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Há 58 anos CLAUDIA fala sobre a arte de ser mulher

Ao longo dos anos, a maior revista feminina do Brasil definiu uma nova maneira de fazer conteúdo para as mulheres

Por Thomaz Souto Corrêa - Atualizado em 17 fev 2020, 12h24 - Publicado em 23 out 2019, 08h00

“A arte de ser mulher”

O sumário do número 1 da revista CLAUDIA, que as leitoras compraram nas bancas 58 anos atrás, destacava como “assuntos importantes”: a moda de primavera lançada em Paris; o uso de plantas na decoração da “casa moderna”; as mercearias modernas chamadas de supermercados; as declarações surpreendentes de Sophia Loren, “a estrela mais fulgurante da constelação cinematográfica”. Trazia também uma matéria sobre o problema de filhos que não querem comer, uma novela do escritor inglês Somerset Maugham e um inquérito sobre superstição.

Inspirada em revistas femininas italianas – além de Sophia, tinha Marcello Mastroianni como galã da edição –, CLAUDIA se esforçava para apresentar um sentido prático às suas reportagens de serviço. Falava com uma jovem leitora casada e queria que ela se sentisse servida por informações úteis que a ajudassem nas áreas que considerava “importantes” – nesse número 1, moda, casa e filhos. Daí para a frente, acrescentaria cozinha.

A questão de informação de serviço era difícil de resolver. As fotos de moda, decoração, comida e maquiagem eram todas estrangeiras, e mostravam roupas, ambientes e produtos que não existiam no mercado brasileiro. Os redatores tinham de fazer verdadeiros malabarismos com o texto para deixar claro que aquelas fotos lindas eram só inspiração e serviam como ideias, porque nada do que aparecia nas matérias podia ser comprado.

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Ao mesmo tempo, CLAUDIA oferecia às suas leitoras matérias incomuns nas revistas do gênero daquela época. Quem ocupava a última página do número 1 era Rubem Braga, considerado o maior cronista brasileiro. Somerset Maugham foi uma escolha sofisticada para o primeiro número de uma revista, feminina ou masculina.

Aos poucos, CLAUDIA definiu uma nova maneira de fazer revista feminina no Brasil. As inovações se sucederam em todas as áreas: construiu a primeira cozinha experimental, onde as receitas eram testadas três vezes antes de serem publicadas; construiu também o primeiro estúdio fotográfico, onde se montavam os ambientes para as matérias de decoração. Nesse mesmo estúdio, eram realizadas as reportagens de moda e beleza, que mostravam o melhor do que havia sido produzido pela indústria brasileira, numa seleção feita pelas editoras da revista.

Desde o número 1, CLAUDIA dedicava a seção “Arte de Ser Mulher” a uma conversa mais séria com a leitora, basicamente sobre problemas de relacionamento. Mas o fazia de maneira muito cuidadosa. Era preciso fazer valer uma opinião, mas que não prejudicasse a união marido-mulher. Pois foi com essa seção que CLAUDIA botou fogo na vida da mulher casada brasileira, quando, em setembro de 1963, passou a publicar os artigos de Carmen da Silva. Brilhante e desafiadora, Carmen tratou de todos os tabus.

A mulher casada tinha direito ao orgasmo (pesquisas da época mostravam que uma grande quantidade de mulheres não tinha); a mulher casada devia trabalhar (era considerado “feio”) e deixar de ser apenas uma “triste rainha do lar”; o divórcio era uma alternativa concreta para as mulheres infelizes no casamento.

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Carmen passou a viajar pelo Brasil dando palestras e entrevistas, porque virou uma voz da liberação. E, com isso, CLAUDIA tornou-se a revista feminina que foi muito além da sala, da cozinha e da vitrine, o que sempre tentou fazer de modo brilhante. Foi a revista que sempre marchou junto com você, leitora, como uma amiga escolhida, querendo ajudar, divertir, informar, conversar. Com 58 anos de idade, parece que deu certo.

*Thomaz Souto Corrêa foi diretor de CLAUDIA

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