CLIQUE E ASSINE A PARTIR R$ 6,90/MÊS

#ChegaDeHate: Você faz parte da cultura da internet tóxica. Vamos mudar?

Como usar a internet se ela é tão nociva para nossa saúde mental? Repensar atitudes no mundo digital vai mudar nossa rotina nas redes e fora delas

Por Isabella D'Ercole Atualizado em 17 set 2021, 00h06 - Publicado em 17 set 2021, 17h00

 

D

etox é o processo de eliminar substâncias tóxicas e nocivas. É curioso, portanto, que a gente use tanto o termo para falar que tirou um tempo das redes, o famoso detox digital. Faz parecer que estar conectado é tão essencial que aguentamos períodos expostos a um tipo de radioatividade para depois nos afastarmos para uma desintoxicação – e então voltarmos à exposição, num ciclo eterno.

Apesar da internet ser obrigatória para muitos – pelo trabalho, principalmente –, ela não precisa ser tóxica e nociva. Isso é responsabilidade nossa, seres que habitam esse espaço coletivo e que fazem o dia a dia ali ser, muitas vezes, de terror e ansiedade. “Sozinha, a internet não é nada, apenas um repositório de coisas, pessoas, conteúdos, produtos e afins. Ela toma forma a partir das nossas ações e sempre será um reflexo do que a gente é, ou seja, se a sua internet está ruim, é preciso que você perceba sua atuação nisso”, fala Bia Granja, cofundadora e CCO da Youpix, consultoria de negócios para influência digital.

“Viveríamos numa internet melhor se nos perguntássemos o que podemos fazer por isso”

Monja Coen

Quando surgiu, a internet tinha a proposta de reduzir distâncias, aproximar pessoas e culturas, tornando o mundo mais unificado. Ela pode fazer maravilhas por cada um de nós, mas tem sido mais usada como ferramenta de destruição. No extremo, casos de bullying, cancelamentos e ataques digitais ultrapassam as telas e ferem pessoas fisicamente. Foi o caso do jovem de 16 anos, Lucas Santos, que se suicidou após receber ofensas homofóbicas. É duro se colocar na pele da cantora Luísa Sonza, por exemplo, que sofre agressões constantes, por qualquer atitude que tenha.

Veja também: O bullying adulto deixa sequelas e precisa ser combatido

“O erro está na forma como a gente entende a internet. Ela nos aproximou tanto que criamos a ilusão de que temos direitos sobre o outro. Reclamo porque a Luísa lançou uma música que eu não gostei, porque ela namora alguém que eu não escolhi. É uma perseguição. Em vez de consumir a internet, porque esse verbo coloca você como alguém no direito de exigir coisas, é preciso pensar nela como um meio para ouvir, refletir e evoluir”, opina Manuela Xavier, psicanalista que abandonou o Instagram após sofrer ataques em sequência.

“As pessoas se escondem por trás do arroba. Elas falam coisas que jamais diriam pessoalmente, que não teriam coragem. Somos vetores de ódio, mas precisamos resolver isso individualmente, na terapia”, acredita ela.

Segundo Manuela, o lado obscuro das redes só piorou desde o começo da crise do coronavírus. “O medo e a incerteza provocados pela pandemia mexeram com muita gente. O isolamento nos fez olhar no espelho, e aí vimos os demônios que estão dentro de nós. Isso é esperado, todos temos luz e sombra, mas precisamos nos compreender e aprender a lidar”, explica. “Antes, também tínhamos mais escapes. Eu saía de manhã e brigava no trânsito, isso já diminuía um pouco a angústia. Em casa, a pessoa coloca toda a energia na internet”, completa.

Ilustração com comentários maldosos do Instagram
Thais Jacoponi (@thatajacoponi)/CLAUDIA

Monja Coen concorda que o autoconhecimento é o único meio de transformação das nossas relações digitais. Para ela, a carência é o que leva as pessoas a se tornarem ácidas e críticas. “Reagimos a tudo imediatamente. Mas e se parássemos para entender por que aquele assunto nos despertou um sentimento específico. Eu li esse post e fiquei com raiva. O que gerou a minha raiva ou a minha tristeza? Muitas vezes, o ataque ao outro é, na verdade, um problema mal resolvido comigo mesma”, fala ela, que tem 2,8 milhões de seguidores no Instagram e virou, recentemente, “embaixadora da moderação” da Ambev.

O desejo por ser visto é tão grande que vale até brigar com desconhecidos em comentários. “Todos nós temos necessidade de acolhimento e afeto. Isso é ainda maior na adolescência, por isso a importância de prestar atenção à vida do seu filho e das crianças online. Lembre-se: não é porque você não está vendo o sangue escorrer que você não está tirando o chão do outro”, diz a monja budista e autora com mais de meio milhão de livros vendidos.

Veja também: Perdeu o foco na pandemia? Veja 5 passos para recuperar a concentração

Continua após a publicidade

Ela ressalta que existem muitas pessoas em posições de poder e com visibilidade que têm comportamentos rudes e ofensivos e acabam se tornando exemplos para muitos. “É fácil recorrer ao argumento: ‘Se ele pode falar assim, por que eu não posso?’ Todos temos nossos monstrinhos, mas vamos alimentá-los? Viveríamos numa internet melhor se cada um se questionasse o que pode fazer por isso.”

Ilustração com comentários maldosos do Instagram
Thais Jacoponi (@thatajacoponi)/CLAUDIA

Onde queremos chegar

Quando Daniela Arrais criou a agência de conteúdo Contente.vc, junto com a sócia Luiza Voll, em 2010, a internet era outra. Ainda assim, a ideia era gerar pensamento crítico para que o espaço fosse construído de forma consciente. Com mais de uma década de trabalho, elas questionam: qual é a internet que a gente quer?

Essa pergunta direciona a produção de conteúdo, o tempo que passamos online, a relação que estabelecemos com o que vemos online. Vale a reflexão. Pare um instante e se faça essa pergunta. Para você, qual é a internet ideal? O que falta para atingi-la? O que você pode fazer para chegar mais perto dela?

“Eu acho que nosso problema é a dificuldade de discordar do outro. Nós não estamos abertos para o diálogo, mas ele é a base da interação que a internet propõe. Preferimos viver nas nossas bolhas, curtindo e compartilhando conteúdo de pessoas que pensam igual a nós”, explica Daniela.

Veja também: “Depois da euforia, a depressão voltava” – Como é a vida com transtorno bipolar

Para ela, a maior parte das pessoas ainda não sabe como a internet funciona e isso acaba gerando prejuízos. “A internet já está entre nós há tanto tempo, especialmente entre as gerações mais novas, que ela é tida como certa. É como a eletricidade, ninguém reflete sobre como ela chega à nossa casa, ela simplesmente existe para nós todo dia, até que tem algum problema. Na internet, muita gente não sabe, por exemplo, que ao xingar e brigar nos comentários, você aumenta o engajamento do perfil. Além disso, é raro que alguém pense no tempo, no dinheiro e na energia que outra pessoa gastou para produzir um conteúdo. Talvez avaliar isso mudasse nossa reação diante de algumas coisas. Ao aceitar a internet como uma entidade, a gente desumaniza, esquece que tem alguém do outro lado que pode se magoar com o que está sendo falado”, acrescenta.

Ilustração com comentários maldosos do Instagram
Thais Jacoponi (@thatajacoponi)/CLAUDIA

A crescente agressividade é algo que Bia acompanha de perto, afinal, ela orienta criadores de conteúdo. “Percebo que usamos as redes sociais e espaços online com menos prazer do que antes. A energia de criação, curiosidade e compartilhamento foi substituída por medo e preguiça, o que faz com que nossa saúde mental fique abalada. Os criadores temem virar alvo fácil de haters, bots e afins. E nós estamos cansados de ser sempre levados pelo algoritmo a nos comparar aos outros”, afirma a empresária.

Essa estratégia dos aplicativos e de seus criadores é proposital, de acordo com o psicólogo Cristiano Nabuco de Abreu, coordenador do programa Dependência da Internet, que pesquisa os limites da nossa a relação com as redes. “A polarização ocorre porque a tecnologia mostra apenas um lado da moeda. Além disso, sem recursos não-visuais, como linguagem corporal e entonação, a leitura da mensagem do outro fica mais complicada e, para deixar a minha posição clara, eu exagero. Essa combinação transforma as redes em palco para brigas. As empresas de tecnologia sabem que quanto mais raiva elas puderem provocar, mais dinheiro elas ganham com isso”, fala ele, que recomenda usar as Peneiras da Sabedoria de Sócrates.

“Ao aceitar a internet como uma entidade, a gente desumaniza, esquece que tem alguém do outro lado”

Daniela Arrais, cocriadora da Contente.vc

São três critérios aos quais devem ser submetidos o conteúdo ou o comentário: verdade, bondade e necessidade. O que você está escrevendo é um fato? Você checou? Ele atinge o outro com empatia, é uma fala bondosa? É necessário? Um exemplo: você diria para uma pessoa na rua que a roupa dela é feia ou que o corte de cabelo não ficou bom? Provavelmente, não. Então por que comentar isso no post de uma influenciadora? “A internet precisa ser usada com um objetivo claro: ela é um veículo, um meio, e não um fim. Isso vai mudar a consciência do que é postado e também do tempo passado ali”, afirma Cristiano.

Veja também: Cresce o número de mulheres diagnosticadas com autismo depois dos 30 anos

Cabe a cada um de nós nos responsabilizarmos por uma internet que a gente goste de usar, mas também cobrar das redes onde passamos tanto tempo posicionamentos mais rígidos para evitar que comportamentos tóxicos se perpetuem.

Em comunicado, Natália Paiva, Head de Políticas Públicas do Instagram na América Latina, afirmou que o aplicativo “segue investindo no desenvolvimento de tecnologia capaz de detectar abusos e em ferramentas que deem mais controle às pessoas, para que elas mesmas possam decidir como, quando, onde e quem pode interagir com elas”. Criar uma internet melhor para todos – e com menos ódio – será um trabalho a longo prazo e exigirá esforço coletivo, mas é certeza que valerá a pena.

Continua após a publicidade

Publicidade