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Estamos mais ansiosos, depressivos e consumindo mais álcool e cigarros

Pesquisa da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) indica que o isolamento social já está gerando efeitos negativos à nossa saúde mental

Por Colaborou: Gabriela Maraccini - 23 Maio 2020, 10h00

Estamos mais ansiosos, depressivos e consumindo mais cigarros e bebidas alcoólicas desde o isolamento social por conta da pandemia do novo coronavírus. É o que afirma uma pesquisa coordenada pelo Instituto de Comunicação e Informação em Saúde (Icict), da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), em parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

O estudo, que contou com a participação de 44.062 pessoas de todo o Brasil, por meio de um questionário online, constatou que 40% dos entrevistados se sentiram tristes ou deprimidos e 54% se sentiram ansiosos ou nervosos frequentemente. Os maiores percentuais estão entre adultos jovens, na faixa de 18 a 29 anos — 54% e 70%, respectivamente.

Além disso, a pesquisa mostra que houve aumento no consumo de bebidas alcoólicas e cigarros. Entre os fumantes, 28% aumentaram cerca de dez cigarros por dia e 6% mais de 20, sendo o percentual de aumento maior entre as mulheres (32%) do que entre os homens (24%).

Quanto ao consumo de álcool, 18% dos entrevistados relataram que estão bebendo mais durante a pandemia, com ocorrência maior entre pessoas de 30 a 39 anos (26%).

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Mas por que isso está acontecendo?

“A pandemia e a necessidade do isolamento social causaram um impacto no estado emocional e psicológico das pessoas. As pessoas estão vivendo em um estado permanente de ansiedade”, explica Marilene Kehdi, psicóloga clínica. “A restrição do ir e vir, o contato físico restringido, a mudança radical na rotina, a insegurança profissional e também em relação ao futuro, a preocupação com a situação financeira, o medo de serem infectados, de morrer ou de perder entes queridos para a Covid-19, são algumas das causas do aumento da ansiedade e depressão.”

A pesquisa também mostra 55% das pessoas entrevistadas relataram diminuição da renda familiar e 7% ficaram sem renda. Entre os autônomos, 58,6% dos entrevistados disseram ter ficado sem trabalho. Esses aspectos socioeconômicos também contribuíram para o quadro de angústia e depressão e, consequentemente, para o aumento do consumo de álcool e cigarro.

“Muitas pessoas buscam na ingestão de bebida alcoólica e no cigarro uma forma de amenizar a ansiedade e o estresse”, afirma Kehdi. “Esses hábitos surgem como válvula de escape, mas prejudicam ainda mais a saúde e dependendo da quantidade de bebida alcoólica ingerida, prejudica também as relações e vários outros aspectos da vida”, analisa.

Quais são as consequências disso?

De acordo com Marcelo Cantarelli, cardiologista intervencionista e diretor do grupo Angiocardio, tanto a ansiedade e quanto a depressão são consideradas fatores de risco para o desenvolvimento de doenças coronárias e infarto. “Quando aliadas ao cigarro, diabetes, hipertensão arterial, colesterol, a ansiedade e depressão são situações, ao lado do estresse, que podem levar com que a pessoa desenvolva doenças cardiovasculares”, explica.

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Como já é de senso comum, o cigarro leva a uma série de doenças e está relacionado a quase todos os tipos de câncer. “O hábito do tabagismo leva ao câncer de boca, de orofaringe, pulmão, estômago, bexiga, rato gastrointestinal, baixo, câncer de colo…”, afirma o cardiologista.

Também não é segredo para ninguém que o consumo de álcool em uma frequência diária também é nocivo para a saúde. “O excesso do consumo de álcool pode levar a agressão hepática, ganho de peso, alterações no metabolismo de gorduras podendo aumentar os triglicérides e colesterol, piora da diabetes, alterações sérias de comportamento e cerebrais, que podem se tornar crônicas”, completa Hélio Castello, cardiologista intervencionista e diretor do grupo Angiocardio.

Fique de olho na sua saúde

Como a pesquisa indica, a nossa saúde mental está em risco durante a pandemia, com o aumento da ansiedade e depressão. É preciso ficar de olho nos sintomas para poder procurar o tratamento adequado, principalmente no momento de incertezas que vivemos.

“A ansiedade se manifesta de várias formas, entre elas: nervosismo, agitação, estado de alerta constante, dificuldade para se concentrar e dormir. Dificuldade para respirar, a respiração fica curta e superficial, também ocorre um aumento do apetite com picos de compulsão”, explica Kehdi.  “Já a depressão tem características como tristeza permanente, apatia, falta de energia e motivação, que prejudica todas as áreas da sua vida, isolamento, alterações no apetite e no sono.”

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Para passar por esse período da melhor maneira, além do tratamento psicológico, é indicado organizar uma rotina que priorize a saúde mental, com organização, mantendo horários definidos para trabalhar, fazer refeições, interagir com a família e tirar um tempo para si mesmo.

Além disso, se dedicar a algo que gosta de fazer, como pintura, escrita, leitura, ou apenas assistir uma série, também ajuda nos momentos mais angustiantes.

Em tempos de isolamento, não se cobre tanto a ser produtiva:

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