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Harmonização genital: procedimentos estéticos viram desejo

A busca por intervenções estéticas íntimas é cada vez mais comum entre mulheres e homens. Aqui, desvendamos este cenário, tão intrínseco às pressões sociais

Por Lorraine Moreira Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 17 nov 2023, 08h59 | Atualizado em 4 jun 2026, 15h46
Procedimentos estéticos nas partes íntimas crescem
Mulheres e homens encontram nos procedimentos estéticos a saída para solucionar o complexo sobre a própria região (Reprodução/Getty Images)
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Três rápidas e sonoras chamadas marcam o começo do atendimento. Significam que o paciente está liberado para entrar no consultório e questionar ao médico se há algo de errado com o formato de seus órgãos genitais. Apesar de, na maioria dos casos, tudo estar em perfeitas condições, muitos levantam-se, arrumam a roupa e, ainda assim, procuram por procedimentos estéticos para mudar a região.

Pode parecer absurdo pensar, mas a harmonização genital está em pleno crescimento, e o Brasil é campeão em cirurgias íntimas. O conjunto de procedimentos estéticos é para diminuir a flacidez, transformar o tamanho e clarear a área.

“Assim como qualquer parte do corpo, as genitálias sofrem alterações conforme o tempo passa, e a harmonização busca reverter esse fenômeno”, afirma Karoline Reis, ginecologista especializada em estética íntima.

Entre as opções para “corrigir” a aparência, a mais procurada é a ninfoplastia, também chamada de labioplastia, que consiste na diminuição do tamanho dos pequenos lábios vaginais por meio do corte com laser ou lâmina. 

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Segundo dados divulgados pela Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica (ISAPS), nos últimos 4 anos houve um aumento de 75% na procura pelo procedimento.

O Brasil liderou o ranking mundial com quase 16 mil ninfoplastias realizadas. A motivação para a intervenção é a atrofia vaginal, que atinge cerca de 56% das brasileiras, conforme a pesquisa Vaginal Health: Insights, Views & Attitudes (VIVA). Importante notar que nem todas escolhem a realização por fins estéticos: há quem se incomode com o atrito da pele com a roupa ou tenha dificuldades com a higienização da área.

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Outras possibilidades existentes no mercado englobam o preenchimento com ácido hialurônico — o mesmo utilizado para aumentar a boca — e enxerto de gordura a partir da lipoaspiração e posterior aplicação nos grandes lábios.

Enquanto isso, homens apostam na bioplastia peniana, que são aplicações de ácido hialurônico no perímetro do corpo do pênis para ter o engrossamento ou alargamento da região. Também há cirurgias para a redução do escroto, parte em que os testículos estão presentes.

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Procedimentos estéticos nas partes íntimas crescem
A busca por procedimentos estéticos nas partes íntimas tem crescido no Brasil (Reprodução/Getty Images)

A visão estereotipada da genitália feminina promovida na pornografia e a falta de referências para que as mulheres comparem o aspecto de suas vulvas é uma das principais razões para a grande procura por intervenções, segundo estudo da Universidade de Melbourne.

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A sexóloga Sabrina Kraft aponta que os filmes adultos estimulam a ideia de que os lábios menores não devem se projetar à frente da borda dos lábios maiores.

A genitália masculina, por outro lado, precisa ser grande, grossa e reta. No entanto, não há uma base clínica que sustente a harmonia dessas medidas. Inclusive, elas mudam constantemente por fatores como idade, temperatura do dia, fase do ciclo menstrual, roupas e excitação.

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“A pornografia apresenta corpos e genitais que não representam a diversidade da anatomia humana. Assim, expectativas irrealistas podem ser criadas sobre como ela deveria ser”, comenta a psicóloga de mulheres Isabela Teixeira. 

A preocupação começa cada vez mais cedo: os cientistas de Melbourne identificaram que a idade média das pacientes preocupadas com o aspecto de suas vulvas era de 14 anos.

A dinâmica faz parte de um contexto social de pressão para atender padrões de beleza, o que agrava a situação e possibilita o adoecimento psicológico de quem não atende essas demandas, de acordo com a especialista. “Esses fatores podem desencadear ansiedade, depressão, disfunção sexual e percepção distorcida da própria sexualidade, devido às preocupações constantes sobre a imagem que possuem e à baixa autoestima”, pontua Isabela. 

Muitas vezes, a pressão é feita pelos próprios companheiros, motivo pelo qual o interesse pela harmonização genital pode crescer.

“Quando alguém reforça as inseguranças do outro, os pensamentos desta pessoa vão hiperfocar na situação, atrapalhando a experiência do sexo, por exemplo”, esclarece a terapeuta sexual e sexóloga Bárbara Bastos.

O medo da rejeição e a vergonha sentida por conta das genitálias interfere na vida sexual das pessoas, que se veem como inadequadas, o que não permite que aproveitem o momento.

“A sexualidade está na nossa cabeça. Nossas emoções têm a ver com desejo e satisfação sexual”, acrescenta Sabrina. 

Quem opta pelas intervenções encontra os riscos aos quais qualquer procedimento está sujeito: infecções locais, necrose; cicatrizes grandes, dolorosas ou esteticamente inadequadas; hematomas, edema, abertura espontânea dos pontos e assimetrias são alguns deles, segundo Karoline.

“Essas complicações ocorrem quando a paciente não segue as recomendações.” Balancear desejos e riscos, enquanto se questiona por que pretende fazer, dessa forma, parece necessário.

A pressão para atender padrões de beleza pode desencadear ansiedade, depressão, disfunção sexual e percepção distorcida da própria sexualidade, devido às preocupações constantes sobre a imagem que possuem e à baixa autoestima

Isabela Teixeira, psicóloga de mulheres

Ao pensar em estratégias para ajudar homens e mulheres a desenvolverem uma relação mais saudável e positiva com seus corpos, Bárbara acredita no poder da educação.

“Ela serve para que possamos entender os nossos limites e tenhamos conhecimentos sobre o nosso corpo”, afirma. Outro ponto lembrado por Isabela é a exploração da própria anatomia e a realização de terapia para discutir sobre as inseguranças. “Dedique um tempo a esses dois pontos para melhorar sua relação com você mesma.” 

Por fim, Sabrina nos convida a deixar de lado a comparação. “A beleza de outras pessoas não anula a sua beleza. O seu corpo é único, e a comparação é um veneno para nossa autoestima. Observe suas genitálias, explore sua anatomia e descubra seu prazer. Olhe para si com carinho, isso definitivamente faz a diferença.”

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