“Desejo Dopado”: quando o antidepressivo mexe com a vida sexual
Quando se fala em saúde mental, por que a medicina ainda tolera impactos tão acentuados sobre o desejo feminino?
Em 2019, houve uma manhã em que Janaína Silveira não conseguiu sair da cama. Nem no dia seguinte, nem no outro. Foram três dias quase sem comer, sem trabalhar, sem forças.
Ela tinha por volta de 23 anos, dois empregos e uma rotina que ninguém aguentaria por muito tempo: seguidos plantões de fim de semana, sem nenhum apoio, e uma ferida que ainda não tinha tratado, um estupro que um ex-namorado havia cometido contra ela anos antes, e que ela só entenderia como violência bem depois.
Foi a irmã quem foi atrás de ajuda. Dali saíram as duas coisas que a seguraram em pé: a terapia e o antidepressivo.
O remédio funcionou. Hoje, aos 30, a psicóloga está estável. Mas em algum momento, quando a vida voltou a ter espaço para sair e namorar, ela reparou que uma parte dela não tinha voltado.
A vontade. Depois do fim de um namoro de um ano, passou os doze meses seguintes sem transar com ninguém. Não por falta de com quem, mas por falta de desejo.
“Eu gostava muito dele e da relação, e mesmo assim a libido sempre esteve baixa”, diz. “E olha que não me vejo assexual de jeito nenhum.”
Muita mulher reconhece essa história, e quase nenhuma conta. A melhora da mente veio com uma conta silenciosa, cobrada na cama — o desejo que some, o orgasmo que não vem, o corpo que parece ter desligado uma chave. Quase sempre sem aviso prévio.
O uso de antidepressivos cresceu 12,4% entre adultos de 29 a 58 anos no Brasil em apenas um ano, segundo levantamento da Funcional Health Tech com base em 2,5 milhões de beneficiários. São elas as que mais tomam: uma revisão sistemática de estudos nacionais estima que as mulheres têm mais de quatro vezes a probabilidade de usar antidepressivos em relação aos homens.
É uma legião de brasileiras convivendo, agora, com remédios cujos efeitos colaterais mais comuns, e menos comentados, mexem justamente com o desejo, a excitação e o orgasmo.
Adormecimento
“A alteração de libido é uma queixa frequente em quadros de depressão, ansiedade, burnout. Às vezes é ela, inclusive, que leva a pessoa a procurar tratamento”, diz Larissa Galas, psiquiatra do Hospital Samaritano Higienópolis, em São Paulo.
O problema é que o próprio remédio também pode provocar o sintoma, sobretudo os antidepressivos que agem sobre a serotonina. “Isso tem que ser levado a sério. A adesão ao tratamento fica prejudicada, e é uma perda importante de qualidade de vida.”
Às vezes o efeito é passageiro e some quando o corpo se ajusta à medicação. O drama é quando não some e a mulher leva meses, ou anos, sem desconfiar que aquilo tem a ver com o comprimido de todo dia.
Isabelle Nogueira, 22 anos, estudante de arquitetura, toma antidepressivos desde a adolescência, com idas e vindas. Numa das pausas, perto dos 19, notou uma coisa que só faria sentido tempo depois: longe do remédio, o desejo voltava com força. “Quando eu estava sem, percebia que queria muito. Foi aí que a ficha caiu.”
Anos mais tarde, de volta ao tratamento por causa da ansiedade, veio o oposto. No começo do namoro, tudo funcionava. Aí a dose subiu, de dez para vinte e poucos miligramas, e o chão sumiu junto.
“Eu virei uma pedra. Não estava nem triste nem feliz, não sentia nada. Não tinha libido, mas também não tinha tristeza. Simplesmente não queria nada.”
O casal passou três meses sem sexo. E, como quase toda mulher nessa situação, ela virou a acusação contra si mesma. “Eu ficava nervosa comigo. Pensava: ‘não consigo transar por causa desse remédio’. E me culpava.”
Efeitos múltiplos
Parte do silêncio nasce de uma confusão. Mulheres diferentes chamam de “perda de libido” experiências que não são a mesma e as variações mudam tudo na hora de tratar.
“Umas dizem ‘não tenho mais vontade, o sexo deixou de me interessar’. É uma alteração no desejo”, explica Patrícia Carneiro, ginecologista e sexóloga da clínica AMO, da Rede Américas, em Salvador.
“Outras dizem: ‘eu continuo querendo, sinto desejo, fico excitada, mas não chego ao orgasmo, ele ficou mais fraco’. Aí o desejo está preservado, mas a resposta mudou.” Há ainda um terceiro relato, mais raro e mais assustador: a perda de sensibilidade na região genital, que algumas descrevem como uma espécie de anestesia.
Se o efeito é tão comum, por que quase não se fala nele? Porque a mulher costuma achar que o problema é ela. “O silêncio se sustenta na culpa”, diz Patrícia. “Muitas leem a mudança como falha pessoal: ‘eu esfriei’, ‘tem algo errado comigo’, ‘não amo mais meu parceiro’.”
Junte a isso a vergonha de falar de sexo até com o médico e o resultado é uma mulher que, nas palavras dela, “passa anos tentando consertar em si mesma o que precisava, antes, ser investigado como efeito colateral”. Mas mesmo quando há o diálogo, há entraves.
“Na medicina, o relato das mulheres tende a ser subestimado. Uma paciente com endometriose às vezes demora anos para ter diagnóstico, com sintoma claro. Toda queixa precisa ser levada a sério”, diz Larissa.
E se não voltar?
Marina*, 31 anos, tinha uma certeza quando decidiu parar o antidepressivo: a vida sexual voltaria ao normal.
Havia um tempo em que ela não conseguia mais chegar ao orgasmo, tinha lido que o remédio podia causar isso, e a conta parecia óbvia. Não largou por conta própria, conversou com o médico e fez a retirada aos poucos.
“Eu estava muito esperançosa. Pensava: ‘pronto, agora meu cérebro vai voltar ao normal’.” Esperou algumas semanas. Depois alguns meses. Nada mudou. “Eu continuava sentindo desejo, continuava gostando de estar com alguém, mas o orgasmo simplesmente não acontecia.”
O que Marina viveu tem uma sigla: PSSD, do inglês para disfunção sexual persistente após o uso de inibidores de recaptação de serotonina, quando os sintomas continuam mesmo depois que a pessoa para o remédio.
Não é teoria de internet. Em 2019, a Agência Europeia de Medicamentos (EMA) reconheceu que a disfunção sexual pode persistir após a interrupção de antidepressivos serotoninérgicos e mandou incluir esse alerta nas bulas.
Canadá (2021) e Austrália (2024) seguiram o mesmo caminho, e o Royal College of Psychiatrists, no Reino Unido, também reconhece a condição.
Ainda assim, a PSSD não tem código próprio nas principais classificações de doenças, não tem exame que a confirme nem tratamento aprovado e muitos médicos nunca ouviram falar dela.
“É possível, sim”, diz Larissa. “O antidepressivo age no sistema nervoso central, e há receptores de serotonina, dopamina e noradrenalina no corpo inteiro. Então o efeito pode persistir. Não é a maioria dos pacientes, mas há uma parcela e é algo que precisa ser identificado e informado.”
Para Marina, descobrir que o problema não ia embora com o último comprimido foi um susto. “Eu entrei em pânico. Pensei: ‘e se eu ficar assim para sempre?’. Foi o pensamento mais assustador.” Foi também quando ela procurou ajuda e entendeu que a história era mais complicada do que “parei o remédio, amanhã tudo volta”.
“Tem o psicológico, o físico, o hormonal, o relacionamento, a ansiedade. E o próprio histórico do uso do medicamento.” Ela não trata a sigla como um diagnóstico fechado. Mas o que descreve, o desejo intacto, o orgasmo que sumiu e não voltou, é exatamente a experiência que o nome tenta traduzir.
Patrícia confirma que o assunto saiu da penumbra. “Já está descrito na literatura, já apareceu em alertas regulatórios. Mas ainda há muita lacuna sobre a frequência e os mecanismos.”
Uma publicação recente na área de medicina sexual, diz ela, recomendou justamente que a função sexual seja avaliada antes e durante o tratamento, não só depois que a paciente reclama.
O que torna tudo mais difícil de prever é que o mesmo tipo de remédio produz histórias opostas. Para Isabelle, parar a medicação trouxe o desejo de volta quase na hora; para Marina, não trouxe nada.
A não-escolha
Diante disso, muita mulher faz sozinha, e calada, uma conta cruel: aguentar o efeito ou largar o tratamento para “voltar a sentir”.
Além, é claro, da dúvida cruel: conviver com a depressão ou correr o risco de perder o desejo de vez. As duas especialistas rejeitam a escolha e avisam que abandonar o remédio por conta própria é perigoso.
“O primeiro passo é não aceitar que a mulher precisa escolher entre a saúde mental e a sexualidade. Dá para cuidar das duas ao mesmo tempo”, diz Patrícia.
Há caminhos concretos: reconectar-se com o corpo sem transformar o orgasmo em obrigação, autoconhecimento, conversa com o parceiro, atividade física, terapia sexual quando indicada. E há o que fazer com o próprio remédio, ajustar a dose, trocar por uma medicação de menor impacto sexual, combinar tratamentos.
“Mas isso é individual e nunca pode ser feito sem acompanhamento profissional.” O que ela chama de cilada é a promessa de cura fácil. “Prometer que um suplemento ou uma técnica vai curar a disfunção, ainda mais depois dessas medicações, é um mito. Não existe tratamento comprovadamente definitivo.”
Larissa insiste que o efeito colateral é motivo para agir, não para engolir. “Eu troco de medicação, mesmo quando o paciente está com boa resposta de humor, se o efeito colateral é relevante. Não existe só um antidepressivo no mundo.”
E, se a paciente não é ouvida, o conselho é seco: procure outro profissional. “Se o médico não escuta, você tem todo o direito de buscar outra opinião. A saída não é engolir o efeito. Mas também não é largar o remédio sozinha — a retirada abrupta pode ser grave.”
Para as duas, o problema começa antes do consultório, na formação do médico. “Existe uma questão cultural de se falar pouco de saúde sexual. E, muitas vezes, é o silêncio do próprio médico que atrapalha a conversa”, diz Larissa.
Patrícia resume o pano de fundo: enquanto a sexualidade masculina virou um campo estruturado, com queixa objetiva e até uma pílula azul, a feminina seguiu pouco estudada. “Complexidade não pode virar sinônimo de invisibilidade.”
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