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Envelhecer é descer ladeira abaixo?

Nossa editora e colunista Liliane Prata questiona: depois de certa idade, nosso olhar se torna amargo?

Por Liliane Prata - Atualizado em 28 out 2016, 09h02 - Publicado em 21 out 2015, 10h10

Sábado. Eu estava no restaurante, almoçando com uma amiga minha, quando ela comentou:

– Olha aquela família ali… Acho tão deprê ver essas famílias no restaurante…

Virei a cabeça para trás. Era um casal com um bebê e uma criança de uns quatro anos. Todos comiam sossegados. No carrinho, o bebê parecia estar dormindo.

– Olha o casal – ela continuou. – Eles nem estão conversando um com o outro. E que chatice ficar cuidando de criança, eles vão passar o fim de semana inteiro ocupados. Ah, essa cena me parece meio deprê, sei lá.

Como eu tenho marido e filha, pensei: será que, quando estamos calados em um restaurante, olham para a gente assim? Somos felizes, mas com certeza devemos passar uma imagem de tédio aos olhos alheios dependendo do dia, do momento. Bom, que olhem como quiserem, não tenho controle sobre isso, concluí. Mas antes que eu dividisse minhas conclusões mentais com minha amiga, ela falou:

– Outra coisa que eu acho deprê é aquela mulher ali, sozinha, mexendo no celular, dá uma olhada… Deve ter a minha idade e tá na cara que é solteira ainda… Ou separada, né… Nossa, ela passa uma tristeza no olhar, um vazio, um tédio…
– Espera – eu falei. – Esse vazio, esse tédio são seus, né. Ou todo estado civil é deprê?

Ela riu, eu ri, e então ela, que tem quarenta anos, confessou sua opinião: não importa como você viva – a partir dos trinta e poucos, é um curso ladeira abaixo que você segue. Passou a fase do namoro, das paixões, dos encontros cheios de ansiedade e de um coração receptivo ao outro e animado diante das experiências. Acabou o entusiasmo juvenil, a sede de novidades, acabou uma certa inocência, uma boa vontade em relação às pessoas e ao futuro. Sobrou o quê? Um cansaço, um certo desgosto generalizado. Uma desconfiança, um desconforto que não passa. Um discurso cínico e azedo sobre o ser humano, sobre os tempos atuais, a família e as relações amorosas. A culpa não é do estado civil, mas da idade: quando as risadas de alegria são substituídas por tiradas sarcásticas, cenas que eram emocionantes viram repetitivas e, às vezes, simplesmente patéticas, e uma dose de desprezo contamina tudo ao redor.

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Casais juntos há anos: são felizes, mesmo, ou estão juntos por medo, comodismo, conveniência? Solteiros: são descolados, ou passam uma imagem triste e desesperada com suas buscas no Tinder? Divorciados com filhos: pessoas vivendo as dores e delícias que fazem parte dessa fase, assim como de qualquer outra fase, ou “os mais deprimentes”, segundo minha amiga, com seus fins de semana levando e buscando as crianças na casa um do outro e suas noites esquisitas, tentando se encaixar na balada, com expectativas já afogadas em esperanças que tiveram quando mais jovens e não têm mais?

 
– Ai, Lili, eu me sinto tão leve conversando com você – minha amiga completou, depois de eu rir muito e comentar um pouco sobre sua perda de fé generalizada.  

– Eu, por outro lado, estou dez quilos mais pesada! – admiti, pedindo o café e louca, confesso, louca para ir pra casa dar um abraço na minha filha, comer um chocolate, fazer um bolo, fazer sexo: qualquer coisa que me devolvesse a sensação tranquilizadora de que a vida, em qualquer idade, pode ser rica, interessante, envolvente. 

Essa minha amiga ficou desiludida muito cedo. Não que haja uma idade ideal para que a amargura invada o olhar – acho que o ideal é que pelo menos algum encantamento possa ser encontrado nos nossos olhos até o fim dos nossos dias. Mas acho triste quando essa amargura vem já na terceira ou quarta década aqui. Impressão minha ou muitos, além da minha amiga, estão se cansando rápido demais de suas jornadas? Sempre foi assim?

Penso em velhinhos amargurados: com seus oitenta, noventa anos, só sabem condenar, reclamar e se lamentar. Conheço pessoas assim. Então penso em velhinhos serenos, que passam uma leveza que sinto que tenho, mas que também sinto que preciso me cuidar para preservar. Também conheço velhinhos desse grupo. Como sempre, há de tudo. Não existem só olhares como os da minha amiga. Não existe apenas a ótica da falta, da escassez. Não é esse o único viés possível para se olhar a existência. Há filtros mais generosos, condescendentes ou simplesmente alegres. Se não para todos aqueles que buscam, então para os que conseguiram encontrar. Se não buscar, penso que aí é que não se acha mesmo. Generosidade natural em relação à vida, sem esforço ou, ao menos, sem certo cuidado e dedicação, talvez só a das crianças. Nós, adultos, temos que respirar fundo e fazer essa opção. Ou talvez alguns sejam amargos por natureza. De todo modo, nem todos conseguem. E também tem aqueles que não querem, não estão a fim, não se dão ao trabalho.

Saí daquele almoço pensando duas coisas: na caminhada de volta à minha casa, vou passar na banca e comprar figurinhas para a minha filha. E espero que minha amiga recupere algum gosto pela direção suave, agradável, em vez de botar a vida no ponto morto e descer de vez ladeira abaixo. 

Liliane Prata é editora de CLAUDIA e escreve esta coluna toda quarta-feira. Para falar com ela, clique aqui!

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