Uma gaúcha entra no maior presídio do país e faz o filme Central

Tatiana Sager mostra que o Estado perdeu a guerra para as facções. Elas elegem parlamentares, controlam autoridades... decidirão o futuro da sociedade

Não é mais um filme de presos. É um documentário sobre o que virá. Uma prévia do que acontecerá com a sociedade se não houver uma decisão muito firme para mudar o rumo da segurança pública no país. Central, O Poder das Facções no Maior Presídio do Brasil, da diretora gaúcha Tatiana Sager, 49 anos, é um retrato cru da vida de quase 5 mil homens que se empilham em celas e fora delas – nos corredores, colchões são enfileirados e em algumas alas apenas 2 banheiros servem a 400 detentos. A produção, inspirada no livro Falange Gaúcha, do jornalista Renato Dornelles, é também uma confissão das autoridades: até aqui, a guerra está perdida para o crime organizado; o Estado se rendeu.

(SIDINEI JOSÉ BRZUSKA/Divulgação)

O uso de drogas é liberado, do contrário a masmorra se implodiria e os presos, transtornados, sairiam às ruas prontos para a pior das barbáries. Assim, as autoridades toleram que as facções comandem a instituição, escolham quem vive e quem morre, recolham dinheiro das famílias dos detentos, façam negócios a partir do cárcere e coordenem a ação externa dos ex-presidiários, que saem devendo grana e favores eternos. Para que haja o mínimo de disciplina, a direção do presídio, sediado em Porto Alegre, e a Justiça negociam com os chefões dos grupos.

Saí do cinema intrigada com a frase honesta do juíz Sidinei José Brzuska, da Vara de Execuções Criminais, que resumiu a condescendência oficial e a consequência dela para o cidadão: “Esse sistema (prisional) é barato para o governo, para o Estado e caro para a sociedade”.

Por que? O especialista Eduardo Torres explica na tela: “Tudo o que se define ali dentro vai se reproduzir aqui fora. E influenciará a vida da sociedade e de cada um de nós”. Certamente, a análise se refere ao poder que o crime organizado tem para eleger vereadores e deputados; corromper autoridades; arregimentar mais gente para as suas fileiras; comandar a entrada no país de armas e drogas; chefiar o tráfico de pessoas etc etc etc.

(SIDINEI JOSÉ BRZUSKA/Divulgação)

Aqueles 5 mil homens não encontram nenhuma chance de aprender algo de bom ali. Nada que os faça sair menos rudes. Ao contrário, as cenas mostram uma máquina de desumanizar e embrutecer. Tatiana colocou a câmera na mão de presidiários para que eles filmassem o que a equipe não podia. Ninguém passa dos portões das galerias. Nem assistentes sociais, a direção (sob a responsabilidade da Brigada Militar), os padres, os pastores ou os carcereiros. Ali, o mando é dos presos-chefes, que autorizaram a captação das imagens. As cenas degradantes corromperiam a alma e corroeriam o caráter de qualquer um de nós. Elas são tão reais que levam o espectador a “sentir” o cheiro podre do ambiente. O promotor do Ministério Público Gilmar Bortolotto diz sobre o Presídio: “É fábrica de bandidões. Conheço muitos que entraram ali como guris chorões e hoje mandam”.

(SIDINEI JOSÉ BRZUSKA/CLAUDIA)

Uma cena especial é registrada por Tatiana: a revista das mulheres, mães, filhas e irmãs dos presos. Todas nuas, numa desconcertante invasão da intimidade. Para quê? Ali entra qualquer coisa, basta os chefões desejarem.
Um dado curioso: o trabalho de Tatiana, que fez carreira no jornalismo como fotógrafa, foi respeitadíssimo pelos presos. Deles, 68% são analfabetos funcionais, 67% têm entre 18 e 24 anos, 33% são negros e menos de 10% cometeu homicídio, o crime mais grave.

O fato de ser mulher em nada dificultou o trânsito da diretora entre eles. “Todos respeitaram a nossa presença ali, colaboraram, não fizeram nada que pudesse atrapalhar o andamento das filmagens”, contou. A diretora não desligou a câmera e esqueceu a realidade que conheceu de perto. Ela passou a desenvolver um trabalho com menores infratores. Uma tentativa de mostrar a eles que a vida no crime, muitas vezes “glamourizada” é, na verdade, um grande atentado a eles, às suas famílias, à coletividade.

 

A ENTREVISTA

Conversei com Tatiana Sager sobre essa iniciativa. Veja o resumo:

Por que você está mostrando o filme para meninos da Fundação de Atendimento Sócio-Educativo (Fase), em Porto Alegre?

Iniciei o circuito do filme em festivais, em 2015 e, ao mesmo tempo passei a exibi-lo para os jovens. Atinjo 20 meninos por semana, no Centro de Internação Provisória Carlos Santos, onde ficam adolescentes que ainda não receberam a medida sócio-educativa, correspondente à pena. Considero fundamental que conheçam a realidade do presídio. Muitos têm uma visão distorcida, uma ilusão sobre a vida no Central, o que não veem na tela. Eles acreditam que terão apoio das lideranças. Não imaginam a superlotação e as más condições de higiene e de alimentação. Mostram-se iludidos com o uso de drogas: acham que os chefes distribuem à vontade e para todos. Alguns supõem que, indo para lá, serão protegidos pelos líderes de dentro e seus parceiros de fora.

Esses garotos já têm ligações com as facções? O que você ouve deles?

Sim. Praticamente todos estão envolvidos com as facções. As conversas são geralmente sobre a diferença da vida na Fase e a vida no Presídio Central. Eles dizem que “se sentem numa creche”. A maioria acredita que em breve estará, inevitavelmente, no Central. A conversa com eles é uma tentativa de convencê-los de que ir para o Central significa, além de confinamento, um problema para a família: a mãe e a parceira terão que sustentá-los com cerca de mil reais por mês para que consigam sobreviver entre os detentos. Então, muitos argumentam que a facção irá apoiá-los, como já fazem por meio de seus familiares. Explico que os chefes sabem que na Fase os garotos ficarão por um tempo curto, mas quando atingirem a maioridade e forem presos por um longo período, nenhuma facção irá sustentá-los, pois não terão como pagar a dívida que farão com elas. Assim, passarão a depender só da família. Também comento sobre seus filhos, que os terão como referência. Pergunto se gostariam que suas crianças seguissem esse exemplo e entrassem para o crime. Os garotos não querem isso, não admitem a possibilidade. Quase todos são de classe baixa e não contam com a presença do pai. Em geral, têm pai ou irmão vinculados à facção, já abandonaram a família ou estão mortos.

Do que os jovens mais se queixam?
Da falta de oportunidade de trabalho e de condições para ajudar a mãe.

Como é a dinâmica do trabalho com eles?
Apresento o filme às quintas-feiras de manhã e à tarde. Depois de cada sessão, abro para o diálogo.

Por que decidiu fazer o documentário?
Sempre gostei da área de segurança pública. Trabalhei em jornal como fotógrafa, cobri o maior motim de Porto Alegre, o de 1994, que aparece no filme. Há dez anos, quando o jornalista Renato Dornelles lançou Falange Gaúcha, a História do Crime Organizado no Rio Grande do Sul, eu disse a ele que queria os direitos do livro para um documentário. Fizemos um curta chamado O Poder Entre as Grades – com ele entre os roteiristas. Depois veio o longa.

 

ONDE VER:
O filme Central, que tem Dornelles na codireção, está em cartaz até dia 5, mereceu o 1º lugar da categoria Documentário, do 33º Prêmio Direitos Humanos de Jornalismo. A lista dos cinemas que o exibem:
SÃO PAULO
Espaço Itaú de Cinema | Frei Caneca
endereço: Shopping Frei Caneca – R. Frei Caneca, 569 – Consolação
Sala 5 – 18:00

RIO DE JANEIRO
Espaço Itaú de Cinema | Botafogo
endereço: Condomínio do Edifício Coral – Praia de Botafogo, 316 – Botafogo
Sala 3 – 21:40

PORTO ALEGRE
Espaço Itaú de Cinema | Bourbon country (2º piso)
endereço: Av. Túlio de Rose, 80 – Passo da Areia.
Sala 8 – 20:20

GNC Cinemas Moinhos
endereço: Moinhos Shopping – 4º andar, R. Olávo Barreto Viana, 36
sala 1 – 15:40 e 19:50

GNC Cinemas Praia de Belas
endereço: shopping Praia de Belas (Av. Praia de Belas, 1181)
sala 5 – 15:20 e 19:40

GNC Cinemas Iguatemi
endereço: Shopping Iguatemi (Av. João Wallig, 1800)
sala 1 – 15:35 e 19:50

CAXIAS DO SUL
GNC Cinemas Iguatemi – Caxias do Sul
endereço: Shopping Iguatemi Caxias do Sul- (Rodovia RST 453)
HORÁRIOS: 15:20 e 19:20

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