rejeitado, de não conseguir trabalho publicitário, de as minhas redes não crescerem. Comecei a olhar para os lados e muita gente estava descortinando esse tabu. Pensei: “Chega de ficar calado!”.

Não é a minha única pauta, mas pode inspirar outras pessoas. Eu fico imaginando se eu, aos 12 anos, visse alguém igual a mim na internet falando: “Eu sou gay, e isso não me atrapalhou”.

CLAUDIA: Seus pais sempre apoiaram você?

Caio Braz: Eles são mais de boa do que eu. Meu pai me incentivou a fazer terapia desde pequeno – comecei aos 5 anos. Tenho muita sorte de tê-los na minha vida. Já apresentei vários namorados e eles acolheram. A preocupação é se a pessoa gosta de mim, se eu gosto dela.

CLAUDIA: Sofreu bullying?

Caio Braz: Com certeza! Quando eu era criança, beijava meninas. Só que, toda vez que eu falava sobre meus sentimentos, as pessoas diziam: “Ah, mas você é gay”. Eu era uma criança afeminada, que gostava de dançar. Ficava confuso por outra pessoa me colocar dentro do armário embora eu não tivesse escolhido ter entrado nele. Olha como essas palavras de opressão podem ser violentas.

CLAUDIA: Está solteiro?

Caio Braz: Tomei um pé na bunda recentemente e foi muito duro. Ao mesmo tempo, foi bom, porque, quando fico triste, escrevo música, por exemplo. Vivo intensamente essas paixões. Acho bonito isso de sentir mais, de ser vida real, não internet.

CLAUDIA: Usa aplicativos de namoro?

Caio Braz: Até uso o Tinder, mas detesto namoro virtual. Para mim é: vamos nos encontrar, tomar uma taça de vinho, transar, dormir abraçados, ver uma série, qualquer coisa, mas junto com a pessoa. Celular e amor não têm nada a ver.

CLAUDIA: Você viaja muito. Como começou essa vida de turista?

Caio Braz: Meu primeiro emprego foi aos 18 anos em uma agência de turismo em Recife. Tinha passado no vestibular para administração, na Universidade Federal de Pernambuco, mas só começaria em seis meses. Para não ficar parado, fui fazer intercâmbio nos Estados Unidos. Lavava pratos e servia mesas em um resort na Flórida. Juntei quase 10 mil dólares em quatro meses. Com essa grana, fui para Espanha, Alemanha, Havaí, onde trabalhei de novo como garçom.

CLAUDIAL: Como foi parar no Rio?

Caio Braz: Pedi transferência da agência de viagem para a unidade carioca. Quando cheguei, me mudei para a pensão de uma senhora viúva. O endereço era nobre, em Ipanema, mas éramos 15 caras dividindo beliches. Apesar de ter emprego, o início não foi fácil. Depois, aluguei uma quitinete, morei com namorado, com amigos, até encontrar o apartamento onde estou, em Copacabana.

CLAUDIA: Como a internet virou um emprego?

Caio Braz: Com 10 anos, fiz um site sobre as Spice Girls e, aos 14, sobre a tenista checa naturalizada suíça Martina Hingis. Ela ganhava tudo! Mais tarde, comecei a cobrir campeonatos para um portal no Brasil (supertenis.net). Como eu era precoce, sentia os olhares feios nas salas de imprensa.

CLAUDIA: O que seus pais achavam de você passar o dia online?

Caio Braz: Eles achavam o máximo! Era uma tecnologia nova, e eu tinha domínio completo sobre ela. Ensinei meu pai a navegar. E eu não deixava de fazer outras coisas. Andava de bicicleta, brincava, tirava nota boa, era uma criança normal. Mas, naquela época, acho que não tinha a problemática que existe hoje, que é a do excesso. Não tinha nem banda larga (risos)!

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