Centenário de um Papa pop

João Paulo II foi uma das figuras mais icônicas do século XX, sendo ídolo de torcida de futebol no Brasil e homenageado pelo rock nacional

O Papa João Paulo II faleceu há 15 anos, com 84 anos. Durante seu papado, visitou 129 países e fazia questão do contato com os fiéis, circulando entre eles e cumprimentando pessoalmente o máximo de pessoas que podia. Cada viagem dele era como uma maratona que teve impacto em sua saúde, mas o peregrino, como veio a ser chamado, não abria mão. Sabia se expressar em 13 idiomas (português inclusive), o que o permitia improvisar em seus discursos. Aliás, quando quebrava o protocolo frequentemente demonstrava bom humor. Em 1997, por exemplo, quando esteve no Rio de Janeiro para o 2º Congresso Teológico Pastoral, brincou que “se Deus é brasileiro, o Papa é carioca”, para uma multidão deliciada. Em Roma, quando participava de uma audiência pública com vários fiéis, saudou cada país. Quando chegou a vez de abençoar os brasileiros, deu uma pausa e incluiu um “Brasil, saudades” que emocionou ainda mais os presentes. Esses pequenos gestos demonstravam o grande talento de comunicação que João Paulo II tinha e ele sabia muito bem como usá-lo.

Fiel à sua vocação universal à santidade, João Paulo II beatificou 1340 pessoas e canonizou 483 santos. Nenhum Papa antes, ou depois, chegou perto.

Sonho com os palcos foi substituído pela carreira na Igreja

Karol Wojtyla, em 1941, fotografado pelo marido da atriz Halina Krolikiewicz-Kwiatkowska

Karol Wojtyla, em 1941, fotografado pelo marido da atriz Halina Krolikiewicz-Kwiatkowska (Laski Diffusion/Getty Images)

João Paulo II nasceu Karol Wojtyla, em Wadowice, um povoado a 50km da capital, Cracóvia. Sua mãe morreu quando ele tinha apenas 8 anos de idade. O irmão mais velho, Edmund, que era médico, faleceu quando Karol tinha 10 anos, tratando doentes com escarlatina, doença que não tinha vacina na época. Por estar diretamente em contato com os doentes, Edmund acabou contaminado também. Aos 12 anos, Karol seguiu para capital com o pai e passou a sonhar com uma carreira no teatro.

Aos 18 anos foi convocado para o Exército, mas se recusou a atirar durante confrontos da Segunda Guerra Mundial. Quando os alemães invadiram a Polônia, ele foi obrigado a trabalhar em minas e fábricas, para não ser deportado. Aos 19 anos, perdeu seu pai, que faleceu de um ataque cardíaco. “Aos 20 anos já tinha perdido a todos que amava”, ele disse mais tarde. Após a morte de seu pai, Karol decidiu entrar para a Igreja. Ainda assim, em um país dominado, não foi fácil, mas além de se esconder dos soldados nazistas, ajudou judeus a escapar também. Seu empenho foi depois reconhecido e mencionado pela organização judaica B’nai B’rith.

Terminada a Segunda Guerra Mundial, a Polônia fez parte do bloco soviético e, como católico, Karol enfrentou a perseguição religiosa no regime comunista. Foi Bispo aos 38 anos, Cardeal aos 47 e chegou a Papa aos 58 anos, o que era bastante jovem para os padrões da Igreja. Mais importante, o relativamente desconhecido polonês quebrou a tradição de 455 anos de linhagem de apenas papas italianos. Em plena Guerra Fria, ver um padre polonês assumir a liderança da Igreja Católica, em 1979, foi uma imagem de grande impacto político.

Karol Wojtyla, que veio a ser o Papa João Paulo II em 1978. Ele foi o primeiro Papa não italiano desde 1523

Karol Wojtyla, que veio a ser o Papa João Paulo II em 1978. Ele foi o primeiro Papa não italiano desde 1523 (Keystone/Getty Images)

Antes de João Paulo II, os papas eram líderes com voz ativa, mas distantes do povo. Ao assumir o papel de agir como ‘tribuno do povo’,  sua estratégia populista foi efetiva. Fazia questão de abraçar os fiéis e circular entre eles (para desespero de sua segurança).  Exerceu influência política em seus 29 anos de papado, encontrando líderes, pregando a favor dos Direitos Humanos, entre vários outros posicionamentos.

Apesar de popular, João Paulo II foi um papa menos liberal que seus antecessores, Paulo VI e João Paulo I (que faleceu apenas 33 dias depois de eleito). João Paulo II assumiu o papado falando em continuidade, mas voltou aos conceitos mais conservadores da religião. Entre posições ainda polêmicas da Igreja, aceitou a teoria da evolução e foi o primeiro a citar Darwin em uma publicação. Defendia o diálogo da Igreja com a ciência e cultura atual, mas mantinha que a “alma espiritual foi criada por Deus”. 

Entre as decisões que não avançaram durante o papado de João Paulo II estão questões como a oposição à ordenação de mulheres e ao uso contraceptivos, por exemplo. A pior mancha, no entanto, foi ter sido lento quando surgiram as denúncias de pedofilia dentro da Igreja. Embora tenha expressado solidariedade com as vítimas e suas famílias, assim como mostrado indignação e exigido medidas drásticas, não houve punição efetiva aos abusadores em seu papado.

Sábado (16), durante as comemorações na Polônia pelo centenário, surgiu um novo documentário revelando casos de pedofilia na Igreja polonesa. “Hide and Seek’ (esconde-esconde, do inglês), conta a história dos irmãos Marek e Tomasz Sekielski, que sofreram abuso quando crianças, mas o culpado segue sem punição. O Vaticano já oficializou que vai investigar, mas a denúncia ficou como uma mancha na celebração.

Atentados, declínio da saúde, morte e beatificação

Papa João Paulo II logo após sofrer o atentado em Roma 

Papa João Paulo II logo após sofrer o atentado em Roma  (Keystone/Getty Images)

No dia 13 de maio de 1981, quando se preparava para discursar na Praça de São Pedro, no Vaticano, João Paulo II foi baleado e gravemente ferido pelo atirador turco Mehmet Ali Agca. Ele sobreviveu à cirurgia de mais de 5 horas, mas sua saúde nunca mais foi a mesma. Um ano depois do primeiro atentado, o Papa foi novamente atacado, dessa sendo esfaqueado de novo quando circulava entre os fiéis. A partir de então, o ‘papamóvel’ (como ficou conhecido o carro que circulava entre multidões) passou a ser fechado e o acesso físico ao Papa foi reduzido. Mas ele não parou de viajar ou querer estar perto das pessoas.

 (Anwar Hussein/Getty Images)

Quando assumiu o papado, aos 58 anos, João Paulo II era a imagem oposta dos seus antecessores. Esportista, fazia jogging pelos jardins do Vaticano, nadava, jogava futebol e fazia caminhadas nas montanhas. Não deixou as atividades físicas nem depois dos primeiros atentados, mas, em 1992, após a retirada de um tumor benigno do intestino, começou a mostrar maior fragilidade. Tombos que levaram a fraturas e problemas no quadril. A fala, antes clara, passou a ser arrastada. A circulação em público passou a ser mais rara. A confirmação de que ele tinha Parkinson só veio 12 anos depois. Os médicos queriam que ele parasse de viajar, mas João Paulo II se manteve firme até quanto foi possível indo aos países falar pela Igreja. Em fevereiro de 2005 uma gripe agravou o complicado quadro de saúde do Papa. Em março, bastante fragilizado, ele fez uma última aparição na janela do palácio no Vaticano. Dois dias depois, uma infecção urinária virou generalizada. Ele entrou em coma no dia 2 de abril de 2005. Segundo assessores, suas últimas palavras, ditas em polonês, teriam sido “Deixe-me partir para a casa do Pai”. Ele faleceu pouco mais de 45 dias antes de completar seus 85 anos. Em seu testamento, deixou claro que gostaria de ser enterrado em sua cidade natal, mas deixava para o Colégio dos Cardeais, que optou por enterrá-lo na Basílica de São Pedro.

Hoje considerado santo, João Paulo II foi canonizado em 2014, um tempo recorde na História da Igreja Católica.

 (Anwar Hussein/Getty Images)

Pedidos de desculpas e referência pop no Brasil

Em vida, João Paulo II fez importantes declarações em nome da Igreja Católica. Pediu desculpas às vítimas da Inquisição, das Cruzadas, pelo que os Missionários fizeram durante a colonização, aos judeus pelo Holocausto e às mulheres pelas perseguições. Foi específico em pedir perdão ao processo legal contra o cientista e filósofo italiano Galileu, ao envolvimento de católicos com a escravidão africana e às guerras religiosas durante a Reforma Protestante.

No Brasil, além de ser referência da canção e álbum do grupo Engenheiros do Hawaii (O Papa é pop), a torcida do Fluminense, no Rio de Janeiro, adotou o canto “A Benção, João de Deus” como seu hino. Entoado pela primeira vez em 1980, mesmo ano em que o Papa fez sua 1ª visita ao país, a música é como uma superstição para o time, que venceu um importante jogo contra o Vasco da Gama naquele ano. Quando a decisão do jogo foi para os pênaltis, os torcedores entoaram o canto para dar apoio ao goleiro, Paulo Goulart. Ele defendeu as cobranças e o time venceu. Foi o suficiente para nascer a superstição, especialmente porque o Fluminense foi campeão carioca naquele ano.  “Além da gente ficar empolgado com a torcida vibrando daquele jeito, eu acreditava que ia ser ajudado. Aquela música me dava confiança”,  disse o ex-goleiro tricolor ao GloboEsporte.com. O filho dele, nascido em 1982, se chama João Paulo em homenagem ao Papa.

Em homenagem ao centenário de João Paulo II, o Papa emérito, Bento XVI, que raramente se manifesta, escreveu em defesa do antecessor.  “Ao contrário do que às vezes se diz, João Paulo II não é um rigorista da moral. Ao demonstrar a importância essencial da misericórdia divina, ele nos dá a oportunidade de aceitar as exigências morais colocadas ao homem, ainda que nunca poderemos satisfazê-las plenamente. Os nossos esforços morais são empreendidos à luz da misericórdia de Deus, que se revela uma força que cura a nossa fraqueza”, ele escreveu.

O Papa Francisco fará no dia do aniversário, segunda (18), uma mensagem de vídeo que será transmitida pela televisão polonesa.

 (Tim Graham/Getty Images)

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