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Dhá para pensar - por Dhafyni Mendes

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Espalhamos generosidade por aí. Mas estamos abertas a receber de volta?

Dhafyni Mendes estreia sua coluna em CLAUDIA com uma reflexão sobre receber acolhimento e generosidade

Por Dhafyni Mendes 30 set 2026, 14h30 | Atualizado em 30 set 2026, 15h09
Cinco mulheres de diferentes etnias, descalças, em um sofá laranja e no chão de madeira. Uma mulher de blusa cinza e shorts branco sorri, sentada no chão. Outras três estão no sofá, uma de blusa preta e calça marrom, outra de blusa branca e calça cáqui, e a última de vestido plissado claro. Uma mulher de camisa e calça brancas está sentada na lateral do sofá, olhando para frente. Todas têm expressões serenas
Você está disposta a receber o acolhimento do outro quando precisa?  (Pexels/Divulgação)
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Espalhamos generosidade por aí. Mas estamos abertas a receber de volta? Priorizar nos meus resultados Google

Eu ainda era muito criança quando recebi os primeiros gestos de generosidade. Eles vieram da minha avó, de uma tia e até de uma vizinha que, mesmo com três filhas, cuidou de mim durante algum tempo na infância.

Ainda me faltava maturidade para compreender o que aquelas mulheres estavam fazendo por mim. Hoje, olhando para trás, percebo que o cuidado delas, nos períodos de ausência da minha mãe, ajudou a moldar quem me tornei. Reconheço muito daqueles gestos na maneira como vivo, trabalho e me relaciono com outras mulheres.

Talvez a generosidade também seja uma herança. Não daquelas que recebemos prontas, mas das que aprendemos observando. Alguém cuida de nós e, muitos anos depois, descobrimos que aquele cuidado reaparece na forma como acolhemos as próximas. 

Há pouco tempo, li sobre uma pesquisa espanhola que reuniu mais de mil participantes para um experimento simples: cada pessoa recebia uma quantia em dinheiro e decidia quanto desejava dividir com um desconhecido. As mulheres compartilharam, em média, 40% a mais.

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O resultado é interessante, embora não permita concluir que todas as mulheres sejam mais generosas ou que generosidade seja uma característica naturalmente feminina. Estudos observam tendências, enquanto a vida em seus múltiplos contextos é sempre menos exata. Ainda assim, essa descoberta me levou a pensar nas muitas formas pelas quais vejo a generosidade circular entre mulheres.

Ela aparece no dinheiro dividido, mas também em gestos que nenhuma pesquisa conseguiria contabilizar por inteiro. Está na amiga que indica nosso nome para uma oportunidade quando não estamos na sala. Na mulher que compartilha algo que levou anos para aprender. Na mensagem enviada no momento certo. Na escuta sem pressa. Na porta aberta para que outra possa entrar. 

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Muitas vezes, esses gestos parecem tão naturais que nem percebemos o imenso valor que possuem. Já reencontrei mulheres que me agradeceram por algo de que eu nem me lembrava, e também já agradeci a outras por atitudes que a memória delas havia apagado. O que parece pequeno para quem oferece pode ter mudado o caminho de quem recebeu — e essa é a mágica da generosidade. 

Quando alguém me pergunta como pode retribuir uma ajuda, costumo responder: “Ajude a próxima.” E te incentivo a fazer o mesmo! 

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Gosto da ideia de que a generosidade possa seguir adiante, como um bastão passado. Eu ajudo você, você ajuda outra pessoa e, em algum lugar que talvez eu nunca conheça, aquilo que começou entre nós continua produzindo efeitos para tantas outras. 

Essa forma de circulação tem até nome, sabia? Reciprocidade generalizada. Em um estudo conduzido por Wayne Baker e Nathaniel Bulkley, pesquisadores da Universidade de Michigan, pessoas que haviam sido ajudadas se mostraram mais propensas a ajudar alguém depois. A ajuda não precisava voltar para quem a ofereceu; ela podia, simplesmente, continuar seu percurso.

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A antropologia compreende, há muito tempo, que generosidade cria vínculos. Marcel Mauss escreveu que essa dádiva se movimenta por três gestos: dar, receber e retribuir. E, por isso, quero te lembrar que uma corrente de generosidade depende tanto de quem oferece quanto de quem aceita receber.

Foi essa última parte que demorei a aprender.

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Comecei muito nova a precisar me virar sozinha. Aos 18 anos, quando tive meu primeiro filho, entrei em uma espécie de modo de sobrevivência e precisei encontrar jeitos de resolver o que fosse necessário. Nesse processo, descobri uma força que ainda não conhecia, aprendi a confiar em mim e construí minha autonomia.

Com o tempo, o famoso “dar conta de tudo” se tornou parte ilusória de quem eu acreditava ser. E, quando a autossuficiência vira hábito, pedir ajuda pode parecer mais difícil do que continuar carregando tudo sozinha.

Levei esse comportamento para o trabalho. Confesso, com vergonha, que, no início da minha trajetória, olhava com certa impaciência para quem pedia ajuda com frequência. Pensava: “Eu estou fazendo todo meu trabalho sozinha, resolva e faça o seu também.” Precisei amadurecer para entender que pedir ajuda também exige inteligência. É preciso reconhecer os próprios limites, saber estrategicamente do que precisamos e confiar o suficiente para permitir que alguém se aproxime.

Aprendi isso por meio de uma experiência que me marcou.

Uma amiga querida atravessou um momento muito difícil na mesma época em que eu também enfrentava meus próprios desafios. Ela não me contou nada. Algum tempo depois, quando a situação já havia se resolvido, explicou que não queria me incomodar. Fiquei arrasada. Eu teria ajudado com o maior prazer e, inclusive, poderia ter ajudado muito! 

Então, pensei em quantas pessoas poderiam ter sentido o mesmo quando fui eu quem se calou e resolveu tudo sozinha. Quantas amigas teriam desejado caminhar comigo se eu tivesse contado o que estava vivendo? Ao tentar poupá-las das minhas angústias, talvez, eu também tenha retirado delas a possibilidade da dádiva da generosidade e sua corrente.

Nós nos sentimos tão bem quando conseguimos ajudar alguém. Por que, então, temos tanta dificuldade em permitir que outra pessoa experimente essa mesma alegria conosco?

Descobri que existe uma generosidade silenciosa em saber receber. Em permitir que alguém ofereça uma ideia, uma orientação, uma presença ou simplesmente um ombro por perto. Receber também é reconhecer o valor do que o outro tem para dar.

Aos poucos, tenho aprendido a pedir ajuda com mais leveza. Tenho aprendido também a me olhar com a mesma atenção que ofereço às outras pessoas. Ainda valorizo profundamente a autonomia que construí. Hoje, porém, sei que ela pode conviver com confiança, vulnerabilidade e troca.

Espalhamos generosidade por onde passamos. Compartilhamos oportunidades, conhecimentos, afetos e caminhos. Mas toda corrente precisa de abertura dos dois lados: algumas para oferecer, outras para receber. E todas dispostas a fazer esse ciclo seguir adiante.

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