Do sonho à realidade: Thaynara OG mostra como foi planejar a sua primeira casa
Em São Luís (MA), influenciadora conta como transformou o sonho da primeira casa em um projeto feito inteiramente à sua maneira
Durante muito tempo, Thaynara OG guardou coisas que ainda não tinham lugar. Quadros de artistas maranhenses, objetos ligados à cultura popular, presentes de fãs e lembranças de viagens foram se acumulando enquanto ela ainda vivia com os pais, em São Luís. Havia, entre esses objetos, coisas que ela já sabia que um dia gostaria de ver expostas. Faltava apenas a casa. “Eu estava vivendo praticamente como uma acumuladora”, dá risada. “Ganhava muita coisa, mas não tinha onde colocar por ainda morar com meus pais. Quando conquistei meu apartamento, já fui imaginando o espaço onde ficaria cada objeto”, conta.
A vontade de ter um lugar só seu apareceu com mais força durante a pandemia, quando a casa da família passou a funcionar também como ambiente de trabalho. Thaynara comandava o TVZ Ao Vivo, no Multishow, fazia campanhas e precisava montar cenários para produzir conteúdo sem sair de casa. Foi nesse período que percebeu que precisava de um lugar que acompanhasse sua rotina. O imóvel dos sonhos, porém, tratava-se de um esqueleto: com laje descoberta, sem piso, eletricidade ou divisões internas. O que existia era a paisagem lá fora: o mar, a agitação da cidade e o vento. “O apartamento estava ‘no osso’, era só um galpão, mas o que chamou minha atenção foi a vista. Naquela época não havia muitos prédios com vista para o mar e também para o centro histórico de São Luís. E o vento é uma coisa que mexe muito comigo”, diz. A escolha significava assumir uma obra sem nunca ter passado por uma reforma. Mas também oferecia algo que os apartamentos prontos que havia visitado não tinham: a possibilidade de decidir tudo.
Thaynara queria uma sala grande, um estúdio, um camarim e ambientes que fizessem sentido para sua rotina. “Ao mesmo tempo em que me deu medo, fiquei muito curiosa. Era a oportunidade de construir um apartamento do jeito que eu queria.” O esboço do projeto com o escritório MC+ Arquitetos levou quatro meses. A obra, iniciada depois, seria ainda mais longa e cheia de imprevistos. Impermeabilização e soluções criativas interromperam etapas, enquanto o tão desejado forro de bambu exigiu uma busca específica por mão de obra. Thaynara acompanhou tudo de perto, aprendendo no processo.
Um gosto em construção
Na decoração, ela partiu de um repertório intuitivo. Não sabia os nomes dos materiais que gostava, mas tinha imagens salvas de ambientes, revestimentos e móveis que havia encontrado pelo caminho. Os arquitetos ajudaram a organizar essas referências e, ao longo do projeto, foi entendendo que já tinha um gosto bastante definido, ainda que não soubesse traduzi-lo. A madeira apareceu desde o começo e a luz abundante do apartamento também influenciou as escolhas. As cores ficaram nos pontos em que ela se sentia mais segura: um sofá verde, cadeiras vinho, obras de arte e o mármore Verde Guatemala. A pedra, que havia visto em viagens, ficou na memória até ganhar endereço. “Esse foi o ponto de partida, ter sempre uma cor mais neutra como base e o que vai dando mais vida é uma obra de arte, um objeto de decoração, um sofá, uma pedra. Porque se lá na frente eu enjoar, é possível trocar com mais facilidade”, explica.
Entre as peças estão cerâmicas de artesãs quilombolas da Associação de Mulheres de Itamatatiua e trabalhos de diferentes regiões do Maranhão. Thaynara gosta especialmente de artesanato. Não costuma procurar antiquários, mas presta atenção às peças produzidas manualmente durante suas viagens pelo estado. Em Barreirinhas, observa trabalhos feitos com fibra de buriti; em Imperatriz, conheceu o Centro Cultural Tatajuba, ligado ao apoio às artesãs, de onde levou uma peça feita com semente de açaí e fibra de buriti. “Eu adoro entrar numa lojinha, ver as artesãs tingindo a fibra de buriti, fazendo um jogo americano, um centro de mesa. Eu piro!” Uma corrente artesanal comprada em Imperatriz passou um tempo esperando até encontrar espaço no lavabo. “Minha casa já tem muita coisa, então quando me apaixono por algo, preciso já saber onde vou colocar.”
Um lar em São Luís
A escolha da capital maranhense como base acompanha uma decisão que Thaynara nunca precisou questionar. Sua carreira a levou para outros lugares, especialmente São Paulo, onde mantém outro apartamento para facilitar a rotina profissional. Ainda assim, é no Maranhão que está a casa para a qual ela quer voltar, perto da família e das referências que fazem parte de sua história. “Nunca tive dúvidas de que queria estar baseasa aqui em São Luís, tanto é que hoje eu tenho um apartamento em São Paulo, todo decorado, mas é um espaço para eu não ficar sempre nessa relação impessoal de me hospedar em hotel. Para mim é essencial recarregar as energias com minha família aqui e construir lembranças. Não me arrependo de escolher esse lugar como base, mesmo nessa dinâmica de sempre estar viajando.” É uma relação que aparece na própria arquitetura.
O lavabo foi pensado a partir do pôr do sol e do mar da cidade. Há uma tela tensionada, um espelho arredondado e iluminação alaranjada. No corredor, fica a tocha olímpica de quando participou do revezamento da pira em São Luís. No estúdio, entre as lembranças da carreira, está o celular que marcou seu surgimento no Snapchat. Antes, Thaynara não tinha o hábito de receber amigos na casa dos pais, mas costumava observar e guardar referências. Um dos sonhos que trouxe para o novo apartamento foi passar o Natal ali. Em 2024, decorou a sala e recebeu cerca de 40 parentes. A churrasqueira a carvão, escolha pela qual precisou insistir durante a obra, também ganhou uso nos encontros.
A relação com o Maranhão deixou de ser apenas uma questão de origem à medida que sua carreira cresceu. Ela começou a receber mensagens de seguidores que conheciam os Lençóis Maranhenses por suas indicações, pediam dicas ou viajavam para o estado depois de acompanhar seu conteúdo. Uma seguidora do Japão chegou a ir ao São João da Thay, em 2018. Foi quando ela começou a perceber a dimensão desse vínculo. “Fiquei chocada, porque, estando tão longe, é algo que você precisa se planejar, dedicar tempo e se deslocar fisicamente.”
O projeto, considerado um dos maiores eventos de influenciadores do país, passou a ser também uma maneira de levar atenção a outras partes do estado. A 8ª edição, realizada este ano, levou convidados para explorarem o Sul do Maranhão, com foco na Chapada das Mesas. Na casa, a relação com o evento aparece em peças que carregam referências estaduais, como o look usado por Thaynara em 2022, em homenagem à bandeira maranhense, hoje emoldurado na decoração.
Fazer sozinha
Depois de tudo pronto, a casa passou a oferecer algo que ela não esperava encontrar: um espaço para ficar só. A sala de banho, com som e automação, virou um dos lugares favoritos. A moradora também passa bastante tempo no camarim, onde se arruma para gravações, faz malas ou lê um livro — o último foi A Cabeça do Santo, de Socorro Acioli. É uma mudança para quem passou tanto tempo cercada de pessoas. A família mora perto, a casa está frequentemente cheia, mas os momentos de silêncio ganharam sentido. “Eu passei a dar muito valor a ficar sozinha”, conta. A reforma ainda guarda uma conquista particular. Seu pai, embora incentivasse seus sonhos, achava que ela deveria comprar um apartamento pronto. Hoje, ele aproveita os espaços sobre os quais tinha dúvidas.
Quando a proprietária finalmente entrou no apartamento pronto, o sentimento foi de surpresa. “Me lembro que a reação foi de ‘gente, eu não acredito que essa casa é minha’, porque estava tudo do jeito que sonhei durante muito tempo.” Aos 34 anos, percebeu que havia feito sozinha algo que muitas amigas vivenciaram depois do casamento, dividindo decisões com seus parceiros. Ela não esperou por essa etapa: procurou profissionais e resolveu problemas que apareceram. “Eu tive a coragem de fazer isso aqui sozinha, sem entender nada, com o meu pai temendo que não ia dar certo e eu não esperei ter um parceiro para dar apoio moral ou pegar na minha mão. Fui com a cara e a coragem, isso me deu tanto orgulho, foi até um processo de empoderamento. Me senti uma adulta funcional com diploma por não ter esperado outra fase para fazer acontecer. Até queria ter um marido para falar: ‘Resolve’. Mas eu tinha que resolver por mim mesma.”
A casa que começou como uma necessidade prática acabou reunindo as referências que encontrou pelo caminho, os objetos que guardou, a carreira na internet, a relação com o Maranhão e a vontade de ter um lugar que fosse seu. São Luís continuou sendo a base, enquanto a casa passou a funcionar como uma espécie de ponto de retorno — para a família, para o trabalho e também para ela mesma. “Fico ainda mais ansiosa para chegar em casa, ser abraçada por ela, ter um tempo sozinha. Os momentos ficam mais prazerosos. Eu nunca normalizei o chegar em casa, nunca virou automático. Até converso com ela, ‘ai, minha casa, que saudade’. Até hoje sinto uma ansiedade de voltar para cá”, finaliza.
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