Dumb home: a tendência de casas que renunciam à tecnologia
Buscando uma desintoxicação digital, casas analógicas vêm ganhando atenção nas redes sociais; conheça a tendência
É difícil imaginar um mundo onde nossas casas estão livres de tecnologia: televisores, aparelhos de som, assistentes eletrônicos e, inclusive, relógios permeiam a maior parte da extensão do lar.
Em paralelo, cada vez mais se analisam os efeitos do uso frequente de aparelhos eletrônicos. Segundo pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), por exemplo, o uso excessivo de telas está ligado a uma piora da saúde mental.
Com isso, uma nova tendência de reconexão com a natureza vem dominando as redes: as chamadas ‘dumb homes’ (em tradução literal, casas burras). Elas se referem a residências com presença reduzida – ou nula – de aparelhos eletrônicos, criando um espaço analógico e próprio para a desintoxicação digital.
O que é uma dumb home?
As dumb homes são mais do que uma simples redução da presença de aparelhos eletrônicos no lar, sendo uma maneira de reconectar o morar com a natureza.
Mas, apesar de se pautar na renúncia à tecnologia, isto não quer dizer que esta precisa ser totalmente nula – afinal, atualmente seria quase impossível se abster completamente dos eletrônicos, especialmente no lar. Então, o que é uma dumb home na prática?
Trata-se de casas nas quais a tecnologia não domina a experiência do morar, aparecendo de forma discreta, pontual e inteligente.
“Eu enxergo a casa como um refúgio. É clichê falar isso, mas é verdade. A casa é o lugar onde você desacelera, baixa o estímulo e se reconecta. Quando ela fica tecnológica demais, começa a reproduzir a mesma lógica de excesso que a gente já vive fora dela”, diz o arquiteto Felipe Carolo, do escritório homônimo.
Para o profissional, as dumb homes vem ganhando potência justamente pelo excesso das telas no dia a dia e o aumento das smart homes – isto é, casas automatizadas com dispositivos eletrônicos – mas não são uma completa oposição.
Segundo a arquiteta Patrícia Bergantin, do escritório homônimo, o que nasceu com a ideia de simplificar o dia a dia, começou a mostrar complexidade nos sistemas e dependência tecnológica, onde se um sistema para de funcionar todos os outros também não funcionam.
“Isso gera uma ansiedade que nos leva a uma nostalgia e à valorização do é simples”, acrescenta.
A busca por casas analógicas também está associada ao crescimento do slow living, que propõe desacelerar o ritmo frenético da vida moderna.
Assim, estas buscam uma estética calma e com menos ruído visual, criando um efeito de naturalidade. Isso, porém, não significa que a residência precise adotar necessariamente o minimalismo, apenas deve pensar no equilíbrio.
Benefícios de adotar uma dumb home
Não é segredo que a presença e o uso de aparelhos eletrônicos possuem uma série de efeitos.
Segundo pesquisa publicada no Journal of Integrative Neuroscience em 2022, o tempo de tela excessivo pode ter efeitos negativos na atenção, concentração, aprendizagem, memória, regulação emocional e o funcionamento social, assim como pode levar ao desenvolvimento de distúrbios mentais.
Para a filosofia chinesa do Feng Shui, por exemplo, a presença de aparelhos eletrônicos no quarto aumenta o potencial yang-dinâmico, impedindo o descanso adequado e podendo levar a problemas como insônia.
No caso das dumb homes, a redução de eletrônicos no lar também pode trazer uma série de benefícios.
Reduzir a presença de tecnologia ajuda a diminuir ruído visual, excesso de informação e dependência de tela, segundo explica o arquiteto Felipe Carolo.
“Isso muda a forma como você vive o espaço. Você circula mais, percebe mais a luz, a matéria, o tempo da casa. A tecnologia me interessa quando ela atua quase em silêncio, a favor do conforto e até do ritmo circadiano”, pontua.
Como aderir à tendência das dumb homes
Pensar na eliminação total da tecnologia no lar seria, de certa forma, uma utopia. As dumb homes não pedem pela retirada total e sim uma redução feita com inteligência e planejamento.
Neste caso, esqueça das tecnologias que precisam, obrigatoriamente, passar pelos comandos do celular. Opte, por exemplo, por cortinas e luminárias controladas por botões minimalistas.
“Outra questão importante é ocultar melhor o que precisa existir. Cabos, bases, equipamentos e telas em excesso geram muito ruído visual. Uma marcenaria bem pensada resolve isso muito bem”, sugere Felipe.
Nestas residências é interessante repensar quais ambientes realmente precisam da presença da tecnologia, pois nem todos os espaços precisam da mesma carga tecnológica.
Pense também em quais são as tecnologias essenciais, como segurança, climatização, uma boa infraestrutura de internet, eletrodomésticos que facilitam a rotina e algumas automações ligadas ao conforto.
Para além da redução de eletrônicos, as dumb homes também são associadas à reconexão com a natureza, integrando elementos como jardins internos ao lar.
“A arquitetura deve buscar recursos naturais para regular o conforto, a iluminação, a incidência solar, as aberturas, os materiais que geram conforto térmico e acústico”, indica Patrícia.
Em paralelo, na decoração, a matéria passa a se tornar protagonista, integrando materiais naturais e técnicas tradicionais, como madeira, pedra, linho, cerâmica e fibras.
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