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Diário De Uma Quarentener Juliana Borges é escritora, pisciana, antipunitivista, fã de Beyoncé, Miles Davis, Nina Simone e Rolling Stones. Quer ser antropóloga um dia. É autora do livro “Encarceramento em massa”, da Coleção Feminismos Plurais.

Quem cuida de quem cuida?

Um aplauso por semana é muito pouco. A gente deveria aplaudir as profissionais de saúde quando entram no transporte público ou passam por nós no mercado

Por Juliana Borges - Atualizado em 19 abr 2020, 20h31 - Publicado em 19 abr 2020, 20h29

O diário de hoje é um pouco egoísta de minha parte, mas não sei bem até que ponto, já que muita gente pode se identificar com o escrito de hoje.

Eu tenho duas tias que são trabalhadoras da saúde e, desde o primeiro dia que tudo isso começou, penso nelas e envio axé todos os dias. Só que o mais irônico disso tudo é que, mesmo estando na linha de frente do combate à Covid-19, elas ainda seguem tias. O que quero dizer com isso? Quero dizer que elas seguiram cuidando. Ambas ligam ou enviam mensagens sempre. Mas mais do que isso, elas enviam chocolates, comidinhas, frutas, verduras, perguntam se as contas estão pagas e enviam reforço financeiro. Daí que eu fico pensando: ambas são enfermeiras, trabalham na linha de frente, seja chefiando outros enfermeiros em hospital, seja no serviço de atendimento emergencial, o SAMU. A cabeça delas deve estar a mil e trabalhando na função “não pense, faça”, o coração deve estar apertado com o que estão sentindo e vendo. Mas elas ainda encontram um espacinho para me enviar mensagens constantemente.

Já pensaram nos milhões de profissionais de saúde que estão nessa frequência todos os dias? Afinal, quem cuida de quem cuida? O cuidado é parte de nós. Alguém cuidou de nós, depois a gente cuida de nós mesmos e também cuidamos de outros. Cuidar envolve esforço físico e mental. O cuidado, mesmo que por pessoas que não necessariamente conhecemos, desenvolve algum afeto e, em alguns casos, pode fazer com que coloquemos o outro à nossa frente, o que pode comprometer o nosso próprio bem-estar.

A discussão dos cuidados de quem cuida não é nova e eu não pretendo fazê-la aqui com profundidade. Esse é um diário, ou seja, coisas que vou vivenciando e pensando todos os dias e que divido com vocês. Então, a gente estabelece mais uma troca de perguntas e sentimentos do que qualquer outra coisa, certo? No entanto, acho importante a gente pensar nesse cuidado em tempos de pandemia. Olha só, a gente já está recebendo notícias de que nossos hospitais estão trabalhando em seu limite. Segundo estudo que saiu hoje, de projeção de pesquisadores universitários sobre as notificações, a gente já pode ter tido, em um cenário pessimista, quase 15 mil mortes por coronavírus. Mas vamos trabalhar com o cenário otimista do estudo: mais de 3 mil pessoas. Mesmo assim, o número seria maior do que os divulgados pelo Ministério da Saúde. Assim, imagine que a demanda por esses profissionais deve estar 30% maior do que estamos pensando com os números oficiais.

A gente já tinha um sistema público de saúde trabalhando em condições bem difíceis. Mas essa pandemia pode estar deixando alguns fatos explícitos para nós: o primeiro é que, se não fosse o Sistema Único de Saúde (SUS(, a situação no país poderia estar muito pior; e o segundo é que precisamos fortalecer esse poderoso sistema de garantia de direitos quando tudo isso passar. Estudos também já estão indicando que, a despeito de ainda termos maior número de contaminados pela Covid-19 em bairros de classe média e elite, as periferias têm as maiores taxas de letalidade. A imensa maioria de brasileiros dependem única e exclusivamente do SUS – eu sou uma dessas brasileiras. Então imaginem como seria isso sem o SUS. Os trabalhadores do sistema já trabalhavam em condições de grande pressão e estresse.

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Antes da pandemia, o entendimento sobre o cuidado era de que se devia cuidador desses cuidadores como uma tarefa preventiva. Mas como fazer isso em tempos de pandemia? Uma de minhas tias parou de ir e voltar do trabalho de transporte público pelos olhares e por comentários que ouviu de outros passageiros, de que ela poderia infectá-los. É esse o cuidado que a gente dá para quem está cuidando de todos nós enquanto sociedade? Essas pessoas estão trabalhando em seus limites, com imensas pressões, enfrentando o cansaço, a raiva diante de um vírus tão veloz e tão pouco conhecido, a sensação de desamparo pelas condições de trabalho, superando suas dores físicas por nós. E o que nós fazemos?

A maior parte do contingente de trabalhadores da saúde é formado por mulheres. Na área da enfermagem, são cerca de 85%. Pense nas que são mães, esposas, filhas, tias, sobrinhas, irmãs. Nas que garantem o sustento de seus familiares com seu trabalho. Nas que chegam em casa após um dia exaustivo e ainda vão garantir o jantar – ou o café, se trabalham de madrugada – de sua família. Nas que precisam planejar seu dia de trabalho e também a rotina de sua família. Em como elas tem que pensar minuciosamente em cada passo para que não se contaminem, nem contaminem os que elas amam e os que elas cuidam. Já pensou? Essas pessoas estão nas suas orações, se você é pessoa de fé, ou nos seus pensamentos e gratidão?

Um aplauso por semana é muito pouco. A gente deveria aplaudi-las quando entram no transporte público, quando passam por nós no mercado – aliás, como as empresas brasileiras estão ajudando os profissionais de saúde? E se alguma rede de supermercados garantisse uma quantidade de compras mensal para eles? E se agradecêssemos, mesmo que de longe, assentindo a cabeça brevemente, em cada ocasião que encontrarmos uma trabalhadora da saúde? E se demandássemos que medidas sejam tomadas para que elas possam exercer seu trabalho com toda a excelência que desejam – e já executam apesar dos pesares – e têm o direito? E se não só perguntássemos como está a situação nos hospitais, mas como eles e elas estão, como estão se sentindo e se precisam de algo? Nós, que somos familiares de alguma dessas e desses trabalhadores, estamos falando com eles o suficiente? Apenas um “oi, só queria saber como você está” ou um “te desejo muita força e axé” ou apenas um “queria dizer que gosto de você” já faz uma diferença enorme. Esses profissionais precisam da nossa força mais do que nunca neste momento, precisam ser vistas e vistos, além reconhecidos.

Nossos heróis estão longe de serem pessoas com poderes sobrenaturais ou extraterrestres. Nossas heroínas e nossos heróis são de carne e osso, cheios de tantos sonhos como nós. E a gente não pode se esquecer disso em nenhum momento. Fiquemos em casa por nós e por eles e elas. Vai passar, mas não sem que eles e elas estejam conosco.

Por isso, o diário de hoje é dedicado às minhas tias como forma de publicizar todo o meu amor, carinho e respeito que tenho por elas. É uma forma de emanar força e afeto para elas e para todos e todas as profissionais de saúde que estão em combate. Obrigada.

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Acompanhe o “Diário De Uma Quarentener”:

01/04 – A rotina do isolamento de Juliana Borges no “Diário De Uma Quarentener”

02/04 – O manual de sobrevivência de uma quarentener

03/04 – Permita-se viver “o nada” na quarentena sem culpa

06/04 – O que a gente come tem algo a ver com as pandemias?

07/04 – As periferias e as mobilizações na pandemia

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08/04 – Um exemplo de despreparo em uma pandemia

09/04 – Como perder a noção do tempo sem esquecer a gravidade dos tempos

10/04 – Não é hora de afrouxarmos o distanciamento. Se você pode, fique em casa!

11/04 – 3 filmes para refletir sobre a pandemia da Covid-19

12/04 – Nesta Páscoa, carrego muitas saudades. Hoje, minha mãe completaria 54 anos

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13/04 – Obrigada, Moraes Moreira!

14/04- E aí, quais são as lives da semana?

15/04 – Como praticar autocuidado radical?

16/04 – #TBT da saudade do mar 

17/04 – Precisamos falar sobre a pandemia e violência contra as mulheres

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18/04 – Mulheres na política fazem a diferença também no combate à pandemia

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