O papel da vacina contra HPV na prevenção do câncer de colo do útero
Especialistas explicam como a infecção acontece e por que a vacinação ainda é importante fora da adolescência
Durante o mês de março, a campanha Março Lilás chama atenção para a prevenção do câncer de colo do útero — um dos mais comuns entre mulheres no Brasil. O período reforça a importância de falar sobre o HPV, vírus diretamente ligado à doença e que ainda gera muitas dúvidas, especialmente na vida adulta.
Quando se fala em vacina contra HPV, muita gente ainda associa a proteção apenas à adolescência. Por isso, não é raro que mulheres adultas acreditem que esse cuidado já não é mais necessário, seja porque já passaram dessa fase ou porque estão em um relacionamento estável.
Mas não é bem assim.
O HPV é uma infecção extremamente comum e pode permanecer no organismo por anos sem causar sintomas. É justamente por isso que a prevenção não termina na juventude e nem com a vacina.
O HPV (papilomavírus humano) é um vírus transmitido principalmente pelo contato íntimo entre mucosas. Bastante comum, ele pode infectar pele e regiões genitais e, na maioria dos casos, não causa sintomas — o que faz com que muitas pessoas nem saibam que tiveram contato com o vírus.
O HPV é mais comum do que pensamos
Diferente do que muita gente imagina, o HPV não depende necessariamente de penetração para ser transmitido. O vírus circula por meio do contato entre mucosas e secreções, o que torna a infecção muito mais fácil do que se supõe.
“Ele pode ser transmitido pelo simples contato entre mucosas e secreções. Por isso, a maioria das pessoas sexualmente ativas vai ter contato com o vírus em algum momento da vida”, explica a ginecologista Ana Paula Fabricio.
Isso ajuda a entender por que o HPV é tão frequente e por que ele pode ser contraído mesmo em situações consideradas seguras, como o uso de preservativo. Embora o uso reduza o risco, ele não protege completamente contra o contato com áreas infectadas.
Ou seja: é uma infecção muito mais comum do que parece e muitas vezes passa despercebida.
“Muitas mulheres acreditam que não correm mais risco, seja porque estão em um relacionamento estável ou porque já se vacinaram. Mas o HPV não funciona dessa forma”, completa a Dra.
O vírus pode ser silencioso por anos
Um dos aspectos mais desafiadores do HPV é o fato do vírus, na maioria das vezes, não apresentar sintomas.
Esse comportamento silencioso faz com que muitas mulheres só descubram a infecção em exames de rotina ou nem saibam que tiveram contato com o microrganismo. Em alguns casos, ele pode permanecer no corpo por anos, de forma adormecida, sem causar alterações visíveis.
Nem toda infecção vira câncer (mas o risco existe)
Apesar de ser o principal fator de risco para o câncer de colo do útero, o HPV não leva automaticamente ao desenvolvimento da doença.
“Muitas pessoas associam o diagnóstico de HPV ao câncer, mas isso não é verdade. Nem todo mundo que tem contato com o vírus vai desenvolver a doença”, explica o oncologista Ramon Andrade de Mello.
Na prática, a infecção é extremamente comum e, na maioria dos casos, o próprio organismo consegue eliminar o vírus naturalmente. Por isso, mais do que o contato com o vírus em si, o que realmente importa é a evolução da infecção e a ausência de diagnóstico precoce.
“A infecção é extremamente comum e, em até 90% dos casos, o próprio organismo elimina o vírus em até dois anos, sem causar sintomas ou doença grave”, explica.
O problema acontece quando o vírus não é eliminado. Nesses casos, a infecção pode persistir e começar a provocar alterações nas células do colo do útero que, ao longo do tempo, pode evoluir para o câncer.
Como o HPV pode evoluir no corpo
Quando a infecção persiste, alguns tipos do HPV — especialmente os de alto risco — passam a interferir diretamente no funcionamento das células.
Esse processo não acontece de forma imediata. Em geral, ele é lento e progressivo, o que abre uma janela importante para diagnóstico e tratamento.
“A evolução pode levar muitos anos — às vezes décadas. Mas as lesões iniciais podem surgir em um intervalo de dois a quatro anos”, completa.
A vacina contra HPV ainda é essencial na prevenção?
Mesmo sendo uma das principais formas de prevenção, a vacina contra HPV ainda gera dúvidas — principalmente fora da adolescência. Embora o ideal seja a aplicação antes do início da vida sexual, especialistas reforçam que isso não significa que adultos não possam se beneficiar. “A vacina protege contra os tipos mais relevantes do vírus, mas não todos”, explica a ginecologista.
Existem diversos subtipos do HPV, e a vacina protege contra os principais — como os tipos 6, 11, 16 e 18 —, mas não contra todos. Por isso, mesmo vacinadas, mulheres ainda podem ter contato com o vírus. A diferença é que o risco de desenvolver lesões mais graves ou câncer diminui significativamente.
A vacina já está mudando o cenário da doença
Nos últimos anos, a estratégia de vacinação também evoluiu. Desde 2024, o esquema de dose única passou a ser adotado em alguns contextos, o que facilita o acesso e amplia a cobertura vacinal.
Apesar das dúvidas, os impactos da vacinação já começam a aparecer de forma concreta. Segundo o oncologista, a vacina contra HPV já reduziu em até 58% os casos de câncer de colo do útero em mulheres jovens e em até 67% as lesões pré-cancerosas.
Além disso, ela também pode beneficiar quem já teve contato com o vírus. “Mesmo quem já teve HPV pode se vacinar. A vacina ajuda a prevenir novas infecções e reduz o risco de recidiva”, explica.
O que acontece quando o HPV não é eliminado
Na maioria dos casos, o organismo consegue eliminar o HPV naturalmente. Mas, quando isso não acontece, o vírus pode permanecer ativo no corpo e começar a provocar alterações nas células do colo do útero.
Essas mudanças são conhecidas como lesões pré-cancerígenas, chamadas de NIC (neoplasia intraepitelial cervical), e são classificadas em graus 1, 2 e 3. Elas surgem antes do câncer e, justamente por isso, podem ser tratadas precocemente — o que faz toda a diferença na prevenção.
No caso de algumas manifestações do vírus, os sinais podem ser visíveis. As verrugas genitais, associadas a determinados tipos do HPV, podem crescer rapidamente e têm alta capacidade de transmissão, o que exige diagnóstico e tratamento adequados.
O acompanhamento médico também pode variar de acordo com cada caso. Em geral, o exame de Papanicolau deve ser feito regularmente após o início da vida sexual. Já mulheres com histórico de HPV podem precisar de intervalos menores e de um acompanhamento mais próximo.
O exame que pode detectar alterações antes do câncer
O exame de Papanicolau é uma das principais ferramentas na prevenção do câncer de colo do útero. Isso porque ele consegue identificar alterações nas células ainda em fases iniciais — antes mesmo de qualquer sintoma aparecer.
“Quando o diagnóstico é feito precocemente, as chances de cura são muito altas — por isso o acompanhamento regular faz toda a diferença” afirma a ginecologista.
O que ainda falta entender sobre prevenção
Quando o assunto é HPV, o maior risco pode não estar apenas na infecção — mas na falta de informação sobre ela. Entender como o vírus é transmitido, como ele age no organismo e quais são as formas de prevenção faz toda a diferença ao longo da vida.
A vacinação contra o HPV ainda é cercada por mitos — e muitos deles acabam afastando mulheres de uma das principais formas de prevenção.
“Existe uma ideia equivocada de que a vacina pode causar infertilidade ou influenciar o início da vida sexual, mas isso não tem qualquer comprovação científica”, afirma Ramon.
Outro ponto comum é acreditar que a vacina só faz sentido antes do início da vida sexual. Na prática, isso não é uma regra. “Não existe idade para a vacina. Ela traz benefícios em quaisquer períodos de vida”, afirma.





