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Livro “Viver uma vida feminista” transforma em guia o cotidiano feminista

Escrito pela anglo-australiana Sara Ahmed, a publicação carrega uma linguagem acessível e exemplos cotidianos para deixar clara a importância do feminismo

Por Paula Jacob
24 ago 2022, 08h58

São incontáveis os livros sobre feminismo publicados nos últimos anos no Brasil. E que bom: quanto mais vozes de diferentes campos de estudo e referências tomarem conta das livrarias e estantes de casa, melhor. Mas, dentro desse contexto, sempre vale fazer uma curadoria do que vale realmente a pena ler (e reler e presentear). Caso do ótimo Viver uma Vida Feminista (Ubu, R$ 79,20), escrito pela anglo-australiana Sara Ahmed — ele é o livro de agosto do circuito de leitura da CLAUDIA com a Gato Sem Rabo.

A premissa é bem simples: como é ser uma feminista hoje? Quais são as causas mais urgentes de se resolver? Como combater o sexismo no dia a dia? Ou antes de tudo isso: o que você entende pela palavra feminismo? Dividido em três partes + duas conclusões, o livro perpassa por questões das mais básicas, tipo equidade de direitos e deveres dentro e fora de casa, até as causas mais profundas que misturam temáticas interseccionais (gênero, raça e classe). Mas o que difere este livro de outros sobre o assunto é o jeito que ele é organizado conceitual e verbalmente. 

Apesar da autora ser uma pesquisadora e ativista, com um currículo bastante extenso, ela traz para o dia a dia a visão de “viver essa vida feminista”. Aquele comentário que precisa ser rebatido no almoço em família, aquele comportamento do amigo hétero que não pode mais se repetir, aqueles abusos que atravessam nossos corpos diariamente sem pedir licença. “A experiência de ser feminista é a experiência de estar fora de sintonia com as outras pessoas”, escreve ela na página 74, justamente para falar sobre esse sentimento de não pertencimento, já que ir contra um sistema intrínseco e estruturante da sociedade é exaustivo e, muitas vezes, solitário. 

Sara Ahmed, autora do livro
(Ubu/Divulgação)

Talvez uma das coisas mais importantes do livro seja o fato de que Sara o tempo todo nos faz lembrar que nomear o assédio, o abuso, o machismo, o racismo e o que quer que seja coloca forma em algo que antes era apenas um desconforto no lugar do sensorial. “Nos tornamos um problema quando descrevemos um problema.” A partir daí, o caminho de entendimento do que é viver em um corpo constantemente ameaçado por apenas existir fica mais fácil. E não só no lugar da violência física e verbal, mas dos sonhos, do que almejamos de nossas trajetórias. Para isso, ela recorre ao clássico Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf, para mostrar que a felicidade não é um objetivo final da vida, e sim um caminho. No caso da personagem de Woolf, o casamento, os filhos e agora? “O dia de seu casamento é imaginado como o ‘dia mais feliz de sua vida’ antes mesmo de acontecer. Talvez esse ‘antes’ também seja como e por quê: como o dia acontece; por que acontece.”

Mais do que uma tentativa de lacre (grande problema das “militâncias” de redes sociais), Sara Ahmed quer colocar os leitores num lugar de empatia, de questionamento, de auto reflexão, de movimento. Ela brinca com uma persona que entitula “feminista estraga-prazeres” — “talvez você seja chamada de estraga-prazeres só por não querer o que as outras pessoas querem que você queira” (lembra do ir contra a maré?) — para exemplificar todas as vezes que mulheres conscientes de seus corpos num contexto patriarcal são chamadas a atenção justamente por questionar certos comportamentos. Então, no fim, somos estraga-prazeres porque é melhor ficar calada? Para o sistema, claro que sim. 

E, assim como Ahmed diz e repete também ao longo do livro, está tudo bem se você quiser ser isso ou aquilo, seguir um modelo de vida “padrão”, desde que você o faça com consciência e não por comportamento de manada. Quantas vezes nos deram a chance de refletir sobre nossos desejos de futuro sem antes colocarem rédeas porque nem todo o caminho é para mulheres seguirem? Pois bem.

O feminismo precisa ser interseccional

Ok, tudo isso é muito incrível nas palavras e exemplos da autora, mas a pauta feminista precisa ser interseccional com raça, com gênero, com classe, com orientação sexual, com maternidade, com sustentabilidade, com tudo. Enquanto compartimentarmos as pautas, não avançaremos em mudanças significativas e Sara deixa isso muito claro. A segunda parte do livro é totalmente dedicada aos exemplos de diversidade em vários contextos, principalmente no trabalho e no espaço acadêmico (da primeira infância a academia). Contudo, ela ressalta um ponto de extrema delicadeza: não é porque o sistema foi uma vez desbloqueado que ele nunca vai voltar “ao normal”, ou ainda: não vai dar um jeito de usar esse desbloqueio como ferramenta para maquiar um falso avanço. Difícil, né?

Nas palavras dela, “nossos esforços para transformar instituições podem ser ser usados por instituições como evidência de que foram transformadas”. Por isso, o trabalho é tão cansativo, porque, basicamente, é eterno (se continuarmos nessa toada em que vivemos). E nada de usar isso como argumento para não criar suas micropolíticas (ou macro, dependendo da área de atuação), caso contrário, só irá caminhar para o lugar da hipocrisia. “Quanto mais um corpo sustenta uma ação, menos esforço consciente é necessário para provocar algo.”

A conclusão, muito bem amarrada por Sara Ahmed, vem para elucidar as consequências de ser uma pessoa feminista hoje. Como lidar com isso no dia a dia? Ela vai pelo caminho da fragilidade e da vulnerabilidade para dizer ao leitor que é um constante trabalho de formiguinha — que, muitas vezes, vai se repetir ao longo da vida, com exemplos quase iguais. Cansa tentar colocar os cacos no lugar? Sim. Está tudo bem não se cobrar o tempo todo para ser a feminista “ideal”? Também. Por isso, vejo Viver uma Vida Feminista como uma oportunidade empática de se envolver com a causa, sem adicionar mais uma cobrança em cima das tantas outras que já carregamos apenas por existirmos. Vale (e muito!) a leitura.

 

Circuito de Leitura de Escritos de Mulheres – Viver uma Vida Feminista
Onde: Gato Sem Rabo
Endereço: Rua Amaral Gurgel, 352, Vila Buarque, São Paulo (SP)
Horário: 19h
Entrada: gratuita, sujeito à lotação

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