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A cultura do cinismo

Em um mundo machista e preconceituoso como o nosso, o assédio sexual é comum no ambiente corporativo disfarçado em sutilezas

Por Renata Baglioli Atualizado em 6 dez 2020, 20h25 - Publicado em 25 nov 2020, 23h26

As pessoas são movidas por emoções, necessidade e curiosidade, sempre com objetivos  e metas, conscientes ou não, buscando a melhor forma de garantir a sobrevivência. No ambiente  de trabalho, há um mundo mais cruel, ditado por códigos e costumes, onde muitas vezes a meritocracia não está positivada e a cultura da supremacia hierárquica está enraizada na  estrutura corporativa. 

Neste abalável mundo, a desigualdade de gênero é ainda mais visível a olho nu, desbordando para as diferenças salariais, tratamento desigual, enfim, as tantas mazelas advindas do preconceito. 

O poder seduz, o poder cega e, nesta dinâmica, há situações vexatórias cotidianas de assédio sexual que são varridas para baixo do tapete da hipócrita sociedade em que vivemos. Não raras vezes as pessoas se valem de seu poder, posição hierárquica e status para obter vantagens financeiras, sociais e, infelizmente, de conotação sexual.  

O problema reside na sutileza das atitudes que, em um mundo machista e preconceituoso como o nosso, podem passar despercebidas no ambiente corporativo e  também na sociedade. Infelizmente, parecem não chocar histórias contadas sem qualquer  vergonha ou compaixão de abusos tolerados no ambiente de trabalho, que vão desde piadas vulgares e preconceituosas até atos não consentidos de violência física ou psicológica, que  podem deixar marcas profundas na psique das vítimas. 

O dilema, muitas vezes, não está apenas na coragem de noticiar o fato, seja a pares, superiores, ou em canais de ética. Está também na aceitação da conduta por parte da vítima, no  temor reverencial da consequência ou mesmo do autojulgamento e julgamento alheio. Atos de violência ou abuso podem não ser tão facilmente categorizados nos ambientes de trabalho, em  que algumas barreiras são culturalmente ou, ao longo da convivência, ultrapassadas com  alguma naturalidade. 

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Ainda assim, não se pode cogitar a consensualidade ou coparticipação, pois a  perspectiva analítica não se limita a um cenário de encontro de dois personagens quaisquer,  mas está contextualizada em um ambiente corporativo em que a hierarquia e jogos de poder normalmente não se perpetuariam em ambientes neutros. 

O erro, a meu ver, está em se admitir como normais estes comportamentos erráticos e  lastreados no abuso de uma posição dominante, seja ela personificada em qualquer gênero de indivíduo. A mudança buscada deve se iniciar no olhar mais profundo da sociedade, na autoanálise de nossos comportamentos e na exaltação de princípios e valores humanos, desprovidos de leituras machistas, feministas ou apoiadas em outras bandeiras que envolvem rótulos. É um movimento lapidar de repensar e ressignificar os propósitos e conceitos, de não tolerar agressões de qualquer ordem, em prol de uma mudança geracional e evolutiva, no ambiente de trabalho e também na sociedade.

 

A leitora Renata Barrozo Baglioli é curitibana, advogada atuante e aspirante a jornalista, atenta a novos olhares sobre as coisas.

@outroolhar_sobreascoisas

 

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