A verdade incômoda por trás de Tremembé: quando o entretenimento reabre feridas reais
Especialistas explicam as razões por trás do fascínio por criminosos, despertados por obras como Tremembé, e os impactos para quem viveu a tragédia na pele
Retratos da vida atrás das grades e dos bastidores de crimes hediondos, embalados por trilhas sonoras marcantes e fotografia cuidadosamente produzida, tomaram conta das plataformas de streaming nas últimas semanas. Na lista, a série Tremembé (Prime Video), baseada nos livros do jornalista Ulisses Campbell, se destaca entre as produções que conquistaram milhares de espectadores e, sem grandes contrapartidas, reacenderam o debate sobre os limites do fascínio por esses casos.
Mas por trás desse interesse coletivo sobre crimes midiatizados, há quem reviva dores que jamais se encerraram. São as famílias das vítimas que, a cada novo episódio ou produção divulgada, sofrem com loopings de lembranças e exposições públicas que as impede de lidar com o luto dignamente.
A seguir, entenda as motivações que levam à idolatria de criminosos e os impactos do gênero true crime em quem nunca pôde se desligar da tragédia.
Empatia por criminosos
Em Tremembé, cada episódio começa com um resumo do que fez cada criminoso. O que chama atenção — e diferencia essa narrativa das demais — é que, ali, o ponto de vista de quem cometeu o crime também é posto em jogo. Assim, séries como esta retratam histórias cruéis sob um viés humanizado, gerando uma empatia ambígua em quem as assiste.
“Isso não significa concordar com o crime, mas compreender a razão e o contexto que o motivou”, diz Cíntia Sayd, Médica Psiquiatra, Especialista pela Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) e pelo Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp).
Essa empatia parte também da identificação. É o que explica a psicóloga Forense Patricia Barazetti: “Quando o criminoso ganha rosto e história, o público percebe que o limite entre o ‘eu’ e o ‘outro’ é quase invisível. E talvez isso seja mais assustador do que o crime em si”.
A linha tênue que separa a empatia da glamourização
Mas a linha entre humanizar e glamourizar é tênue. “Quando criminosos são interpretados por atores carismáticos, populares e atraentes — como Zac Efron no papel de Ted Bundy, ou outros artistas que conferem certa ‘normalidade’ a esses personagens —, o impacto na percepção do público é significativo. Isso pode, sim, facilitar a identificação e até, de forma perigosa, contribuir para a normalização de comportamentos violentos”, explica a psiquiatra.
Ela ainda diz que, desta forma, a série desafia nossa expectativa de que pessoas más parecem más, levando a uma percepção distorcida que pode desencadear a glamourização do criminoso.
“A crueldade do ato pode ser suavizada pela fachada agradável do ator ou pela construção de um personagem, tornando-o um ‘anti-herói’ complexo, em vez de um indivíduo que causou dor e destruição. A arte tem um poder imenso de moldar percepções, e é crucial que a ética na representação seja sempre questionada.”
Essa preocupação também é compartilhada por Ana Carolina Oliveira, mãe de Isabella Nardoni, vítima de um dos crimes retratados na série. Em postagem nas redes sociais, ela destacou o risco da idolatria de criminosos.
“O que me preocupa nessas questões é trazer criminosos para os holofotes e tratar como se eles fossem celebridades e não com a seriedade de cada caso”, apontou.
Já a escritora Paula Febbe, especialista em narrativas de horror e comportamento, vê a questão por outro ângulo. “Acredito que ‘glamourização’ seja um termo pejorativo. O ser humano sempre sentiu curiosidade pela violência e pelos seres violentos, caso contrário, vilões não seriam tão adorados, muitas vezes até mais do que heróis.”
Paula ainda ressalta que obras do gênero expõem um lado humano que é travado pela moral, pela convivência em sociedade e pelo afeto que sentimos pelos outros. “Gostar de True Crime não significa que o espectador queira ser o assassino ou fazer o que ele fez. Às vezes, o fascínio vem exatamente pela pessoa ser tudo o que você não gostaria de ser, ou pela curiosidade que temos por aquilo que é absurdo”, reforça.
Por trás das cortinas do fascínio pelo horror
O interesse por casos de crimes reais não é novo, nem a romantização deles. Vale resgatar um fato histórico: o casal Bonnie Parker e Clyde Barrow, responsáveis por roubos de bancos e assassinatos em meados de 1930, foram romantizados pela mídia, que os apresentou como amantes rebeldes contra um sistema opressor.
Apesar da violência brutal de seus atos, não demorou muito para que a sociedade transformasse eles em lendas, cujas histórias são contadas e recontadas até hoje.
Mas muito além da curiosidade de entender “como” e “por que” aconteceram tais casos, quem assiste também busca por uma forma de lidar com o desconhecido, mesmo sem ter a intenção. Cintia conta que existem vários fatores psicológicos em jogo, como:
- A necessidade de compreender o incompreensível: somos seres que buscam sentido e ordem. O crime, especialmente o mais brutal, desafia essa ordem e nos confronta com o lado mais sombrio da psique humana. Tentar entender o “porquê” – a motivação, o processo mental – é uma forma de tentar restaurar um senso de controle sobre o caos;
- Aprendizado e sobrevivência: consumir essas histórias permite aprender sobre perigos e estratégias de defesa sem se expor ao risco.
- Busca por emoções fortes e a liberação da tensão: o true crime proporciona uma descarga de adrenalina e emoções intensas de forma segura. O conjunto de tensão, mistério e suspense nos permite sentir medo e alívio sem, de fato, sofrer consequências diretas;
- Percepção de Justiça: acompanhar a resolução de um caso, ver o culpado ser responsabilizado (ou a falha do sistema em fazê-lo) pode satisfazer nossa necessidade intrínseca de equidade.
Para o sociólogo Luciano Gomes dos Santos, assistir, ler ou ouvir sobre violência é, de certo modo, tentar domesticá-la ou torná-la inteligível.
“Quando o horror ganha forma narrativa, o medo se transforma em experiência estética: algo que podemos observar sem estar diretamente envolvidos. É aí que o drama humano perde sua espessura moral e se torna apenas mais um episódio entre tantos outros.”
O impacto invisível das vítimas secundárias
Para além do trauma individual, o sofrimento das famílias também revela uma lacuna ética nas produções do gênero. A falta de regulação sobre o uso de nomes, imagens e histórias pessoais faz com que o entretenimento avance sobre territórios sensíveis.
“Cada nova produção, cada nova discussão online, cada ‘fã’ do criminoso equivale a reviver o dia do crime repetidamente”, diz a psiquiatra. Tal exposição constante da dor mais íntima, inclusive, pode gerar sintomas de TEPT (Transtorno de Estresse Pós-Traumático), flashbacks, pesadelos, ansiedade severa e hipervigilância.
Prova disso é que Ana Carolina, a mãe de Nardoni, optou por não assistir à série. “É algo que conta a minha história, mas uma coisa sou eu falar sobre a minha filha, sobre minha história e o que vivi. Outra coisa é como se eu vivenciasse a cena do crime. Então, existe uma grande distância e um cuidado que eu quero ter com a minha saúde mental”, contou.
O luto interrompido
A dor presente no comentário da mãe mostra como as consequências se ampliam quando atingem também aqueles que ainda vivem o luto na própria pele.
“O que para o público é apenas uma história instigante, para essas pessoas é a memória viva de uma perda irreparável. As narrativas midiáticas podem distorcer fatos, simplificar emoções e até violar o direito ao esquecimento. Assim, os entes queridos acabam presos em um ciclo de lembranças e exposições públicas que os impede de elaborar o luto.”
Por outro lado, há também quem analise a popularização do crime como uma forma de mercantilizar o sofrimento do próximo. “A dor se torna um produto de catálogo, disponível a qualquer hora. Para os familiares, assistir à apropriação pública desse sentimento tão íntimo pode significar reviver o trauma sob uma nova forma, ou seja, a da mercantilização do sofrimento”, declara o sociólogo.
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