Bruna Linzmeyer: “O filme de terror é real”
A atriz fala sobre “Virtuosas", terror que reflete sobre religião, poder, negacionismo e os discursos femininos que chegam à política
Ao abrir as redes sociais, é comum se deparar com vídeos de algumas mulheres cozinhando massas e pães deliciosos do zero. Aparentemente inofensivas, elas chamam atenção por manter uma vida de dona de casa perfeita. Mas basta olhar um pouco mais de perto que o discurso muda: pregam que as vacinas são perigosas, que o voto feminino não deve ser válido ou que os contraceptivos precisam ser banidos.
Sobre o que é Virtuosas?
É a partir dessa ideia que nasce o roteiro de Virtuosas, longa-metragem de Cíntia Domit Bittar, recém-lançado nos cinemas. No thriller, Bruna Linzmeyer interpreta Virgínia, uma coach que reúne “moças de bem” em um retiro VIP criado para ajudá-las a alcançar uma suposta melhor versão de si mesmas – conceito associado à interpretação de uma passagem de Provérbios 31, da Bíblia.
Porém, o que começa como uma experiência de desenvolvimento e feminilidade, se transforma em uma jornada absurda e perigosa, atravessada por ideias de submissão, fundamentalismo religioso, negacionismo e ambição política.
Abaixo, confira a entrevista completa com Bruna Linzmeyer:
CLAUDIA: Como foi o primeiro contato com o roteiro?
Conheci o trabalho da Cíntia [Domit Bittar, diretora] através dos curtas dela. Ambas somos do interior de Santa Catarina e a gente já queria trabalhar juntas há um tempo. Ela faz parte do Conselho Superior de Cinema, foi diretora da API (Associação de Produtores Independentes)… O Virtuosas é resultado de um interesse dela nesse cruzamento entre cinema e política institucional.
Já a personagem é um presente. Tenho 15 anos de carreira e essa é a primeira personagem assim, vilã, que fiz. É uma grande oportunidade.
CLAUDIA: Foi difícil para você tentar entrar na mente dessa vilã?
Foi bem espantoso! Não sabia que existiam as virtuosas, nem as tradwives – termo mais conhecido na Europa e nos Estados Unidos. Entrei nesse universo de pesquisa com bastante espanto. Vi vídeos no YouTube com títulos como: “5 formas de você ser submissa ao seu marido”, “5 formas de você ser mais feminina”. E, nesse mesmo canal, há vídeos com discurso armamentista, antivacina, LGBTfóbico e racista. O filme de terror é real.
Essas pessoas também estão na política institucional. A Virgínia, na minha opinião, nem acredita em Deus, não é uma pessoa genuinamente religiosa. Ela manipula, se usa da fé e do desespero das pessoas para conseguir poder.
CLAUDIA: Virtuosas e o livro Bons Tempos saíram mais ou menos na mesma época. É uma coincidência ou estamos prestando mais atenção nesse discurso?
Não é coincidência, não. É um movimento de conscientização que a gente precisa ter. Passamos por uma quarta era do feminismo em que a gente queria mais mulheres em todos os lugares. E, agora, podemos nos perguntar: quais mulheres estão chegando ao poder? Que mulheres são essas? No que elas acreditam? Que discursos coletivos elas têm? Em quais leis essa mulher vai votar se ela for para a política institucional?
Acho que é até preconceituoso a gente olhar para uma mulher e pensar que ela é boa só porque é mulher, é boa – porque, de novo, homogeneiza o que é ser mulher. Nem todas as mulheres são dóceis, boas e querem o bem da sociedade. Há muitas mulheres perversas, como a Virgínia, que atropelam as pessoas e se usam da religião, da fé e de discursos coletivos para, na verdade, construir um império individual.
CLAUDIA: Como você percebe essa manipulação da religião por essas pessoas?
É uma leitura deturpada do que me parece ser religião. Cresci na religião cristã, minha mãe trabalhava na Igreja Católica – eu era coroinha, fiz comunhão, crisma. Eu frequentava a igreja duas vezes por semana. Hoje, minha mãe e minha tia trabalham no centro espírita e eu frequento o candomblé. A religião é uma linguagem de pertencimento importante. E Virtuosas vem para falar de uma leitura equivocada que as pessoas fazem da Bíblia, de Deus e até dos Provérbios 31, de onde vem a mulher virtuosa.
Para mim, ser uma mulher virtuosa é ter liberdade, querer o bem das pessoas, independentemente das diferenças que eu tenho com ela.
CLAUDIA: O filme ser lançado pouco antes das eleições foi uma coincidência?
Isso foi programado pela produção e pela direção do filme. Mais do que trazer conscientização, o que tenho percebido é que ele traz debate. Ele está provocando perguntas, conversas e questionamentos que devem ser feitos. Essa eleição, especificamente, tem um cruzamento muito grande com o filme, principalmente na questão do negacionismo. Na história, há um bebê que está adoecendo porque não tomou nenhuma vacina.
E cadê a nossa responsabilidade coletiva em relação a isso? Bolsonaro foi até a ONU defender o uso da cloroquina – um remédio cientificamente comprovado que não funcionava para a Covid. Ele não tomou vacina, incentivava as pessoas a não tomarem e muita gente morreu por isso. Hoje, estamos enfrentando o sarampo, uma doença que foi erradicada no Brasil – e tem gente morrendo de sarampo.
CLAUDIA: Você não tem medo de dizer sua posição política. Já passou pela sua cabeça algum medo de retaliação?
Acontece – e não só por causa da minha posição política, também porque sou sapatão. Mas é o que acredito no mundo. Isso é importante para mim enquanto pessoa e cidadã.
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