Por que uma heroína plus size pode mudar o jeito de sua filha ver o corpo dela

Foi anunciado o primeiro HQ da Faith, a primeira super-heroína plus size, que nem li ainda, mas já considero pacas

Quando eu era nova tinha muito claro que as mocinhas legais da história eram todas Mulher-Maravilha: íntegras, fortes, corajosas em um traje curto e decotado, com um corpo sarado e cabelos longos de dar inveja. 

Lembro também do sentimento ambíguo e confuso que tinha em relação à Mulher-Gato, quando Michele Pfeiffer viveu o papel. Ela era estranha, frágil e solitária, mas à noite se transformava em uma sedutora bandida capaz até de confundir o incrível Batman. Nessa história também tinha um gordo: o pinguim, um implacável vilão sociopata sem coração. Não é que Batman tenha estragado minha autoestima, mas para uma adolescente que se sente solitária, tem o corpo fora dos padrões e gosta de coisas diferentes da maioria dos coleguinhas, fica difícil se sentir mais como super-heroína e menos como o vilão. E, então, por ser diferente, aprendi que estava fadada ao fracasso. Eu sempre seria a vilã da história, enquanto não me encaixasse. 
 
Que erro, eu sei, mas naquela época não sabíamos que o diferente era bom, nenhuma propaganda ou programa de televisão nos dizia isso – e o Youtube sequer existia! Imagine então como essa falta de referencial de corpos e atitudes diferentes teve influência na minha autoestima e de tantos outros da minha geração e das gerações anteriores. Crescemos sentindo que éramos inferiores, que não tínhamos nada de especial e que o que tínhamos de diferente era só um motivo para os coleguinhas nos zoarem na infância e nos transformarem em cretinos no futuro – vivendo em algum esgoto ou em algum telhado à margem da sociedade.

Hoje sou uma adulta bem resolvida, mas demorei anos para dissociar o corpo do meu sucesso e para acreditar que, independentemente dos meus gostos, eu poderia pertencer a um grupo – e não era aquele que as pessoas consideravam como os fracassados.

Essa semana recebi uma ótima notícia para a próxima geração. A editora Valiant anunciou uma minissérie em 4 capítulos de uma de suas personagens favoritas do HQ: a Faith, codinome Zaphyr. Uma jornalista durante o dia, mas que por causa de seus poderes psíquicos e capacidade de voar escolhe salvar a cidade (e o mundo!) à noite. 

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A diferença? Faith é gorda, nerd com orgulho e isso não muda o fato dela ser tão ótima quanto qualquer outro super-herói.  Antes que a patrulha da saúde possa reclamar, ninguém vai decidir ser gorda porque tem uma personagem plus size – afinal a Mulher-Maravilha e tantas outras esguias continuam a existir. O que vai mudar é que aquela criança ou adolescente fora dos padrões e que não acreditava no seu potencial vai poder se enxergar em uma heroína incrível e vai ter um referencial positivo mais perto de sua realidade e imagem no espelho. 

Não tem nada de ruim em ter mais de um referencial de corpo, pelo contrário, incentivar a liberdade e a maravilhosidade de cada pessoa é o que realmente pode salvar vidas no mundo real.  

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