A busca de equilíbrio entre o profissional e o pessoal

O dilema é quase uma obsessão: o dinheiro está difícil de ganhar, mas não podemos mais deixar o lado bom da vida para amanhã

Muitas mulheres se sentem angustiadas ao perceber que ganham muito dinheiro, mas não têm tempo nem para gastá-lo
 

Natalia Pascoali Boeira é famosa no parque industrial da Região Sul do país. Não por ter chegado à presidência da Hybel aos 27 anos ou por se impor diante dos concorrentes do núcleo duro dos fabricantes de bombas e motores hidráulicos, mas pela implantação de processos que reduziram o tempo de produção, aumentaram a eficiência e os negócios internacionais da empresa. Na matriz, na cidade catarinense de Criciúma, ela comanda outras 13 unidades, incluindo uma linha de montagem na americana Chicago. “Chego às 7 da manhã, fico em cima de tudo e não saio antes das 10 da noite. Vou completar 30 anos. O que tenho feito de mim?”, refletiu Natalia, em silêncio, na plateia do Fórum Nossa Felicidade, que, encabeçado por CLAUDIA e HSBC, discutiu no mês passado, em São Paulo, o valor do dinheiro, do trabalho e da vida pessoal para as mulheres. A CEO ouvia atentamente a paulista Eneida Bini, 51 anos, ex-presidente da Avon e da Herbalife, contar no palco que, no auge de uma brilhante carreira de três décadas, decidiu parar tudo e seguir para a Austrália, onde tinha ido morar o filho, César, então com 21 anos. Queria conviver com ele, respirar o lado bom da vida, usar jeans e camiseta, andar de ônibus, se misturar a jovens numa sala de MBA. Havia concluído que para se sentir feliz é preciso “ser dona de si”, o que significa “não deixar que o dinheiro e o emprego comandem”. Natalia levantou a mão e perguntou para a palestrante: “Será possível mesmo ser dona de si? Valeu a pena passar tanto tempo no mundo corporativo?” A resposta: “Enquanto vamos subindo, deixamos de lado os amigos, abrimos mão dos prazeres. Ganhei muito dinheiro, e pensei: `Quando vou poder gastar isso com o que realmente gosto?’ Só àquela altura, entendia que deveria ter delegado mais, dividido melhor as responsabilidades, se aproximado da equipe. “Sobraria tempo para trocar as fraldas do meu filho”, afirmou. A primeira infância de César transcorreu entre o berçário da Avon e os braços de uma babá. Quando a mãe se deu conta, o garoto completava 17 anos decidido a sair do Brasil. No relato, ela ainda disse a Natalia e à plateia que não se deve esperar tanto para fazer essa análise. “O modelo das empresas é estressante, desgastante, ultrapassado e precisa ver as pessoas de outro jeito”, argumentou Eneida, que hoje é consultora. “O autoconhecimento, os relacionamentos, as trocas afetivas são primordiais. Trabalhando 12, 14 horas não há espaço para isso.”

Natalia voltou pensativa para Criciúma. “Vale a pena?” A catarinense aprendeu com os pais a não depender de homem algum. Aos 15 anos, trocou o interior por um curso técnico de mecânica em Florianópolis. Fez administração de empresas, mestrado, virou líder, ascendeu. “Me disseram que felicidade era ser independente. Eu sou e gosto. Mas felicidade não é isso.” Ela namorou três vezes. “O homem acha estranho a parceira ter mais grana e reconhecimento”, disse. “Uma mulher até consegue se realizar sozinha, mas eu não quero.”

COMPRA DE AFETO

Não há dúvidas sobre a grande importância do trabalho. Foi ele que nos projetou para o espaço público. A maioridade feminina, iniciada com o direito ao voto, 81 anos atrás, só se consolidou com a programação da gestação e, sobretudo, a entrada no mercado na década de 1970. A mulher não se vê mais sem uma atividade profissional. Mas algo lhe dói. Numa espécie de prisão que criou para si, ela devota ao trabalho seus melhores anos, sua inteligência, a mais perfeita aparência, a mais genuína energia. Tornou-se tão voraz o mundo corporativo – e tão competitivo o setor do negócio próprio – que, se ela entregar apenas uma parcela, não permanecerá na atividade.

A mulher gosta muito de ganhar dinheiro e dos frutos que vêm da moeda. O economista e escritor Eduardo Giannetti, que também participou do fórum, afirma que o dinheiro ajuda a buscar espaço na mente e no coração dos que nos cercam. “O desejo do ser humano é conquistar a atenção, o respeito e a afeição do outro.” O problema, aponta Giannetti, é que, à medida que a sociedade e as famílias prosperam, o dinheiro perde a dimensão das necessidades básicas e vira um instrumento de valorização pessoal. “Homens e mulheres estão igualmente envolvidos na mesma armadilha, obcecados pelo crescimento da renda, participando da corrida armamentista do consumo”, diz ele. Precisamos trabalhar cada vez mais também porque gastamos com o supérfluo e em excesso.

O APEGO E O HOLÍSTICO

No mais inovador dos cenários, o dinheiro ganha caráter holístico: é indivisível, não exerce função única, carrega possibilidades de transformação, conforto material, psicológico e – por que não? – espiritual. É dessa forma que alguns defensores da economia verde imaginam nossa relação, em breve, com o consumo e o dinheiro. “Se ele apenas paga contas, compra sapatos ou se acumula, fica esvaziado de sentido”, explica Verônica Marques, gerente de comunicação, desenvolvimento e mobilização de recursos do Fundo Elas, no Rio de Janeiro. “Ele abarca outros valores quando vem casado com direitos e provoca mudanças de longa duração.” Essa visão norteia o fundo, que repassará neste ano mais de 1 milhão de reais para mulheres das classes C e D se tornarem autônomas – com parte da verba, elas abrirão seus primeiros negócios. “As mulheres estão trabalhando duro para ficar mais poderosas política e financeiramente, para se defender, decidir e impactar outras pessoas”, diz Verônica. “Tendo uma consciência holística da moeda, toda vez que a mulher aumenta o seu ganho, ela promove os filhos, financia cursos para si, melhora a casa, e isso influencia as amigas, a comunidade.”

No mundo dos negócios imperam as metas, o desafio de dobrá-las em um ano, quadruplicar no seguinte. O elástico se esticando afeta tanto homens como mulheres, segundo Cesar de Carvalho Bullara, diretor da área de gestão de pessoas e professor do ISE Business School, em São Paulo. “Por causa da maternidade, elas acabam sofrendo em doses maiores que eles”, afirma.

BALANÇA CRUEL

Bullara lembra que as pessoas podem e devem ter como objetivo de vida crescer na carreira, galgar postos e ser bem remuneradas. Mas isso não é o mesmo que ter um projeto de vida. “Quando falamos em projeto, consideramos três dimensões: pessoal, familiar e profissional. Na dinâmica estabelecida nas corporações, é difícil manter a equanimidade. Em geral, uma delas sobressai e prejudica as outras.” Em parte, porque as empresas, como ressaltou Eneida, não evoluíram.

O ISE coordenou no Brasil um estudo que mediu o nível de conciliação entre emprego e família, numa parceria com o International Center for Work and Family (ICWF), sediado na Espanha. A mesma pesquisa foi realizada em outras 21 nações – entre elas Canadá, Bélgica, Itália, Portugal, Argentina, Peru, Chile e Filipinas. O resultado, ainda inédito, é apresentado em quatro patamares. A graduação vai de desfavorável (quando o ambiente dificulta a harmonização) a enriquecedor, que permite aos funcionários trabalhar bem, cuidar da família, ter tempo para o lazer e o autoconhecimento. No quadrante mais alto, o enriquecedor, nosso país aparece com 8%, enquanto a média geral é 14%. As práticas invasivas – como ligar para o funcionário nos fins de semana e nas férias e disputar o tempo que ele dedicaria à convivência doméstica e aos assuntos privados – colocaram o Brasil com 55% no quadro desfavorável, ante a média de 42%.

O mal-estar é maior entre as mulheres de 40 anos. “Elas restringiram o projeto de vida em troca de ascensão profissional. Estão percebendo, agora, que sua entrega deixou de fazer sentido, porque a janela de oportunidade para ser mãe não está tão disponível”, afirma Bullara. “Já as de 25 a 30 anos não são 100% a empresa. O tempo pertence a elas. Com perfil mais questionador, não acham que a experiência do chefe conta muito. As corporações terão de aprender a respeitá-las.” Por um motivo simples: “Se continuar complicando a rotina da colaboradora, se a colocar num beco sem saída, levando-a a escolher entre promoção ou espaço para si, a companhia acabará perdendo talentos”.

MULHERES HÍBRIDAS

A semioticista Lucia Santaella, especializada em psicanálise, professora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e da Universidade de Kassel, na Alemanha, publicou mais de 40 livros e tem uma larga observação do comportamento humano nestes tempos de capitalismo transnacional, saturação da informação e hipermobilidade – o que o fervilhante e volátil mundo virtual nos proporciona. Ela enxerga uma ruptura histórica na construção da identidade feminina e na relação entre os sexos. Os sinais podem ser notados “no princípio do livre governo de si” e “na nova economia dos poderes femininos”. A análise explica as experiências de Eneida e Natalia. A inquietação e a angústia que traspassam da geração de uma à da outra vêm da dificuldade de encontrar uma síntese de tudo isso. “As mulheres se tornaram híbridas. Buscam uma aliança muito complexa entre valores do passado – como casamento e acompanhamento do desenvolvimento emocional e educacional dos filhos – e a meta essencial da atualidade, que é a satisfação profissional, pessoal, intelectual, social e cultural. Todas as coisas ao mesmo tempo”, afirma Lucia. Mais um complicador: na hipermodernidade, fase em que nos encontramos, o traço marcante é o neonarcisismo. Para Lucia, ele cresceu no embalo das incontáveis opções de escolha e da diversificação das ofertas de estilo de vida, resultando em um individualismo desregulado. “Assim, a mulher se impôs um dever: estar à altura do próprio desejo, que se expandiu e se tornou eloquentemente exigente.”

Resumindo, Lucia Santaella não crê no equilíbrio. “Se um lado da balança pesa mais, as consequências psíquicas não tardam. O triunfo na carreira cobra seu preço. É tudo ou nada”, diz ela. “Não há como ser glorificada no escritório sem sacrificar as necessidades da família, principalmente porque ainda vigora o velho ditado que diz: `Mãe é mãe, pai é tio’.” As raras mulheres que, milagrosamente, conciliam as coisas, mantendo-se no fio da navalha do sucesso bilateral, seriam as perfeitas? “Provavelmente, não. Sucesso em demasia produz fastio”, considera. “A mulher pode perceber que estar frustrada ou em falta em casa, por mais perturbador que pareça, a coloca no movimento vital de tentar se aprimorar e ser melhor”, afirma. “Já o êxito sem fissuras – sobretudo quando repercute no dinheiro que se avoluma – faz emergir a angústia, o afeto sem objeto. E, aí, o fastio não é mais do que um mero disfarce.”

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