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Covid-19: experiências únicas de gravidez, parto e puerpério na pandemia

Infecções, isolamento e ansiedade... Mulheres relatam medos e alegrias durante uma vivência tão especial ressignificada pela pandemia

Por Isabella D'Ercole Atualizado em 28 abr 2021, 15h10 - Publicado em 16 abr 2021, 10h00
Jana posa com a gravidez avançada
Reprodução/Acervo pessoal

Janaína Grasso, 33 anos

Educadora e produtora cultural, de Salvador e morando em São Paulo há 25 anos

“Nina, minha filha, tem 5 meses. Eu e meu parceiro, Diogo, sempre quisemos ser pais e descobrimos a gravidez algum tempo antes da pandemia ser anunciada. Como mãe de primeira viagem, imaginei que eu compartilharia a experiência com amigos e familiares.

Ao longo do primeiro trimestre da gestação, contudo, percebi que a pandemia poderia tomar uma dimensão muito maior pela falta de ação e competência do governo precário que a gente tem. A preocupação com a saúde coletiva me deixou angustiada.

Eu ficava abalada com as notícias sobre o aumento dos casos. Vivi a gestação sabendo que era muito especial, mas prestando atenção, tendo paciência e cuidado com o que chegava de informação. Não dava para me blindar completamente, porém procurei lidar com a situação da melhor maneira possível.

Dediquei meu tempo à minha saúde e alimentação, à minha espiritualidade. Ouvia música todos os dias, lia sobre maternidade e os primeiros cuidados com a bebê, preparava a casa pra chegada dela. Perdi muitos trabalhos e, infelizmente, entrei para a estatística das mulheres negras que ficaram desempregadas durante a pandemia.

Tive suporte financeiro do meu parceiro, do meu irmão e dos meus pais. Passei o segundo trimestre da gestação na casa da minha mãe, onde moram também meu pai, irmãos e sobrinhos. Todos me deram muito carinho, especialmente as crianças, Joaquim, Antônio e Clara.

Depois do parto, a vida mudou completamente. Nasci de novo. Experimentei com intensidade a fase das descobertas sobre maternidade e sobre mim mesma e também da dedicação que um bebê recém-nascido exige.

Quando tudo isso acabar, quero levar a Nina para tomar um banho de mar na Bahia. Desejo que ela possa conhecer nossos amigos e visitar familiares. Torço para que a Nina cresça com coragem e que retribua o carinho que já recebe de todos, mesmo que, por enquanto, à distância.”

 

Sentada em uma cadeira pendurada no teto, Sabrina segura sua filha no colo
Ingryd Alves/Acervo pessoal

Sabrina Dibynis, 31 anos

Produtora de conteúdo digital, de São Paulo

“Eu e meu marido começamos a tentar engravidar em outubro de 2019 e, em fevereiro, meu teste deu positivo. Não contei para ninguém além da família, então, quando a pandemia começou, as pessoas não imaginavam que eu estava grávida.

Nos primeiros meses em casa, fiquei muito pra baixo. Eu não me reconhecia e estava com a autoestima no chão, mas me cobrava porque eu queria tanto aquela gravidez, não tinha motivo para tristeza. Depois fui entender que essa bagunça hormonal é um dos sintomas esperados.

Outras coisas complicaram a situação: na segunda consulta do pré-natal, meu marido foi impedido de entrar. Era uma norma de segurança. Eu lembro de ligar pra ele por vídeo e de sair chorando porque era longe do meu ideal aquilo.

Meu desejo era ter minha avó, minha irmã, tia e sogra me acompanhando, indo comprar enxoval. Queria ter chá revelação e chá de bebê. Enfim, nada disso ia acontecer e ainda corria o risco de ter o parto sem acompanhante.

Para aguentar a pressão, eu e meu marido criamos uma bolha em casa. Eu parei de ver notícias. Cuidava de mim, fazia exercícios, skincare, conversava com amigas pelo telefone, orava. Também estudei bastante e foi quando eu entendi que minha concepção de parto estava errada.

Na minha cabeça, eu queria uma cesárea para chegar linda, maquiada e sair pronta pra receber a família, todos com a mesma camiseta, que nem torcida organizada. Lendo, compreendi que o parto normal era o ideal, no tempo do bebê e que a cesárea salvaria vidas em caso de complicações.

Arrumei outra médica e uma equipe de mulheres empoderadas para me acompanhar, com doula, parteira. Formei uma rede com outras grávidas que teriam parto com a mesma equipe e troquei muitas figurinhas com minha prima e uma amiga também gestantes.

O pós-parto foi um baque muito maior do que eu esperava. Puerpério sem ter a risada das amigas, o abraço da família e sem dar uma voltinha pra espairecer é pesado. Mas eu me recordava todos os dias o propósito daquilo, a Júlia, hoje com 6 meses. Só assim, apegada ao que tinha de bom, superei essa fase.”

 

Izabella posa com a gravidez adiantada
Tais Marcato/Acervo pessoal

Izabella Camargo, 40 anos

Jornalista, de Apucarana (PR) e morando em São Paulo há 24 anos

“Tenho falado bastante de gravidez no meu canal. Acho importante porque, assim como a vacina, o nascimento nos traz esperança. Eu engravidei aos 39 anos. Em setembro do ano passado, falei para o meu marido: ‘Vamos parar o anticoncepcional e ver no que dá’. Um mês depois, o teste saiu positivo.

Os acontecimentos na minha carreira me ensinaram que quanto mais expectativa se cria, pior. E a pandemia me fez entender que não tenho controle das coisas. Esses foram diferenciais para engravidar rapidamente. O stress pode atrapalhar muito o processo, mas eu coloquei nas mãos de Deus e esperei.

Ainda assim, estar grávida agora gera uma série de questionamentos. Eu vou ao mercado, de máscara, e penso como vai ser daqui alguns meses. Eu me questiono: ‘Minha filha, no carrinho, vai ter que usar máscara também?’

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Desde que descobri a gravidez, estou trabalhando de casa. Organizo saídas estratégicas para me exercitar na academia do prédio, algo muito importante para as gestantes, e para fazer drenagem, porque, quando fico inchada, o corpo coça todo, é horrível.

Claro que tenho medo, me pergunto se vou conseguir. Para piorar, tem esse monte de pitaco que todo mundo adora dar. Ouvido de grávida já é estressado e nessa situação durmo e acordo pensando no que vai acontecer.

Estou mais introspectiva e acho que é totalmente normal neste momento, não há nada de errado numa grávida triste de vez em quando. Os hormônios já são uma montanha-russa e ainda tem a pandemia. Minha cabeça deu uma pirada há algum tempo. Juntei muitas angústias e minha psiquiatra sugeriu tomar antidepressivo.

O remédio não afeta o bebê, mas o medo e a aflição descontroladas poderiam. Procuro pensar no agora e não fazer nenhuma previsão para o futuro, senão me paralisa. Não sei ainda o que vai acontecer no parto, por exemplo, estou focando no sétimo mês de gestação, que comecei agora.”

 

Romana segura a filha Raika no colo e abraça Ravi
Reprodução/Instagram

Romana Novais, 30 anos

Médica, de Vitória da conquista (BA) e morando em São Paulo há 2 anos

“O Ravi, meu primeiro filho, nasceu em janeiro e poucos meses depois, descobrimos a gravidez da Raika. Era um bebê muito desejado, porém fiquei apreensiva por causa da pandemia. Tive cuidado, evitei sair de casa, mas ainda assim me contaminei com o novo coronavírus.

Eu tinha tomado uma vacina indicada durante a gravidez e comecei a passar mal, mas achei que era uma reação ao imunizante. Mesmo sem pensar que pudesse ser Covid-19, fiz um teste. Quando o resultado voltou positivo, fiquei apavorada. Tentei me manter positiva, acreditando que melhoraria rápido. Eu e o Alok, meu marido, nos isolamos e o Ravi foi para a casa da minha mãe.

Em dois dias, contudo, comecei a ter contrações e sentir muita dor. Fui numa consulta e a médica disse que Raika não estava em sofrimento fetal, o coração batia perfeitamente. Só que eu comecei a ter muito sangramento e aí a indicação foi de seguir para o hospital e iniciar os procedimentos de parto.

Eu me lembro de gritar que não queria que ela nascesse prematura. Apesar da gravidez saudável, Raika tinha apenas 32 semanas. A médica me acolheu, me acalmou e explicou que essa escolha não cabia a mim. Após o parto, eu e minha filha fomos para a UTI.

Eu permaneci mais quatro dias na terapia intensiva e depois segui em isolamento. Ela nasceu sem Covid-19. Meu leite demorou dez dias para descer, mas eu sabia da importância da amamentação, então, depois que estava curada, ia para o hospital com minha mochila e ficava o dia todo lá tirando leite para que ela pudesse ser alimentada.

A Raika é uma guerreira, eu já percebi isso. No final de dezembro, logo depois do Natal, conseguimos reunir a família – eu, meu marido e nossos dois filhos – em casa. Que alívio e que felicidade! Sei que o meu desfecho foi feliz, mas muitas grávidas acabam em situações dramáticas nessa pandemia. Nós, mães, precisamos cuidar da nossa saúde mental. Achei que tiraria o puerpério de letra porque não seria minha primeira vez, mas não foi assim. Hoje, só espero que a pandemia passe logo pra termos uma vida tranquila.”

 

Laura segura o bebê no colo e beija seu rosto
Reprodução/Instagram

Laura Della Negra, 38 anos

Fisioterapeuta especializada em assoalho pélvico, de São Paulo

“Eu e a Dani, minha companheira, já estávamos no processo de retirada dos óvulos e escolha do doador há um ano quando começou a pandemia. Nossa fertilização in vitro estava marcada para março, mas foi adiada, assim como muitos outros procedimentos e cirurgias, para evitar a falta de medicamentos na linha de frente.

Em junho, nosso médico avisou que poderíamos tentar e deu certo de primeira. Foi uma escolha consciente, mas exigiu alguns cuidados. Evitei, por exemplo, ver notícias. Eu tinha insônia se assistisse aos jornais.

Sigo assim até hoje, mesmo após o nascimento do bebê, em março. Uma manhã, abri uma exceção para ver jornal e meu leite secou. Não sei se foi coincidência, mas sou uma pessoa que me abalo facilmente com as coisas.

No primeiro trimestre da gestação, fiquei triste e muito enjoada. Claro que tem uma parte que é dos hormônios, mas eu não esperava isso, acho que era uma reação a estar afastada de amigos e familiares, de não ter como conversar com mais gente.

Poucas pessoas me viram grávida; barriguda mesmo, só um amigo. Eu fico emocionada de pensar que essa pode ser a única vez que engravido e ninguém passou a mão na barriga. Senti falta das amigas indo me visitar no hospital, daquela coisa de distribuir lembrancinhas. Parece bobo, mas tem um peso maior quando você está vivendo a situação.

Meus pais e minha irmã conseguiram ir na maternidade. O parto aconteceu quando os números estavam um pouco melhores e tivemos a equipe completa conosco – todo mundo de máscara menos eu e a Dani. A família da Dani é de Recife, então eles não conhecem ainda nosso filho.

Eu torço pra isso passar logo pra gente poder apresentá-lo pra todo mundo, pros nossos amigos o pegarem no colo e encherem de beijo e carinho. Desejo que ele possa brincar com outras crianças sem se preocupar se será infectado. Espero que a gente possa ver nossa família quando a gente quiser, sem ter que planejar tanto ou ficar preocupadas com tudo.”

  • O que você precisa saber sobre gravidez em tempos de pandemia

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