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Bruna Linzmeyer: “O filme de terror é real”

A atriz fala sobre “Virtuosas", terror que reflete sobre religião, poder, negacionismo e os discursos femininos que chegam à política

Por Beatriz Lourenço Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 6 out 2026, 15h00
Mulher de cabelos escuros e blusa branca de gola alta, com expressão séria, gesticula com as mãos abertas, usando um anel dourado e relógio de pulseira marrom. O fundo escuro sugere um ambiente noturno ou com pouca luz
Bruna Linzmeyer desvenda a vilã de "Virtuosas", revelando como o filme expõe o perigoso universo das "mulheres de bem" (Olhar Filmes/Divulgação)
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Bruna Linzmeyer: “O filme de terror é real” Priorizar nos meus resultados Google

Ao abrir as redes sociais, é comum se deparar com vídeos de algumas mulheres cozinhando massas e pães deliciosos do zero. Aparentemente inofensivas, elas chamam atenção por manter uma vida de dona de casa perfeita. Mas basta olhar um pouco mais de perto que o discurso muda: pregam que as vacinas são perigosas, que o voto feminino não deve ser válido ou que os contraceptivos precisam ser banidos. 

Sobre o que é Virtuosas?

É a partir dessa ideia que nasce o roteiro de Virtuosas, longa-metragem de Cíntia Domit Bittar, recém-lançado nos cinemas. No thriller, Bruna Linzmeyer interpreta Virgínia, uma coach que reúne “moças de bem” em um retiro VIP criado para ajudá-las a alcançar uma suposta melhor versão de si mesmas – conceito associado à interpretação de uma passagem de Provérbios 31, da Bíblia. 

Porém, o que começa como uma experiência de desenvolvimento e feminilidade, se transforma em uma jornada absurda e perigosa, atravessada por ideias de submissão, fundamentalismo religioso, negacionismo e ambição política. 

Cinco mulheres adultas, com roupas claras e elegantes, em um ambiente interno escuro. A primeira, loira, usa colar de pérolas e cardigã rosa. A segunda, morena, sorri. A terceira, de cabelo curto, veste blusa de gola alta. A quarta, com tiara bege, tem expressão séria. A quinta, de cardigã marrom, sorri discretamente. Um arranjo floral grande e seco está em primeiro plano
Em “Virtuosas”, Bruna Linzmeyer vive uma vilã que manipula mulheres com discursos negacionistas e fundamentalistas (Olhar Filmes/Divulgação)
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Abaixo, confira a entrevista completa com Bruna Linzmeyer:

CLAUDIA: Como foi o primeiro contato com o roteiro?

Conheci o trabalho da Cíntia [Domit Bittar, diretora] através dos curtas dela. Ambas somos do interior de Santa Catarina e a gente já queria trabalhar juntas há um tempo. Ela faz parte do Conselho Superior de Cinema, foi diretora da API (Associação de Produtores Independentes)… O Virtuosas é resultado de um interesse dela nesse cruzamento entre cinema e política institucional.

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Já a personagem é um presente. Tenho 15 anos de carreira e essa é a primeira personagem assim, vilã, que fiz. É uma grande oportunidade. 

CLAUDIA: Foi difícil para você tentar entrar na mente dessa vilã? 

Foi bem espantoso! Não sabia que existiam as virtuosas, nem as tradwives – termo mais conhecido na Europa e nos Estados Unidos. Entrei nesse universo de pesquisa com bastante espanto. Vi vídeos no YouTube com títulos como: “5 formas de você ser submissa ao seu marido”, “5 formas de você ser mais feminina”. E, nesse mesmo canal, há vídeos com discurso armamentista, antivacina, LGBTfóbico e racista. O filme de terror é real.

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Essas pessoas também estão na política institucional. A Virgínia, na minha opinião, nem acredita em Deus, não é uma pessoa genuinamente religiosa. Ela manipula, se usa da fé e do desespero das pessoas para conseguir poder. 

Mulher loira com o rosto coberto de sangue, olhos fechados e boca aberta em um grito de horror, usando brinco de pérola e roupa clara com pérolas, em fundo escuro
“Para mim, ser uma mulher virtuosa é ter liberdade, querer o bem das pessoas, independentemente das diferenças que eu tenho com ela” (Olhar Filmes/Divulgação)
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CLAUDIA: Virtuosas e o livro Bons Tempos saíram mais ou menos na mesma época. É uma coincidência ou estamos prestando mais atenção nesse discurso?

Não é coincidência, não. É um movimento de conscientização que a gente precisa ter. Passamos por uma quarta era do feminismo em que a gente queria mais mulheres em todos os lugares. E, agora, podemos nos perguntar: quais mulheres estão chegando ao poder? Que mulheres são essas? No que elas acreditam? Que discursos coletivos elas têm? Em quais leis essa mulher vai votar se ela for para a política institucional?

Acho que é até preconceituoso a gente olhar para uma mulher e pensar que ela é boa só porque é mulher, é boa – porque, de novo, homogeneiza o que é ser mulher. Nem todas as mulheres são dóceis, boas e querem o bem da sociedade. Há muitas mulheres perversas, como a Virgínia, que atropelam as pessoas e se usam da religião, da fé e de discursos coletivos para, na verdade, construir um império individual.

CLAUDIA: Como você percebe essa manipulação da religião por essas pessoas?

É uma leitura deturpada do que me parece ser religião. Cresci na religião cristã, minha mãe trabalhava na Igreja Católica – eu era coroinha, fiz comunhão, crisma. Eu frequentava a igreja duas vezes por semana. Hoje, minha mãe e minha tia trabalham no centro espírita e eu frequento o candomblé. A religião é uma linguagem de pertencimento importante. E Virtuosas vem para falar de uma leitura equivocada que as pessoas fazem da Bíblia, de Deus e até dos Provérbios 31, de onde vem a mulher virtuosa.

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Para mim, ser uma mulher virtuosa é ter liberdade, querer o bem das pessoas, independentemente das diferenças que eu tenho com ela.

Mulher de cabelo castanho, vestindo um robe de seda bege, apoiada na janela, olhando para a frente com expressão séria. Ela segura um objeto escuro na mão direita, e uma fumaça leve sai dele. O reflexo dela aparece no vidro da janela, e ao fundo, há folhagem escura
A atriz compartilha os bastidores do filme e reflete sobre o perigoso movimento das “tradwives” e a apropriação da fé para fins políticos (Olhar Filmes/Divulgação)

CLAUDIA: O filme ser lançado pouco antes das eleições foi uma coincidência? 

Isso foi programado pela produção e pela direção do filme. Mais do que trazer conscientização, o que tenho percebido é que ele traz debate. Ele está provocando perguntas, conversas e questionamentos que devem ser feitos. Essa eleição, especificamente, tem um cruzamento muito grande com o filme, principalmente na questão do negacionismo. Na história, há um bebê que está adoecendo porque não tomou nenhuma vacina.

E cadê a nossa responsabilidade coletiva em relação a isso? Bolsonaro foi até a ONU defender o uso da cloroquina – um remédio cientificamente comprovado que não funcionava para a Covid. Ele não tomou vacina, incentivava as pessoas a não tomarem e muita gente morreu por isso. Hoje, estamos enfrentando o sarampo, uma doença que foi erradicada no Brasil – e tem gente morrendo de sarampo. 

CLAUDIA: Você não tem medo de dizer sua posição política. Já passou pela sua cabeça algum medo de retaliação?

Acontece – e não só por causa da minha posição política, também porque sou sapatão. Mas é o que acredito no mundo. Isso é importante para mim enquanto pessoa e cidadã.

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