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Autocuidado é o maior ato de resistência no ativismo

Seja na luta ou existência, formas de opressão deixam marcas na história de quem sente. Jovens contam o que fazem para amenizá-las e terem mais paz

Por Ana Carolina Pinheiro - Atualizado em 22 jul 2020, 16h51 - Publicado em 21 jul 2020, 18h30

Em um domingo de quarentena, assistindo à TV, escutei o ator Lázaro Ramos dizer que “não podemos parar de lutar” em uma entrevista sobre racismo, dias após os assassinatos de João Pedro e George Floyd. As lágrimas começaram a escorrer na hora, como se ele enxergasse exatamente os meus sentimentos. Era um misto de culpa por não fazer mais pelos meus, dor pela perda constante de nossas vidas e direitos e cansaço por ver que na prática pouca coisa muda. Um ciclo para abalar qualquer saúde mental. Mas, por mais angustiante que seja esse conflito, a psicóloga Nayara de Souza Gomes, do Rio de Janeiro, aponta que esse é o primeiro passo para equilibrar a balança. “Em todas as situações, é importante acolher os sentimentos sem julgamentos para depois pensar em como lidar com eles. Isso é o maior gesto de afeto”, aconselha.

Viver e tentar combater sistemas de opressão têm disso. Até para quem não é ativista, o fato de ser alguém pertencente a um grupo oprimido já te coloca no pacote dos que não estão em pé de igualdade com os socialmente aceitos. “Nossas vidas enquanto pessoas que ocupam essa posição de opressão, é conflitante. Isso por si só já é cansativo. Com a luta, que pode ser realizada de diversas maneiras, o indivíduo pode ter o ativismo ocupando maior ou toda parte do seu tempo”, explica Nayara, mestra em psicologia social pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro.

Samela Sateré Mawé, 23 anos, é estudante de biologia, artesã e ativista das causas indígenas e ambientais Acervo pessoal (Lucas Silva)/Reprodução

Em uma conversa com uma amiga da faculdade, a estudante de biologia e artesã, Samela Sateré Mawé, 23 anos, de Manaus, descobriu que ela e sua mãe eram ativistas, já que ambas lutam pelas causas indígenas. “Nunca tinha escutado essa palavra, mas exercia mesmo sem ter noção do seu significado. Sempre frequentei as reuniões de associação de mulheres indígenas, criada pela minha avó, mas só em 2006 que realmente abracei a causa indígena e ambiental”, relembra a estudante, que também integra o núcleo indígena da Universidade Estadual da Amazona e o Fridays for Future, fundação internacional da ativista Greta Thunberg. “A gente não para, mesmo com o cansaço e críticas, porque é uma luta por um benefício coletivo”, expressa.

Aretha Soyombo, 24 anos, enxergou no Twitter um espaço para falar de afeto, medo e vivências como mulher negra Acervo pessoal/Reprodução

Para a professora de inglês e criadora de conteúdo, Aretha Soyombo, 24 anos, de Belo Horizonte, até as pessoas esperam que ela viva o ativismo intensamente. “Fico cansada e pressionada. Muitas pessoas, boa parte delas brancas, me perguntam sobre casos de racismo e cobram se não vou falar nada, como se isso anulasse a minha preocupação. A cada notícia de morte de uma criança negra no Brasil, meu sonho de ser mãe aqui fica abalado. Isso mexe muito comigo”, explica a influenciadora, que aborda questões da sua realidade como mulher negra no Twitter e em palestras.

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Formada em Relações Públicas, a Isa Meirelles, 27 anos, de São José dos Campos, percebeu que precisava criar estratégias de comunicação para se conectar com pessoas diversas. Nesse processo, criou os coletivos Quem São Elas, comunidade de soluções para uma moda e beleza mais representativas, e Deficiência Tech, primeira comunidade de inclusão de pessoas com deficiência no mercado de tecnologia no Brasil. “É uma canseira diária, dá vontade de largar mão por ter que justificar a necessidade e os benefícios coletivos da acessibilidade”, diz a comunicadora, que se reconheceu como pessoa com deficiência aos 23 anos ao entrar no mercado de trabalho. “Na verdade, perdi a visão do olho esquerdo aos 4 anos por conta de um glaucoma congênito. O preconceito é invisível para a própria família na tentativa de nos proteger”, alerta.

Isa Meirelles, 27 anos, é pesquisadora e consultora de novas estéticas de empoderamento contra o capacitismo, preconceito a pessoas com deficiência Acervo pessoal/Reprodução

No caso da ativista e atriz, Brenn Souza, 23 anos, de Rio Branco, as causas minoritárias e o ativismo chegaram por meio da graduação, época em que  começou a ler sobre racismo, machismo e LGBTfobia, sendo que esse último a tocou de forma ainda mais pessoal. “Na faculdade, dei início ao meu processo de transição de gênero. Isso serviu como um pontapé para me tornar ativista, já que vi que nem meu corpo nem minha voz tinham direitos garantidos nessa sociedade. Foi um processo para me descobri como travesti, mas também para conseguir ajudar pertencentes de outros grupos minoritários, que precisam de equidade e igualdade tanto quanto eu”, aponta a performer.

Brenn Souza, 23 anos, é colunista do Mídia Ninja e embaixadora da TODXS Brasil, primeira startup social brasileira sem fins lucrativos que promove a inclusão LGBTI+ CassisPlay/Acervo pessoal

Cuidando de si

De acordo com Nayara, dosar a energia no ativismo não significa desmerecer a importância de suas causas, mas sim colocar-se como prioridade para voltar fortalecido. “Em uma sociedade que nos quer mortos e doentes, a melhor arma é estar vivos e pulsantes. É necessário nos olharmos como seres humanizados, que cometem erros e acertos”, alerta a profissional, que também orienta um mapeamento das reações. “Ao acolher os sentimentos, criamos uma bagagem de experiência. A partir disso, você identifica quando fez algo que gerou um alívio ou que potencializou a sua raiva, causando um cansaço posterior. Isso serve de base para situações seguintes”.

Tanto Samela quanto Bren apostam na natureza para recuperar a energia sugada ao lutar por suas existências. “Semana passada, entre uma reunião e outra, consegui tomar um banho no Rio Negro, que me tranquilizou bastante, assim como estar em família. Outra saída que encontrei foi comprar um chip só para tratar dos projetos da associação, que deixo ligado apenas durante a semana”, diz Samela, que também aposta nos chás de camomila. “Procuro algum lugar arborizado com bastante verde para me reenergizar. Ligar para as amigas, tomar cerveja e fazer terapia também são alternativas essenciais”, explica a atriz, que neste ano resolver debater política, por exemplo, apenas com quem demonstra interesse em um diálogo saudável. “Prefiro não ter contato com pessoas que vão me sugar e a discussão não vai levar a nada”, revela.

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Sobre acompanhamento psicológico, Nayara ressalta um movimento de representatividade nos consultórios. “Com um profissional que se identifique com a sua orientação sexual ou tenha a mesma etnia, os pacientes se sentem mais acolhidos, já que estão na frente de alguém que não vai te julgar e suas dores serão validadas”, explica. Corpo e mente andam juntos, comenta Nayara. “Na ansiedade, por exemplo, o corpo é uma resposta de um acesso que começa na mente. É importante se conectar com o corpo, até porque essas lutas acontecem muito no nível mental. Não existe uma fórmula, mas sim uma busca para saber o que funciona para você”, comenta.

Para a Isa, a quarentena não é sinônimo de que está tudo bem meter o pé na jaca. “Não vou ter maus hábitos porque estamos em isolamento, temos que encarar essa nova rotina. Por isso faço sempre que possível atividade física, principalmente correr e dançar, e tento conversar com pessoas diferentes”, diz a RP, que também já reconheceu que não dá para abraçar o mundo. “Escolho as pautas que consigo me posicionar”.

Além da terapia e das notificações de alguns aplicativos desativadas, Aretha usa outra válvula de escape para se manter bem. “Tenho escrito muito no meu diário durante essa quarentena como forma de colocar para fora todas minhas angústias”, diz a influenciadora, que também se apoia no compartilhamento com os seus. “Quando mostro o que já passei, principalmente no âmbito afetivo, é porque precisei ler relatos de outras mulheres negras para me sentir acolhida. Agora, fico motivada em saber que outras podem contar com a minha história, verem que não estão sozinhas e que muita coisa dá para ser superada”, comenta a professora.

Nayara pontua que, quando há algo que violenta coletivamente, a cura também vem do todo. “Estar junto e trocando com seus semelhantes são processos que trazem muita sustentabilidade. Falar com alguém que pensa parecido gera humanização e ainda faz com que pensemos juntos em estratégias, já que ao comunicar também organizamos os nossos pensamentos”, conclui a profissional.

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Todas as mulheres podem (e devem) assumir postura antirracista:

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