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Fingir orgasmo faz mal para a relação? Entenda as consequências

Fingir orgasmo pode minar a intimidade do casal. Saiba como abordar o tema e resgatar a verdade sobre seu prazer

Por Ana Carolina Palermo 19 ago 2026, 15h04
Casal deitados na cama, ambos com camisetas brancas. A mulher está deitada de lado, com os olhos fechados, e o homem a observa com expressão séria
A falta de transparência sobre a satisfação sexual pode desgastar uma relação (Vitaly Gariev/Unsplash)
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Fingir um orgasmo pode parecer, em um primeiro momento, a saída mais simples. Seja para evitar uma conversa desconfortável, encerrar uma relação sexual que já não está prazerosa ou esconder a dificuldade de chegar ao clímax, a atitude pode surgir como uma solução imediata.

Quando isso se torna frequente, porém, o que parecia uma saída fácil pode começar a comprometer a intimidade do casal. “Mesmo em relações estáveis ou de longa duração, intimidade e tempo de relacionamento não significam necessariamente liberdade para falar sobre sexo”, explica Sabrina Munno, sexóloga da Doctoralia.

Segundo a especialista, o hábito também pode criar uma percepção equivocada sobre o que proporciona prazer ao outro. “A principal consequência é que se cria uma comunicação sexual baseada em uma informação que não é verdadeira. O parceiro acredita que determinados estímulos estão proporcionando prazer e continua repetindo aquilo”, explica.

Com o passar do tempo, isso pode aumentar a distância entre o que acontece durante o sexo e os estímulos que realmente proporcionam prazer, fazendo com que a vida sexual do casal entre em um ciclo cada vez mais difícil de romper.

Quando fingir orgasmo vira um hábito

Mulher deitada na cama, com expressão triste, olhando para frente, enquanto um homem de costas para ela usa o celular ao fundo
Esse ciclo pode levar a diminuição da satisfação sexual, trazendo ansiedade e frustração (Reprodução/Freepik)
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Um episódio isolado não significa necessariamente que exista um problema grave na relação. Para Patrícia Carneiro, ginecologista e sexóloga da clínica AMO, em Salvador, o sinal de alerta aparece quando fingir se torna a principal saída para evitar conversas abertas sobre sexo.

“Se ela pensa ‘se eu disser que não gostei, ele vai ficar magoado’, ‘não posso dizer que não quero’ ou ‘é melhor fingir para isso acabar logo’, precisamos olhar para a qualidade da comunicação e, principalmente, para a segurança emocional e sexual que existe nessa relação”, afirma.

Em vez de se concentrar apenas na pergunta “por que estou fingindo?”, Patrícia propõe outra reflexão: por que existe a sensação de que não é possível ser sincera sobre o próprio prazer?

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“Às vezes, o problema não está no orgasmo que foi fingido, mas na falta de segurança para dizer a verdade sobre o próprio prazer”, explica. Para Sabrina, quando esse comportamento se repete, pode diminuir a satisfação sexual, transformar o sexo em uma experiência automática e até gerar ansiedade de desempenho.

Fingir pode “ensinar” ao outro aquilo que não funciona

Mulher de camiseta azul sentada na cama, pensativa, com um celular na mão e um travesseiro estampado no colo, enquanto um homem dorme ao fundo
A falta de transparência com o parceiro acaba reafirmando a insatisfação (Reprodução/Freepik)
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Durante uma relação sexual, as reações do corpo também funcionam como uma forma de comunicação. Quando a mulher demonstra que determinado estímulo levou ao orgasmo, a tendência é que o parceiro ou parceira interprete essa resposta como um sinal de que está no caminho certo.

“Ele acredita que determinados estímulos estão proporcionando prazer e, naturalmente, continua repetindo aquilo”, diz Sabrina. Quando essa resposta é fingida, porém, a dinâmica pode acabar sendo reforçada justamente na direção oposta àquela que realmente proporciona prazer.

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Segundo a especialista, ao fingir repetidamente, cria-se uma percepção equivocada sobre o próprio prazer: a outra pessoa passa a entender que determinado toque, ritmo ou prática está funcionando quando, na realidade, não está. Com o tempo, quem finge pode se sentir preso a uma dinâmica que não funciona, mas que se torna cada vez mais difícil de questionar ou modificar.

É preciso contar que estava fingindo?

Mulher loira de pijama azul sentada na cama com as mãos na cabeça, parecendo angustiada, enquanto um homem de pijama azul, desfocado, está deitado na cama ao fundo, de costas para ela, com os braços cruzados
Existem outras maneiras de expressar a insatisfação, sem que cause desconforto na relação (Reprodução/Freepik)

“Honestidade sexual não significa necessariamente contar tudo de maneira abrupta; significa deixar de sustentar uma dinâmica que não corresponde ao que se sente”, diz Sabrina.

Em alguns casos, pode ser mais confortável começar a conversa pelo que se deseja experimentar dali em diante, em vez de focar no que não estava funcionando até então. Frases como “tenho percebido que preciso de outro tipo de estímulo”, “quero te mostrar como gosto de ser tocada” ou “acho que podemos experimentar algumas coisas diferentes” ajudam a tirar o peso do erro e levar a conversa para um lugar de descoberta.

Patrícia segue uma linha semelhante: “Ela não precisa começar confessando o que fingiu, pode começar dizendo o que deseja construir de diferente daqui para frente.”

A especialista também ressalta que fingir um orgasmo não significa necessariamente falta de amor ou de desejo pelo outro. “Muitas mulheres fazem isso para não decepcionar, evitar constrangimento ou porque nunca aprenderam realmente a comunicar o próprio prazer”, explica.

O primeiro passo também pode acontecer sozinha

Pernas de uma pessoa com calcinha bege, segurando uma toranja cortada ao meio sobre a virilha, com os dedos da mão direita entre as metades da fruta, unhas pintadas de coral
Conhecer o próprio corpo pode ser o primeiro passo para a satisfação sexual (Reprodução/Freepik)

Para conseguir comunicar os próprios desejos, primeiro é preciso identificá-los. Uma mulher que passou anos adaptando sua resposta sexual às expectativas ou ao prazer dos parceiros pode, inclusive, ter dificuldade para reconhecer exatamente quais são suas preferências.

Nesse caso, Sabrina sugere começar pelo autoconhecimento: “Antes de explicar ao parceiro o que lhe dá prazer, ela precisa conhecer melhor as próprias respostas: quais tipos de toque prefere, ritmo, pressão, regiões do corpo, fantasias, estímulos e aquilo que não gosta.”

A masturbação e a exploração do próprio corpo podem ser aliadas nesse processo, ajudando a reconhecer sensações, estímulos e preferências sem a pressão de corresponder às expectativas de outra pessoa.

Patrícia também reforça um ponto importante: não existe obrigação de apresentar determinada resposta sexual apenas para satisfazer as expectativas do outro.

Como revelar insatisfação sem criticar

Casal jovem, um homem e uma mulher, deitados na cama sob um edredom cinza, sorrindo e se abraçando. A mulher tem cabelos loiros curtos e o homem barba e cabelo preso. Ao fundo, uma janela de madeira e uma luminária de chão preta e de madeira. À direita, uma mesa de cabeceira branca com um pequeno cacto.
O momento escolhido pode fazer diferença na conversa (Toa Heftiba/Unsplash)

Em geral, falar sobre o assunto durante o sexo ou imediatamente depois pode aumentar as chances de que a outra pessoa interprete a conversa como uma avaliação de seu desempenho. Por isso, Sabrina recomenda escolher um momento tranquilo, fora da relação sexual e sem pressa: “A conversa deve olhar menos para ‘o que você fez errado’ e mais para ‘o que podemos descobrir daqui para frente’.”

Depois desse primeiro diálogo, Patrícia recomenda incorporar a comunicação à própria relação sexual. Em vez de concentrar todas as questões em uma grande conversa posterior, o casal pode aprender a fazer pequenos ajustes ao longo da experiência. Perguntas como “isso está gostoso?”, “você gosta assim?”, “quer que eu continue?” ou “o que você gostaria que eu fizesse diferente?” ajudam a criar espaço para que desejos e limites sejam comunicados com mais naturalidade.

“O objetivo não deve ser performar um orgasmo, o objetivo é construir uma experiência sexual em que os dois possam estar presentes, falar a verdade e sentir prazer nessa conexão, com ou sem orgasmo”, afirma.

E se a dificuldade para chegar ao orgasmo continuar?

Mulher de cabelos longos e camisa branca sentada na cama, olhando para baixo com expressão triste, enquanto um homem dorme ao fundo
Para além do relacionamento, existem fatores externos que podem interferir na satisfação sexual (Vitaly Gariev/Unsplash)

Nem toda dificuldade para atingir o orgasmo está relacionada à comunicação do casal. Quando ela é persistente, causa sofrimento ou representa uma mudança significativa em relação à vida sexual anterior, vale investigar outras possíveis causas.

Alterações hormonais e fases como pós-parto, perimenopausa e menopausa também podem influenciar a resposta sexual. Alguns medicamentos, entre eles determinados antidepressivos, podem interferir no desejo e na capacidade de chegar ao orgasmo.

Ansiedade, estresse, depressão, questões relacionadas à autoestima e experiências sexuais negativas também podem estar por trás dessa dificuldade. “Nessas situações, não deve ser apenas ‘por que ela não consegue gozar?’, mas ‘o que mudou na vida, no corpo e na sexualidade dessa mulher para que ela esteja assim?’”, diz Patrícia.

Nesses casos, a avaliação de um ginecologista, sexólogo ou terapeuta sexual pode ajudar a identificar os fatores envolvidos e encontrar caminhos para melhorar a relação com o próprio prazer.

Quando a prioridade não é conversar, mas se proteger

Uma mulher com blusa floral e um homem com cabelo raspado nas laterais e brinco de argola se aproximam, ele parece sussurrar algo em seu ouvido, enquanto ela olha para o lado com expressão surpresa. O fundo é cinza e vermelho
O sentimento que dificulta a transparência na relação não pode ser o medo (Dmitry Vechorko/Unsplash)

Existe uma diferença importante entre ter dificuldade para falar sobre sexo e sentir medo de dizer a verdade. “Uma relação sexual saudável precisa permitir que a mulher possa dizer sim, não, mais, menos, ‘assim eu gosto’, sem medo de punição, rejeição ou julgamento”, afirma Patrícia.

Quando existe medo de agressão, coerção, humilhação ou retaliação, porém, a situação exige outro olhar. “A prioridade não é conversa, é a segurança”, alerta a especialista.

Por outro lado, quando há espaço e segurança para o diálogo, admitir que o sexo não está satisfatório não precisa representar o fim da intimidade ou da própria relação. A revelação pode provocar desconforto ou até uma crise inicial, mas também abrir caminho para algo que talvez estivesse faltando até então.

Como resume Patrícia, pode ser o início da “primeira conversa verdadeiramente honesta sobre prazer dentro daquela relação”.

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