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Entre Linhas, por Nara Vidal

Nara Vidal é autora dos romances “Eva” e “Sorte”, e do livro de contos “Mapas para Desaparecer”. Nascida em Guarani (MG), ela é formada em letras pela UFRJ com mestrado em artes e herança cultural pela London Met University. Direto de Londres, escreve para CLAUDIA sobre as múltiplas experiências da vivência feminina.
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Temos que rever a velha ideia de odiar o ex

Eu vivi quinze anos casada com uma pessoa a quem meus filhos chamam de pai — e não há qualquer motivo para nos afastarmos

Por Nara Vidal
28 dez 2022, 08h22

Meu primeiro texto aqui na Claudia online foi bastante íntimo, para os meus padrões. E, claro, não foi nem um pouco gratuito. Quando falei da quebra da convenção na minha rotina, e a adoção de uma configuração não tão usual de família, eu trouxe o leitor para um pedaço da minha casa. Também defendi e continuo defendendo o formato tão novo para mim, para os que moram comigo. Mas, com o caminhar dos dias, a gente começa a notar que não basta uma atitude tomada e pronto. As pessoas à nossa volta começam a se colocar de acordo com o que são. E as pessoas são muitas coisas. É fascinante ver suas reações quando sabem que eu e o pai dos meus filhos moramos juntos, mas não somos um casal.

Pegamos o tópico namoro, por exemplo. Quem quer que seja ou venha a ser meu namorado não tem escolha a não ser aceitar a organização das coisas como são, assim, inusitadas. Não há espaço para negociar. Eu venho com uma bagagem que não se encaixa numa mala retangular. Venho com filhos e com ex-marido que moram comigo e que é muito, muito meu amigo. Para falar a verdade, ele é a minha família aqui em Londres. E quando eu paro para pensar, sinto orgulho de ter acertado nessa escolha: um homem bacana, generoso, gente boa e um pai, sinceramente, incrível. 

Mas como é para quem chega nas nossas vidas a partir daí? Como se sente um pretendente, um amante, um namorado, um caso quando ouve que, sim, moramos juntos e não temos planos de nos separar ou mudar de casa, por enquanto? É pegar ou largar. 

Nem sempre as coisas são assim, diretas, claras e sem rodeios. Às vezes, as coisas apresentam camadas que, quem diria, com toda a modernidade proclamada, não se sustentam na prática. Quando informamos nossos amigos mais próximos do novo modelo de vida, alguns nos apoiaram, outros disseram que era um período e que deveríamos abrir o casamento por alguns meses e tudo melhoraria. Algumas críticas explicavam que casamento não é um mar de rosas e que a vida é assim mesmo; a gente que lide. Houve amigos que se afastaram, especialmente, de mim. Uma conhecida chegou a me dizer que, sem um par, eu acabava sendo vista como solteira e disponível e isso criava uma certa tensão entre os casais. Ainda que eu tenha me surpreendido com esses comportamentos, eu entendo, agora, que já me distanciei daquele momento, que as pessoas não podem dar o que não têm. E restaram com a gente os que nos entendem e nos apoiam. 

Ainda que entre nós as coisas estejam muito bem resolvidas, a partir do momento que outras pessoas se aproximam, há alguns obstáculos. Outro dia, saí com o pai dos meus filhos para uma caminhada. Começamos a abordar o assunto namoro a partir de então, da separação. Falamos das novas experiências, expectativas, do que pretendemos fazer de diferente nos novos relacionamentos. Falamos das dificuldades e nesse grupo de dificuldades há algo que me escapa e que desafia a minha capacidade de compreensão: como é possível que as pessoas não se importem em se relacionar com alguém que tem uma relação tóxica com o ex-companheiro ou a ex-companheira? Por que, se dissermos que odiamos o ex, as pessoas se sentem mais tranquilas? Por que se dissermos que gostamos um do outro, dividimos o mesmo espaço e mantemos uma relação sadia e de amizade, as pessoas se assustam e vão embora?

Ainda que eu imagine saber a resposta, gostaria de refletir sobre a insegurança das pessoas e sobre a convenção imposta nos relacionamentos e seus términos. Eu vivi quinze anos casada com uma pessoa a quem meus filhos chamam de pai. Um homem que continua me respeitando, que quer nada mais que o melhor para mim. Não há qualquer motivo para nos afastarmos. Se ele me odiasse, não falasse comigo, não conseguisse me olhar nos olhos, se ressentisse, aí seria uma tristeza muito grande para nós e para os nossos filhos. Que pena quando um relacionamento entre pais acaba dessa forma. Ainda assim, há quem prefira se relacionar com pessoas que não suportam seus ex-parceiros. De onde virá esse comportamento que prefere uma má relação do outro ao convívio saudável e civilizado? O exercício do amor e do respeito é mesmo difícil e dá trabalho.

A cada dia neste formato de vida, tenho mais segurança de que as convenções não me servem. E a constatação mais libertadora é que quem não questiona essas convenções, muito provavelmente, também não nos serve. 

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