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Crônicas de Mãe

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Em primeira pessoa, mães compartilham histórias reais sobre os desafios, as descobertas e os encontros que transformam a maternidade.

Belezas ensinadas: “amaternei” sendo “amaternada”

Descobri o óbvio com a experiência: a criança é apenas uma promessa enquanto não é real

Por Ana Carolina Coelho 11 fev 2021, 09h00 | Atualizado em 4 jun 2026, 14h30
maternidade
 (Tatyana Antusenok/Getty Images)
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Belezas ensinadas: “amaternei” sendo “amaternada” Priorizar nos meus resultados Google

Quando eu soube que estava grávida, pela segunda vez, e a gravidez foi chegando ao final, eu fui me permitindo lentamente sonhar em como seria a vida com uma filha. E, obviamente, eu fiz uma lista de brincadeiras, atividades e habilidades que eu queria que minha criança aprendesse.

Eu sabia EXATAMENTE que tipos de filmes e músicas iriamos ouvir e ver. Eu tinha toda nossa vida planejada na minha cabeça. Eu sabia TOTALMENTE o que eu NUNCA faria com a minha filha. Essa lista foi refeita no primeiro mês de vida da minha neném; no segundo; no terceiro, e assim foi até o primeiro aniversário, quando eu rasguei todas as versões em tantos pedaços quanto estavam as minhas expectativas de que eu seria a “mãe perfeita”.

Essa lista mora agora na “lixeira” da estupidez da naturalização da maternidade: de que eu saberia TUDO e nunca teria dúvidas sobre como agir ou o que fazer em relação ao maternar. 

Eu descobri o óbvio com a experiência: a criança é apenas uma promessa enquanto não é real. E que embora a minha função seja ensinar-lhe sobre a vida, ela terá uma maneira singular de entender o mundo. Muitas vezes, ao longo dos anos, fui surpreendida com as opiniões incisivas e diferentes de minha filha – e são muitas, acreditem – outras com apenas um olhar diferente sobre algo que eu não tinha reparado. Eu igualmente descobri que maternar é uma troca constante.

Há alguns anos atrás, tivemos um momento de troca muito forte e significativo aqui em casa. Eu fui uma criança gorda. E, conforme me tornei adulta, tive vários formatos de corpos, por razões variadas. Naquele ano eu estava perdendo peso e uma monitora de uma das escolas em que minha filha estudou, na entrada da aula, disse-me que eu estava “ficando linda”, em uma tentativa do que se pode chamar de elogio em uma sociedade gordofóbica. Como eu estava atrasada, nada falei.

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Alguns dias depois, estávamos assistindo TV – um programa de noivas que eu detesto e minha pequena adora (fazer o que?) – e ela declara: “essa mulher é muito feia!” A moça em questão era muito bonita mas…era gorda. Eu olhei para minha filha e disse: “o que ela tem que você acha feio?” e ela, na hora, sem titubear, respondeu: “Ela é gorda demais, mãe!”. No segundo em que as palavras foram proferidas, eu disse: “Filha, a sua mãe é gorda demais. Eu sou feia?” e ela respondeu: “Mãe, VOCÊ não é gorda e claro que você é linda!”

Eu me levantei, tirei minha roupa e completamente nua disse: “Olha para o corpo da mamãe. Ser gorda significa que eu tenho gordura no corpo e esse formato aqui ou aquele ali da TV, é um formato mais cheio. EU SOU GORDA SIM.” E minha filha respondeu: “Mas você é linda, mamãe!” 

E eu entendi a confusão: minha doce criança estava reproduzindo as normas aprendidas fora de casa sobre beleza. À essa altura, lágrimas escorriam de mim e o tempo se dissolveu. A criança gorda tão ferida com os comentários maldosos e a falta de amor porque tinha um formato de corpo que a desqualificava a ser uma “criança bonita”, guardada dentro de mim, foi abraçada pela primeira vez, por outra criança.

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Eu fui, tanto anos depois, acolhida e amada e algo dentro de mim foi, aos poucos, se curando. O mundo tentou ensinar preconceito para minha pequena e ela devolveu com o amor puro e cheio de ternura tão próprios da minha Clara Rosa.

Ato contínuo a esse abraço que durou segundos e curou décadas de tristeza e sofrimentos, ela olhou para a TV e disse: “A moça é bonita mesmo, igual a você. Você tem razão, mãe!” Naquele dia, eu ensinei e aprendi. Eu “amaternei” sendo “amaternada” em minhas cicatrizes de uma sociedade cujos padrões de aceitação são cuidadosamente desenhados para o reforço das nossas inseguranças como mulheres. 

Maternar é aprender, na prática, a famosa frase de Nelson Mandela “Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, por sua origem ou ainda por sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender, e se podem aprender a odiar, elas podem ser ensinadas a amar.”

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Evidentemente, aproveitei essa experiência para muitas outras conversas que foram surgindo sobre belezas, preconceitos de gênero, classe, raça e orientação sexual, dentre outros preconceitos que existem em nosso mundo. E, talvez o mais interessante foi entender que eram realmente diálogos: a minha flor encantada do Cerrado tinha e continua tendo, opinião própria para todos esses temas!!! 

A maternidade é algo confuso, cansativo e árduo.  Nenhuma lista consegue dar conta do recado e eu, na maior parte das vezes, termino os dias exausta. É um cansaço divertido e amoroso da qual eu me canso e me renovo todos os dias. E cada vez mais, vou sendo apenas eu mesma – cheia de defeitos, imperfeições e humanidade – aproveitando a bagunça que é o convívio com essas pequenas humanas maravilhosas cheias de vontades e com corações do tamanho do Universo. 

Vamos conversar?

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Se quiser entrar em contato comigo, Ana Carolina Coelho, mande um e-mail para:

ana.cronicasdemae@gmail.com

Instagram: @anacarolinacoelho79

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