O Último Abraço: um grande amor acaba em eutanásia e vira livro

Nelson detonou uma bomba para morrer com Neusa em um asilo de São Paulo. Mas só ela partiu. O caso ficou conhecido como Romeu e Julieta da Terceira Idade

“O melhor a fazer agora é cremar os dois corpos”. A frase, escrita pelo aposentado Nelson Golla e deixada no porta-luvas do carro dele, é a confissão de quem estava cansado de ver sofrer a mulher, Neusa Golla, e de enfrentar com ela um padecimento sem sentido. Como havia feito todos as tardes, durante 4 anos, estacionou seu veículo na porta da casa de repouso, no bairro paulistano de São Miguel Paulista, onde ela, então com 72 anos, permanecia refém da cama. Muito debilitada por uma série de AVCs, em depressão profunda e dependendo de uma sonda nasogástrica, Neusa parecia não estar mais ali. “A vida começou a ficar insuportável para mim”, relatou Nelson, àquela altura com 74 anos, um braço semiparalisado e se vendo impossibilitado de trabalhar na oficina mecânica montada em sua casa.
Era 28 de setembro de 2014. Pelo terceiro dia consecutivo, o aposentado transportava no bolso uma bomba, sem coragem de detoná-la. Uma enfermeira interrompei a visita à mulher e acabou funcionando como o disparador do artefato. Ela arrancou das mãos de Nelson a pequena bisnaga plástica, com o que ele gotejava água de coco nos lábios e na língua de Neusa. A iniciativa era incompatível com a sonda e vetada no asilo. Tiraram de Nelson o único ponto de contato com a esposa, a derradeira forma de interagir com ela.

O marido entendia que matar a sede significava dar vida. Desde criança, escutara que a água restaura, muda um estado de ânimo, nutre, enche de afeto, é capaz até de fazer bebês falarem mais cedo.

Como assim? Por que o impediam de confortar Neusa com um fio de água? Por que não podia mais ter intimidade com a mulher amada, com quem dividira 54 anos, uma família, uma vida? Que direito tinham os médicos e enfermeiros de decidir o que era melhor para ela, para ele e para ambos – que não se reconheciam fora do par? Nelson não oscilava mais à beira de consumar sua escolha extremada: poria fim ao desconforto e ao desrespeito naquele exato momento.
Da explosão que matou Neusa, o aposentado saiu ferido, com fratura no tórax e intoxicado. Passou 9 dias em um hospital geral e outros 90 em uma clínica psiquiátrica.
O caso foi relatado em linhas breves e no tom policialesco que o jornalismo atual reserva aos fatos, sem notar a dimensão humana contida neles. Contrariando essa lógica, disposto a contar a verdadeira história, o jornalista Vitor Hugo Brandalise, 32 anos, enfiou-se no bairro da Vila Prudente, na capital paulista, onde o casal viveu.
Quando, no Fórum da Barra Funda, Brandalise pediu a um funcionário acesso aos autos do processo criminal, ouviu dele: “Você quer pesquisar sobre Romeu e Julieta da Terceira Idade?” É assim, comparada à saga dos jovens apaixonados que se matam por amor, na peça de Shakespeare, que a tragédia de Nelson e Neusa se tornou conhecida no Tribunal – onde ele será julgado como homicida possivelmente este ano.
Depois de nove meses de entrevistas com o aposentado, seus familiares, advogados e defensores (entre eles, o padre da igreja frequentada por Nelson, que cantava no coral), de ler cartas, esquadrinhar a vida íntima do casal, o jornalista publicou uma série com três episódios no Estadão, em 2015, e lançou, este mês, o livro O Último Abraço – Uma História Real de Eutanásia no Brasil (Editora Record).

(Divulgação/)

Nos primeiros encontros, ele não fazia perguntas, apenas ouvia. “Nelson chorava muito, falava da falta da companheira, dizia que não conseguia dormir na cama de casal sem ela e que havia calculado mal, pois não via razão para Neusa morrer e ele não”, conta Brandalise.
Para responder ao processo em liberdade, o advogado do aposentado construiu a seguinte estratégia: mostrar à juíza do caso um atestado de amor. No país que obriga as pessoas a viverem a decrepitude, o fim indigno, lento, arrastado e desumano, Nelson agiu na tentativa de libertar a mulher. Onde o Estado nega ajuda médica para morrer, o marido pretendeu tirar a companheira do que não era mais vida. E desejava para si o suicídio. Queria ir embora com Neusa.
Brandalise não só vai fundo nesse atestado de amor, como avança muito além. Seu livro transpira a vida como ela é: Nelson amava Neusa, havia carinho, companheirismo e também sentimentos contraditórios, algumas rusgas e mágoas. O romance deles era de carne, osso e rotina. E isso o livro narra com o requinte do bom jornalismo literário. Como o episódio em que Nelson decide vender o carro da mulher para boicotar o negócio dela, que crescia. Estaria mais tempo fora de casa se, como sacoleira, continuasse vendendo bem e, de fato, abrisse a confecção de roupas que ela pretendia. Trata-se de um homem, à semelhança dos outros de sua família, com um brio velhusco e cerceador, que não admitia perder o papel e o poder de provedor exclusivo da prole. Outra facete é a de um Nelson que chegava em casa cheio de saudade, cobria Neusa de afeto, viajava e passeava com ela. Pegou a vassoura pela primeira vez e aprendeu a cozinhar quando a mulher adoeceu. O mecânico passou a cuidar da casa, de Neusa, de tudo.
Antes de levar para a impressão, o jornalista deu o livro para o aposentado avaliar. Ele não pediu nenhuma mudança, nada de retoques na crueza do seu ato incontrolável e irrefreável. “Eu chorei do começo ao fim”, afirmou Nelson. Para Brandalise, quem escolhe uma bomba quer ser ouvido: “A história tem algo para as famílias questionarem”. O personagem havia dito ao escritor que um asilo é um depósito onde as pessoas colocam o velho para esperar a morte.
A eutanásia entrou na vida do jornalista por meio desse drama. Até ali, a abreviação do processo da morte – quando já não há mais vida – e o suicídio assistido eram ficção, tema de filme, notícia exótica da Holanda ou da Suíça. Nelson o fez refletir. O Último Abraço levará o leitor a pensar um pouco na solidão da velhice, no sofrimento que não produz cura e na ausência de direitos – até mesmo o de sanar a sede com algumas gotas de água.

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